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Chimamanda Ngozi Adichie é considerada uma das escritoras mais relevantes da atualidade | Foto Manny Jefferson | DR
Cultura.Sul, Edição Papel, Opinião

Chimamanda Ngozi Adichie: Entre a América e África – Sonho e Desencantamento | Por Paulo Serra

LETRAS & LEITURAS: Artigo de Paulo Serra publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul de abril

07:30 4 Abril, 2025 09:48 6 Abril, 2025
Cristina MendonçaCristina MendonçaJornalista
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Na internet pode-se encontrar um vídeo de uma TedTalk em que Chimamanda narra como cresceu a ler histórias infantis e juvenis de crianças de cabelos louros e olhos azuis, que adoravam brincar na neve, comer maçãs e falavam frequentemente do tempo e da sorte que tinham quando fazia um dia de sol. A ficção não podia ser mais gritantemente distinta da realidade desta autora, traduzida agora em mais de 55 línguas, nascida na Nigéria em 1977, que foi estudar para os Estados Unidos aos dezanove anos.

Chimamanda Ngozi Adichie cresceu na Nigéria. É autora dos romances A Cor do Hibisco, vencedor do Commonwealth Writers’ Prize e do Hurston/Wright Legacy Award; Meio Sol Amarelo, adaptado a filme, distinguido com o “Winner of Winners” (o “Vencedor entre todos os Vencedores”) do Women’s Prize for Fiction, vencedor do Orange Prize e finalista do National Book Critics Circle Award; Americanah, vencedor do National Book Critics Circle Award e Livro do Ano do New York Times, Washington Post, e Chicago Tribune, entre outros; da coletânea de contos A Coisa À Volta do Teu Pescoço (tradução de Ana Saldanha), e do ensaio Todos Devemos ser Feministas. Em 2008, recebeu a prestigiada bolsa da MacArthur Foundation. A escritora divide o seu tempo entre a Nigéria e os Estados Unidos.

São também de sua autoria os ensaios Todos Devemos ser Feministas e Querida Ijeawele – Como Educar para o Feminismo.

PAULO SERRA
Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
Desde o seu romance de estreia, revelou-se uma promissora escritora em ascensão, capaz de encontrar a sua própria voz, e que prima pelo seu espírito crítico e inteligentemente divertido

As suas obras mais recentes são um ensaio sobre a perda do pai, Notas sobre o Luto; e O Lenço da Mamã, um livro infantil escrito sob o pseudónimo Nwa Grace James. Beneficiária de uma bolsa MacArthur, divide o seu tempo entre os Estados Unidos e a Nigéria.

A autora nigeriana é publicada em Portugal pela Dom Quixote que, em sincronia com o lançamento do seu mais recente livro, acaba de relançar as suas principais obras, entre romance e contos, com novas capas de cores vibrantes.

Desde o seu romance de estreia, revelou-se uma promissora escritora em ascensão, capaz de encontrar a sua própria voz, e que prima pelo seu espírito crítico e inteligentemente divertido.

Inventário de Sonhos

Inventário de Sonhos é o novo e muito aguardado romance de Chimamanda Ngozi Adichie, que chegou às livrarias, em lançamento mundial, dia 4 de março. A tradução é de Elsa T.S. Vieira.

Publicado cerca de 13 anos depois de Americanah, e representando um dos acontecimentos literários deste ano, as primeiras linhas lançam de imediato o leitor em várias direções, pois ressoam aspetos das obras anteriores da autora. Narrado na primeira pessoa, Inventário de Sonhos apresenta-nos Chiamaka, escritora nigeriana a viver nos Estados Unidos. Sofisticada, viajada, mas também inocente e nova, Chia vive sozinha, em plena pandemia, relembra amores antigos e confronta-se com as escolhas que fez e os arrependimentos que carrega, entre sessões zoom com os familiares nigerianos e notícias de filas patrulhadas em hipermercados para a compra de papel higiénico. Inicialmente, podemos pensar que lemos a voz da própria autora, em jeito de confissão, pois a escrita é despida e intimista, como acontecia em Notas sobre o Luto, o seu pequeno livro de não-ficção, lançado durante a pandemia, em que nos dava conta das conversas online com a família na Nigéria, até receber a notícia da morte do pai…

