Profundamente enraizado na mesa portuguesa, este peixe é uma iguaria que nem sempre recebe o destaque da dourada ou do robalo. Do litoral às zonas ribeirinhas, a enguia faz parte de tradições seculares e chega a atingir preços que surpreendem até os mais conhecedores dos mercados.
Durante séculos, foi vista como alimento acessível em zonas ribeirinhas e costeiras. Hoje, esta iguaria tornou-se símbolo de exclusividade em restaurantes de renome e em mercados especializados de peixe. O que antes era comum nas mesas de famílias simples, transformou-se em produto de prestígio.
A raridade é uma das principais razões para esta mudança. Já não se encontra facilmente como no passado, e a pressão da procura acabou por inflacionar os preços. Em algumas épocas do ano, pode atingir valores considerados exorbitantes para um peixe tradicional.
Um peixe com forte ligação a Portugal
As enguias estão profundamente ligadas à identidade gastronómica de diversas regiões portuguesas. No Ribatejo e em Aveiro, por exemplo, são a base de pratos emblemáticos que atravessaram gerações. Fritas, em caldeirada ou em ensopado, são um verdadeiro ex-libris local.
No Algarve, também não faltam histórias que mostram como este peixe foi presença habitual nas cozinhas mais humildes. Preparado de formas simples, alimentou famílias inteiras, tornando-se parte da memória coletiva da região.
Hoje, as enguias ocupam um lugar de destaque não só na gastronomia regional, mas também na economia. O seu valor crescente coloca-as na categoria de iguarias raras, cada vez mais procuradas por turistas e apreciadores de cozinha tradicional.
Preços que surpreendem
Nos mercados nacionais, as enguias podem atingir preços de luxo. Dependendo da época, a venda ao quilo pode ultrapassar o de espécies nobres como o robalo ou o linguado. Esta escalada de valor está ligada não apenas à procura, mas também à redução da disponibilidade.
A pesca é cada vez mais controlada, devido à pressão sobre os ecossistemas. As enguias enfrentam desafios ambientais que dificultam a sua abundância, e isso repercute-se diretamente nos preços finais pagos pelo consumidor.
Restaurantes de alta cozinha aproveitam essa exclusividade para transformar pratos de enguia em experiências gastronómicas de topo. O peixe deixou de ser apenas uma tradição local e passou a integrar cartas sofisticadas, onde é tratado como produto de luxo.
Um desafio para o futuro
Christopher Pike, Victoria Crook e Matthew Gollock (IUCN Anguillid Eel Specialist Group), autores da avaliação da IUCN que classifica a espécie como Criticamente Ameaçada e descreve o ciclo de vida complexo e as pressões (barragens, poluição, pesca, alterações oceânicas), alertam para a necessidade de equilibrar a tradição com a preservação. As enguias têm um ciclo de vida complexo, que envolve migrações longas entre rios e o oceano, o que as torna particularmente vulneráveis a alterações ambientais e à sobrepesca.
Projetos de conservação procuram garantir que as futuras gerações possam continuar a provar este peixe tão ligado à identidade portuguesa. Mas a pressão do mercado levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do consumo em larga escala.
Apesar dos desafios, uma coisa é certa: o fascínio pelas enguias continua vivo. Do prato popular ao menu de luxo, o percurso deste peixe é exemplo de como a tradição pode ganhar um novo estatuto à mesa.
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