Há silêncios que matam, e a inatividade política no Algarve é um deles. Como uma doença latente, alastra-se sem resistência e sufoca o futuro antes mesmo de nascer. Ou quebramos este ciclo, ou seremos cúmplices da paralisia que nos consome.
Vamos diretamente à raiz do problema: a valorização excessiva do turismo em detrimento do desenvolvimento social e das oportunidades económicas. As políticas das nossas autarquias giram em torno do turismo, vendendo-nos a ilusão de que a região é um destino perfeito para eventos únicos. A fome constante pela taxa turística revela um modelo econômico que depende excessivamente do turismo. No entanto, não podemos ignorar que esta mesma taxa financia outros projetos importantes na região. O problema não é a existência da taxa em si, mas a falta de um equilíbrio na sua utilização.
Contudo, este é apenas um dos muitos sintomas do problema. O Algarve transformou- se num destino de passagem e não numa região que investe verdadeiramente na qualidade de vida dos seus residentes. O turismo é, sem dúvida, um setor essencial, mas o seu desenvolvimento não pode ser feito à custa da estagnação de outras áreas fundamentais. Enquanto os eventos e os hotéis crescem, as oportunidades restringem-se a servir o visitante. Onde está a aposta na educação, na investigação e na fixação de talento?
Que tal tornarmos o Algarve num polo de ensino superior, investindo na criação e no desenvolvimento de politécnicos e institutos? Que tal sermos um centro de investigação médica, com um hospital de referência? E porque não incentivar estudos para um transporte elétrico no Algarve, semelhante ao metro, para que possamos competir com Lisboa e Porto? Nem venham com a conversa do MetroBus. Vamos trabalhar com a Andaluzia para criar uma ligação ferroviária entre Faro e Huelva, tal como Lisboa e Porto trabalham para se conectarem a Espanha. Existem várias soluções e propostas, no entanto, o Algarve contentou-se com o mínimo, e quando se pretende fazer algo, podemos apostar muito bem que vai demorar um bom tempo, com sorte não vence os 17 anos que a ponte da praia de Faro demorou a ser concretizada, uma ponte que depois de uns meses de inauguração, já encontra-se a cair.
Tornou-se normal tratarmos a nossa região como um cenário de passagem para turistas, pois se for para construir um hotel de cinco estrelas, num estalar de dedos será feito. Mas o Algarve não pode ser apenas um destino. Precisa de ser um lar, para quem? Para nós, nós os algarvios, nós os jovens que somos o futuro desta região, pois se formos embora, o Algarve estará em péssimas condições.
A Universidade do Algarve (UAlg) é um reflexo dessa dualidade. Se por um lado existem lacunas evidentes na oferta das Humanidades e Artes, por outro não podemos ignorar que a UAlg é um centro de referência nos estudos marítimos e noutras áreas específicas. Devemos criticar a falta de investimento equilibrado, mas também reconhecer os avanços, como a nova residência universitária e a parceria com outras instituições universitárias que disponibilizam formações gratuitas.
O Algarve também enfrenta outro problema estrutural: a sua representação na Assembleia da República. É notório como a nossa região é negligenciada nos grandes debates parlamentares. No entanto, é de aplaudir e celebrar o trabalho que os deputados em representação do Algarve têm feito, apesar do pequeno espaço existente para o debate sobre a nossa região.
A ideia da inatividade política no Algarve é reforçada também por uma falta de organização cívica e de participação. Ao contrário de Lisboa, onde existem diversas organizações juvenis e políticas ativas, muitas localidades do Algarve praticamente não têm estrutura alguma. Mesmo quando existem formações e eventos, a sua divulgação é fraca e o acesso é extremamente limitado. Quando ocorre, será em locais de difícil acesso para um jovem sem carro, o que torna a presença impraticável devido à falta de transportes públicos..
O atraso na modernização também se reflete na forma como divulgamos a nossa cultura e conhecimento. A região carece de uma estrutura mais moderna e visível, capaz de oferecer mais oportunidades de desenvolvimento para os jovens, seja em termos de avanço profissional ou científico. Embora existam algumas iniciativas locais, elas não são suficientes para impulsionar uma qualificação consistente e ampla. Além disso, a falta de modernismo nas infraestruturas culturais e académicas agrava ainda mais a situação. Os centros históricos e outras instituições de várias cidades algarvias que podem servir como locais de formação técnico-científica, por exemplo, não tem uma página própria, as páginas existentes estão desatualizadas ou interligadas à página geral da Câmara Municipal, que apresenta um design antiquado e funcionalidades que não atendem às necessidades atuais. Nem em coisas tão básicas estamos atualizados…
O resultado é uma falta de atratividade e engajamento por parte dos jovens universitários e da comunidade em geral, o que agrava ainda mais a distância entre o potencial da região e as oportunidades reais de crescimento. Portanto, acredito que um trabalho conjunto entre as várias instituições do Algarve poderia ajudar a superar essas falhas, criando uma rede mais coesa e acessível de iniciativas, recursos e oportunidades que impulsionam o desenvolvimento académico e profissional da nossa região.
Um outro verdadeiro problema é que os nossos autarcas têm a linda opção de culpar o governo central, embora também seja verdade que em certas situações tem razão, como o caso da A22, o Hospital Central e entre outros. No entanto isto tornou-se numa oportunidade perfeita para os nossos presidentes de autarquia se desleixarem, lavarem as mãos da responsabilidade e atirarem toda a culpa para Lisboa.
E nós? O que fazemos? Nada. Não criamos movimentos de associação, quase não temos organizações de jovens políticos e falta-nos ambição. Estamos presos a um conformismo que nos impede de avançar.
Sobre Taras Bulka:
Natural de Vila Real de Santo António, é estudante de História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Possui um especial interesse pela cultura, o ensino e a política. Diz-se fascinado pelo impacto da arte e do pensamento crítico na sociedade e, tem como objetivo prosseguir os estudos académicos na área do ensino e da cultura.
Artigo publicado no Jornal do Algarve.
Leia também: Para breve em Portugal? Espanhóis adotam medida inédita para a restauração

O Europe Direct Algarve faz parte da Rede de Centros Europe Direct da Comissão Europeia. No Algarve está hospedado na CCDR Algarve – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve.
CONSULTE! INFORME-SE! PARTICIPE! Somos a A Europa na sua região!
Newsletter * Facebook * Twitter * Instagram