O jeito confessional desta mulher que tenta manter a sanidade mental nos pequenos gestos que regulam o quotidiano, como aplicar óleo nas pontas “cada vez mais finas” do seu cabelo, ao mesmo tempo que rememora, quase em estilhaços, as suas relações passadas, remete ainda o leitor para Americanah, quando a protagonista desfia a história da sua vida, nomeadamente da sua infância na Nigéria, num salão de cabeleireiro…

Chiamaka, conhecida como Chia, é uma jovem de famílias endinheiradas, que toleram alimentar o que consideram ser um “diletantismo”, ao escrever sobre viagens para publicações online – nem sequer é para revistas, ou jornais… O (em breve) ex-namorado lança-lhe diversas vezes em cara que a família dela terá enriquecido com o tráfico de escravos da sua própria tribo Igbo.

Com 44 anos, Chia está solteira e sem filhos, uma calamidade ainda mais acentuada devido ao facto de não lhe faltarem pretendentes… Desgraça ainda maior se pensarmos que ela tem um curso superior (aqui sou eu que falo, e não o livro, pois através de histórias pessoais de amigas e colegas sei como é difícil em países africanos uma mulher com estudos encontrar um companheiro…). Em torno de Chia, e a lembrar romances e séries mais atuais, gravitam várias personagens femininas, amigas de longa data, mulheres formadas e bem-sucedidas. A sua melhor amiga, Zikora, é uma advogada de sucesso, a sua prima, Omelogor, é uma mulher proeminente no mundo da alta finança na Nigéria, mas temos ainda, noutro espetro social, Kadiatou, a sua empregada doméstica, que é como “família”, que está a criar a filha nos Estados Unidos.

Este é um romance que, ainda que se centre sobretudo num polémico caso sexual da altura da pandemia, fala de relações humanas e de como parte da dificuldade de se construir uma relação (porque estas não se encontram, criam-se) vem do facto de, no caso das mulheres, poderem estar moldadas pelos romances, e, no caso masculino, estes serem “educados” pela pornografia – não é mera coincidência que uma das personagens esteja a realizar uma tese sobre Estudos Culturais focando-se na pornografia como modelo masculino. Ou seja, se os homens pensam que a vida (sobretudo na cama) é como nos filmes, as mulheres pensam que o amor é cor-de-rosa, como quando uma amiga admoesta Chia:

“- Chia, este homem é um bom partido. Não há nada melhor por aí. A vida não é um romance.” (p. 122)

Sempre gostei da escrita de Chimamanda Ngozi Adichie, considerada uma das escritoras mulheres mais relevantes da atualidade, especialmente pelo seu condão de tratar de temas sérios sem perder a ligeireza narrativa, que ilude o leitor relativamente à densidade e complexidade dos temas sérios e atuais que aqui emergem.

Considero particularmente ilustrativo, e deliciosamente irónico, o momento em que Omelogor despede o seu chef privado, Philippe, por não admitir ódio pela sua própria cultura por parte de um africano na sua própria casa. Tão nigeriano quanto ela, fica profundamente ofendido quando ela recorrentemente prefere um arroz jolloff a um soufflé ou uma bouillabaisse. Mas o choque, também cultural, dá-se quando ele a chama de selvagem ao pedir okpa para o pequeno-almoço.

Entre outros exemplos, um que mais me tocou foi quando o melhor amigo de uma das personagens-mulheres da galeria de protagonistas acha ridícula a ideia de financiar um projeto de apoio a pequenos negócios criados de mulheres.

A ideia não é, de todo, ridícula. Aliás, nem é nova. Assim se comprovou num projeto de cooperação para o desenvolvimento, apoiado pela nossa cooperação, em África, quando em vez de continuar a dar dinheiro aos homens de uma vila piscatória para se tornarem mais autossuficientes, e que rapidamente o desterravam, passaram a entregá-lo diretamente às mulheres, que não só se conseguiam manter ao longo do mês como criaram uma rede de trocas diretas e fizeram com que os seus pequenos negócios prosperassem.

