Um médico espanhol está a gerar debate internacional ao apontar o dedo ao consumo diário de um alimento que muitos consideram inofensivo, mas que, segundo ele, é responsável por milhões de mortes todos os anos. As suas palavras, ditas num dos podcasts mais ouvidos em Espanha, abriram novamente a discussão sobre os riscos associados a determinados hábitos alimentares.
José Abellán, cardiologista espanhol com centenas de milhares de seguidores nas redes sociais, participou no programa “The Wild Project”, no YouTube, onde deixou um alerta que gerou forte reação: classificou as bebidas açucaradas e os ultraprocessados como um verdadeiro “alimento assassino”, sublinhando que este hábito aparentemente banal está ligado a milhões de mortes por doenças graves em todo o mundo.
Segundo o médico, citado pelo portal espanhol La Razón, as últimas quatro décadas trouxeram mudanças drásticas no estado de saúde global. Os casos de obesidade multiplicaram-se por sete e a principal explicação está no desequilíbrio entre o que se ingere e o que se gasta em energia. Este cenário foi acelerado pelo consumo de alimentos ultraprocessados.
O impacto dos ultraprocessados
Estes produtos industriais concentram açúcar em excesso, sal em grandes quantidades, aditivos artificiais e, ao mesmo tempo, são pobres em minerais essenciais como o magnésio ou em gorduras saudáveis, como o ómega 3. Para Abellán, o efeito mais grave não está apenas nos nutrientes, mas na forma como estes alimentos mexem com o sistema de saciedade do organismo.
O corpo humano, explica o cardiologista, está preparado para reconhecer quando recebeu calorias suficientes. Mas quando se trata de ultraprocessados, esse mecanismo falha: o cérebro não interpreta bem o que se come e a sensação de estar satisfeito chega mais tarde, levando a ingerir muito mais do que o necessário.
“É por isso que é tão fácil perder o controlo”, reforça o médico. Em vez de alimentos naturais que alimentam e saciam, acabam por dominar produtos que provocam um ciclo vicioso de fome constante, acumulação de gordura e inflamação crónica.
O exemplo do “espaço para a sobremesa”
Para ilustrar o problema, José Abellán usa uma situação familiar: “Todos já passámos por estar cheios e, ainda assim, arranjar espaço para a sobremesa”. Isso acontece, diz, porque os sabores intensamente doces foram, durante a evolução, um sinal de energia rápida, algo raro e valioso para a sobrevivência.
Os ultraprocessados aproveitam esse “atalho” biológico, tornando-se irresistíveis e substituindo frutas, legumes ou leguminosas que, ao contrário, fornecem saciedade e nutrientes protetores para o coração. O resultado é uma alimentação cada vez mais pobre, mas carregada de calorias vazias.
O médico sublinha que este mecanismo não é um detalhe. Está, segundo ele, no centro de doenças cardiovasculares e oncológicas que atingem milhões de pessoas no mundo.
Uma chamada de atenção para a saúde pública
A intervenção do cardiologista não surgiu isolada. Universidades espanholas e entidades de saúde já vinham a destacar a urgência de reduzir os ultraprocessados. A diferença é que Abellán colocou o tema em termos ainda mais diretos: “Provavelmente, grande parte da doença cardiovascular e do cancro pode ser explicada através deles”.
O especialista recorda que qualquer guia nutricional que ignore esta realidade acaba por ser incompleto. Por mais que se fale de equilíbrio ou de variedade, sem cortar no consumo de refrigerantes e snacks industriais, os riscos mantêm-se elevados.
As suas declarações despertaram eco imediato nas redes sociais. Muitos seguidores elogiaram a clareza, enquanto outros acusaram-no de exagerar. Ainda assim, o debate trouxe de volta à agenda pública a questão da alimentação como arma preventiva contra doenças.
O que muda no dia a dia
Para o cardiologista, a mudança não passa por adotar dietas complicadas ou eliminar todo o prazer da mesa. O essencial é reduzir progressivamente as bebidas açucaradas e os produtos mais industrializados, substituindo-os por opções simples: frutas frescas, vegetais, leguminosas e gorduras saudáveis, como azeite ou frutos secos.
Essa substituição ajuda o corpo a recuperar o sistema natural de saciedade, a controlar melhor o peso e a diminuir inflamações que estão na base de várias patologias. É também uma forma de devolver protagonismo aos alimentos tradicionais da dieta mediterrânica, amplamente reconhecida pelos seus benefícios.
De acordo com o La Razón, a questão que o médico deixa no ar é clara: até que ponto estamos dispostos a trocar conveniência imediata por mais anos de vida com qualidade?
Leia também: Alerta para quem tem conta neste banco português: falha de segurança expôs IBAN de clientes através do telemóvel
















