Cada vez mais embalagens de bolachas, iogurtes, cereais e bebidas exibem em letras grandes a promessa “sem açúcar adicionado”. À primeira vista, soa a escolha mais saudável. Mas, como alerta a técnica superior em Nutrição e Dietética Ana Luzón, em declarações citadas pelo site HuffPost, a mensagem merece ser lida com calma. Esta declaração comercial não significa que o alimento não tenha açúcar, apenas indica que não foi acrescentado açúcar extra durante o processo de fabrico. E a diferença, sublinha, é tudo menos irrelevante.
De forma simples, muitos consumidores acabam por interpretar “sem açúcar adicionado” como sinónimo de “baixo em açúcar”, o que nem sempre corresponde à realidade. Um produto pode cumprir a lei ao usar esta alegação e, ainda assim, apresentar uma quantidade total de açúcares comparável a versões que assumem claramente ter açúcar adicionado. O problema está menos na frase em destaque e mais na forma como é entendida por quem faz as compras, nota o HuffPost ao sintetizar as explicações desta especialista.
O que realmente quer dizer “sem açúcar adicionado”
Do ponto de vista legal, um alimento pode ostentar a frase “sem açúcar adicionado” se, na sua preparação, não tiverem sido incluídos açúcar branco ou amarelo, mel, xaropes, açúcar de cana integral ou outros ingredientes cuja função principal seja adoçar.
Isto significa que o rótulo fala apenas dos açúcares que não foram acrescentados, não dos que já lá estavam. Frutas, leite e outros ingredientes trazem consigo açúcares naturalmente presentes. Além disso, é possível recorrer a sumos, purés ou concentrados de fruta, que se comportam como açúcares livres, bem como a edulcorantes que, apesar de não entrarem na contagem de açúcar, preservam o sabor doce e mantêm o paladar habituado a esse estímulo.
Açúcares naturais, livres e edulcorantes: a zona cinzenta dos rótulos
Na prática, um produto “sem açúcar adicionado” pode conter quantidades significativas de açúcares provenientes de fruta, leite ou dos tais concentrados e purés. “O alimento pode conter açúcares de forma natural; também pode incorporar sumos, purés ou concentrados de frutas que atuam como açúcar livre; e pode utilizar edulcorantes, que não contam como açúcar, mas mantêm o sabor doce”, detalha a técnica em dietética.
É aqui que surge a confusão. O consumidor olha para a alegação e assume tratar-se de uma opção claramente mais leve ou adequada a quem quer controlar o açúcar. Contudo, se não consultar a lista de ingredientes e a declaração nutricional, pode estar a comprar um produto com uma carga de açúcares muito semelhante à de alternativas que nunca reivindicaram ser “sem açúcar”. O rótulo cumpre a legislação, mas a interpretação que o público faz nem sempre coincide com o que está dentro da embalagem.
Bolachas, iogurtes e barras “fit”: exemplos do dia a dia
Entre os exemplos apontados por Ana Luzón estão as bolachas “sem açúcar adicionado” que combinam farinhas refinadas com concentrados de fruta. O resultado é um produto com uma quantidade de açúcares que, em muitos casos, pouco difere de outras bolachas que assumem explicitamente ter açúcar na receita.
O mesmo sucede com alguns iogurtes com fruta triturada. À falta de açúcar branco, entram em cena preparados de fruta, purés ou compotas que elevam o teor total de açúcar. “Também há iogurtes com fruta triturada que aumentam o teor total de açúcar, embora não contenham açúcar branco”, exemplifica. Outro caso frequente são os cereais de pequeno-almoço ou as barras que recorrem a tâmaras, concentrado de maçã ou outros ingredientes doces com estatuto de “naturais”, mas que desempenham exatamente o papel do açúcar na perceção final de doçura.
Como ler rótulos sem cair na ilusão do marketing
Olhar apenas para a frase em destaque na frente da embalagem é o erro mais comum. Para evitar mal-entendidos, a técnica de nutrição sugere um passo simples: começar pela lista de ingredientes. “Uma regra simples é rever a lista de ingredientes e não apenas o apelo comercial. Se aparecerem ‘concentrado de fruta’, ‘puré’, ‘tâmara’, ‘xarope de arroz’, ‘xarope de agave’ ou semelhantes, significa que há açúcares livres, mesmo que não sejam ‘adicionados’ em sentido legal”, esclarece.
A seguir, vale a pena confirmar na declaração nutricional a linha dos “hidratos de carbono, dos quais açúcares”, por porção e por 100 gramas ou mililitros. Este valor é o que melhor traduz a realidade, independentemente de a origem ser açúcar de mesa, fruta, leite ou concentrados. Um produto com alegação “sem açúcar adicionado” pode, perfeitamente, registar um teor de açúcares elevado quando comparado com outras alternativas da mesma categoria.
No fim, a mensagem de Ana Luzón não é de proibição absoluta. A especialista lembra, nas declarações destacadas pelo HuffPost, que esta indicação “pode ser útil, mas só se for bem interpretada”. E conclui: “Não se trata de demonizar o doce, mas de compreender o que estamos a comprar. O importante não é evitar o açúcar a todo o custo, mas manter um padrão global equilibrado, realista e sustentável.”
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