A este propósito, e graças a uma troca de mensagens com a tradutora do próprio romance, Elsa T. S. Vieira, descobri um pequeno projeto, designado Kiva (encontra-se facilmente a página no Facebook). O Kiva permite fazer pequenos empréstimos, sendo que nós, como credores, podemos escolher entre vários pequenos negócios em todo o mundo. E com valores insignificantes, que podem representar um almoço ou um jantar por mês, fazemos a diferença, por exemplo, para uma senhora que vende frutas na Nicarágua e precisa de um frigorífico (nunca me esqueço, aliás, do meu espanto ignorante quando a minha empregada em Moçambique – onde o salário pode ser menos de cem euros por mês – me dizia que estava a juntar para comprar um pequeno frigorifico para casa).

Ao deflagrar da pandemia, e de uma constelação de sonhos que ameaça fragmentar-se, subjaz ao texto uma análise de questões delicadas e atuais, como uma África que não é pobre de sonhos nem de recursos, mas por assentar num materialismo ocidentalista, e numa América provinciana que acha que o mundo exterior, nomeadamente África, só existe à sua imagem.

É na parte final do romance que este ganha novo fôlego, quando se multiplicam as questões e os confrontos culturais que surgem em torno de Omelogor, em ambiente académico, que nos reconta as discussões mais surreais. Ela partiu para a América para evitar a corrupção africana, apenas para ser confrontada com o desencanto da pequenez americana e uma série de outros valores profundamente distorcidos.

Notas Sobre o Luto

Notas Sobre o Luto, com tradução de Tânia Ganho, leva-nos ao fatídico ano de 2020, com o deflagrar da pandemia. Naquele que é o livro mais pessoal e intimista da autora, Chimamanda faz-nos regressar aos rituais vividos durante o confinamento, como as reuniões familiares por videochamada, até que o seu próprio mundo soçobra. O académico James Nwoye Adichie, nascido em 1932, morre subitamente no dia 10 de junho de 2020, na Nigéria. A filha tinha-o visto ao vivo, pela última vez, a 5 de março, «pouco tempo antes de o coronavírus ter mudado o mundo» (p. 97).

«A notícia é como um desenraizamento brutal. Sou arrancada à força do mundo que conheci desde a infância.» (p. 9)

Notas Sobre o Luto é o livro mais pessoal e intimista da autora

Numa reflexão profunda e pertinente de uma época que nos marcou a todos um pouco por todo o mundo, em que à dor da perda se juntou o terrível limbo de as pessoas não saberem quando seria possível enterrar os mortos, ou terem de o fazer sem estar fisicamente presentes, para poder enterrar uma parte da sua própria dor, Chimamanda tece os fios da história da vida do pai até aos seus últimos dias, falando-nos, por exemplo, de como o namoro dos pais, em 1960, foi iniciado sem nenhum dos dois estar presente; apresentando-nos um pouco da cultura ibo; e reportando-se aos seus antepassados, como o pai do seu pai, vendido como escravo pelos próprios familiares a membros de outra etnia.

«O luto é uma forma cruel de aprendizagem. Aprendemos que a dor de perder alguém pode ser muito dura, cheia de raiva. Aprendemos que as condolências podem afigurar-se-nos completamente ocas. Aprendemos que uma grande parte do luto se prende com a linguagem, com o fracasso da linguagem e a busca de linguagem.» (p. 11)

Meio Sol Amarelo

Este romance, também traduzido por Tânia Ganho, transporta-nos a uma tumultuosa Nigéria durante a década de 60.

Ugwu, de treze anos, trabalha como empregado doméstico de Odenigbo, um professor universitário movido pela causa revolucionária. Olanna, a amante do professor, abandonou uma vida de privilégio em Lagos pela pequena cidade universitária onde acredita poder viver a sua história de amor. Richard, um inglês tímido, apaixona-se desesperadamente por Kainene, a enigmática irmã gémea de Olanna.

Meio Sol Amarelo transporta o leitor para uma tumultuosa Nigéria durante a década de 60

A iminência de uma guerra civil vai testar os seus ideais, ameaçar as suas vidas e tornar definitivas as posições e os lados que tomarem – sobre amor e responsabilidade, nação e família, lealdade e traição.

Distinguido com o “Winner of Winners” (o “Vencedor entre todos os Vencedores”) do Women’s Prize for Fiction, Meio Sol Amarelo é uma saga épica sobre responsabilidade moral, colonialismo, classe e raça – e sobre as formas como o amor complexifica as relações humanas.

Uma das obras mais complexas da autora, em que se descentra de uma única figura feminina, um pouco à semelhança do que faz no seu mais recente romance.

A Cor do Hibisco

Apesar de ser o primeiro livro desta autora, li-o posteriormente, após todos os outros.

Com tradução de Tânia Ganho, este romance curiosamente ressoa como um prenúncio daquilo que depois encontramos em Americanah, na medida em que a jovem narradora, silente, tímida, irá gradualmente ganhar a sua voz – bastante prolixa no seu último romance.

A Cor do Hibisco ganhou o Commonwealth Writers’ Prize e o Hurston/Wright LegacyAward

Uma prosa contida que desvela calmamente a opressão vivida no seio de uma família nigeriana de classe alta, onde o pai é aliás reconhecido e venerado como um Grande Homem, sempre pronto a ajudar a comunidade, dada a sua prosperidade e importância. Só aos poucos percebemos a podridão que existe no seio de um catolicismo fervoroso, quase obsessivo, a violência e, conforme já disse, a opressão, como se o pater familias fosse aliás um símbolo do antigo regime político que vigora na Nigéria que nos é descrita por Chimamanda. Seria uma associação já corriqueira, perspetivar o homem como o símbolo de um regime patriarcal e ultrapassado, mas o pai da jovem narradora é, afinal, um homem bondoso, fruto de uma religião católica firme e castradora, e chefe editorial de um importante jornal que não teme denunciar a corrupção e os abusos tiranicidas do governo.

O livro é rico em comparações e o próprio hibisco do título, atendendo à capa roxa e ao hibisco que os dois irmãos admiram, como flor híbrida, de cor insólita, parece simbolizar novos princípios. E o fim, numa época em que já tão pouca coisa me surpreende, é um murro no estômago.

Americanah

Americanah, uma portentosa obra com tradução de Ana Saldanha, segue a vida adulta de uma nigeriana, Ifemelu, que vive na América e alcançou um certo estatuto na sua vida. Conseguiu uma bolsa em Princeton, tem uma relação com Blaine, professor em Yale, um homem que lhe é completamente dedicado, é conhecida pelo seu blog sobre questões de raça onde a sua voz é reconhecida como mordaz, inteligente, divertida.

Mas esta mulher não está completamente satisfeita. Ao sentar-se num salão de cabeleireiro especialmente dedicado a cabelo africano, com as jovens empregadas do salão a circular em seu redor, constatando (que é como quem diz invejando) a sua pronúncia, o seu sucesso, Ifemelu parece apenas refletir no seu passado, mergulho esse que é motivado pela cisão que se afigura na sua vida, pois esta jovem nigeriana entretanto americanizada, mas só até certo ponto, decide deixar o estatuto que alcançou para voltar ao seu país natal. E dizemos americanizada (daí o título do romance: Americanah, com a ironia característica da voz da heroína e da autora patente na corruptela da palavra americana), até certo ponto, porque esta jovem continua presa às memórias da Nigéria, memórias essas que irão desfilar ao longo do resto do romance, que nos apresenta a sua vida passada: a infância e adolescência na Nigéria, o seu namoro com Obinze, a vida dos seus pais, da sua tia, numa espécie de mosaico da realidade nigeriana das últimas décadas. As dúvidas que rondam Ifemelu transparecem no próprio facto de para encontrar esse salão africano, a protagonista tem de atravessar a zona de conforto onde reside para chegar a Trenton, uma espécie de subúrbio, o que reflete a intenção crítica social, cultural e racial do romance. Tal como Ifemelu faz no seu blogue, ao escrever e lançar debates sobre questões de raça e de género, Chimamanda dança na corda bamba conseguindo manter um delicado equilíbrio entre a lamechice de um romance que fala de uma paixão perdida na adolescência para mais tarde poder vir a ser reencontrada e as questões de identidade que atravessam esta mulher africana a viver num país estrangeiro.

Durante o decurso do que parecia uma adolescência absolutamente pacífica, no seio de uma família carinhosa e com uma boa situação económica, a ditadura deflagra na Nigéria, com consequências mais ou menos diretas e imediatas junto da sua família. O pai é despedido porque se recusa a dirigir-se à sua chefe como “Mamã” conforme ela o obriga. A tia Uju, amante de um general e que vivia num apartamento subsidiado por essa figura da nação, de forma luxuosa sem ter de trabalhar, acaba por se ver sem chão. E assim, a posição económica dos pais decresce, enquanto o próprio país vive tempos conturbados, que se traduzem em constantes greves no ensino e que motivam a partida de Ifemelu para os Estados Unidos da América apesar das dificuldades económicas que os pais atravessam e, por conseguinte, ela também, chegando a passar fome e, a certa altura, a ter de se prostituir para conseguir alimentar-se.

Naturalmente que este não é um romance sobre os flagelos da escravatura, ou do apartheid, mas reflete como na contemporaneidade o ser humano ainda continua a balizar-se por preconceitos e estereótipos. O próprio livro parece ter capítulos e capítulos em que se fala de cabelo, onde se descrevem exaustivamente os tratamentos que o cabelo típico de uma mulher africana deve levar, aliás penosos. A questão do cabelo, mais do que a cor, e a forma como a mulher o usa, acaba por refletir a adaptação desta jovem nigeriana ao meio americano: Ifemelu vive e move-se na América, mas recusa-se a esticar o cabelo de forma a parecer mais ocidental, mais civilizada, para ser mais facilmente aceite nos meios em que se move. Tal como a certa altura do romance se pode ler como a irrita particularmente o facto de as empregadas do salão, do Mali e do Senegal, parecerem esperar dela, apenas por partilharem a mesma cor, uma espécie de sentimento de irmandade, da mesma forma que a irrita, por outro lado, que outros se refiram a ela como africana, como se o continente da África fosse todo um país. Mas corre-lhe nas veias o sangue africano ou nigeriano, e por isso mesmo Ifemelu boicota a sua relação perfeita com um homem negro perfeito, Blaine, como manifestação de um sentimento maior de inadaptação ao país. Sentimento esse de não pertença que está também personificado na relação de amor entre Ifemelu e Obinze que depois de tantos anos, e como se esse fosse também um dos preparativos para a sua partida de regresso à Nigéria, despindo a pele de mulher americanizada, que anseia apenas pela sua terra e pelo rapaz agora homem que nunca deixou de amar, ainda que a sua memória possa estar tão-somente envolta numa neblina romântica de idealismo e platonismo, que funciona como armadura contra a negritude que os envolve.

O próprio Obinze acaba por tentar a vida em Londres mas vê-se reduzido a trabalho pesado, clandestino e mal pago, enquanto outro nigeriano que terá alcançado grande sucesso quando emigrou (uma mentira que ele tenta alimentar a todo o custo até confessar a verdade ao seu amigo de juventude) lhe tenta arranjar um casamento por conveniência que lhe permita obter um visto de residência, o que acaba de forma desastrosa. Paradoxalmente, quando se vê obrigado a regressar à Nigéria, a posterior ascensão de Obinze reveste-se ainda de uma sombra duvidosa quanto à legalidade do seu trabalho, ainda que seja essa mesma obscuridade que permitem a aparência de uma vida perfeita, com uma casa palaciana, e uma mulher apostada em manter o luxo que acha adequado à sua existência.

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Sonhos agridoces (ou a pátria como lugar que só se lembra de nós quando nos convém) | Por José Figueiredo Santos

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"Eu não espero que o país fracasse. Limito-me a reconhecer que, caso fracasse, poderá precisar de mim"

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Loulé e os resíduos: entre o discurso ambiental e a realidade | Por Bruno Castelão Santos

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"Não basta exigir civismo aos munícipes. É preciso garantir que sabem o que fazer e que dispõem de alternativas acessíveis e eficazes"

Papa Leão XIV.
Mundo, Saúde

Papa Leão XIV já foi internado e vai remover um nódulo pulmonar ainda esta tarde

15:00 13 Outubro, 2026 14:54 13 Outubro, 2026

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