Em 7 de junho de 1494, diplomatas da Coroa de Castela e do Reino de Portugal assinaram, em Tordesilhas (perto de Valladolid), o tratado que traçou uma linha imaginária de polo a polo a 370 léguas a oeste de Cabo Verde, um acordo pensado para travar rivalidades no Atlântico, mas que, em leituras posteriores, chegou a ser apontado como capaz de “cortar” a Gronelândia sem que os negociadores tivessem verdadeira noção da geografia do Ártico.
O documento ficou conhecido como Tratado de Tordesilhas e procurava responder ao problema político criado após a viagem de Cristóvão Colombo: quem ficava com as “terras descobertas e por descobrir” fora da Europa, num mundo que os mapas ainda não conseguiam representar com precisão.
Na prática, a “raia” atribuía a Portugal o que fosse encontrado a leste e a Castela o que ficasse a oeste, mas o tratado não fixava graus exatos de longitude e a medição de léguas variava, um detalhe que explica por que motivo a localização concreta do meridiano foi, desde cedo, motivo de discussão entre cartógrafos.
A Gronelândia entra na história por um “efeito de projeção” no mapa
De acordo com o jornal espanhol AS, a ideia de que a linha de Tordesilhas poderia atravessar a Gronelândia (e até colocar grande parte da ilha do “lado português”) tem sido retomada em textos de divulgação e depende de reconstruções cartográficas: é uma leitura moderna de uma fronteira desenhada sem conhecimento sólido do extremo norte.
Esse debate ganhou novo fôlego por detalhes em mapas do início do século XVI, como o Planisfério de Cantino (1502), que inclui a linha de Tordesilhas e representa terras do Atlântico Norte em contexto de disputa de influência, ainda que a cartografia da época fosse imperfeita e frequentemente especulativa.
Ou seja: mais do que um “Portugal ficou com 90%” da Gronelândia, o que é seguro dizer é que o tratado criou uma partilha teórica do mundo, e que mapas e leituras posteriores alimentaram interpretações sobre o que isso significaria no Ártico, um território que não estava no radar político ibérico de 1494.

Corte-Real: as viagens portuguesas que tocaram o gelo
Poucos anos depois, a curiosidade (e o cálculo estratégico) empurraram Portugal para norte. Fontes históricas apontam que Gaspar Corte-Real navegou em 1500 e voltou a partir em 1501 com três navios; a expedição enfrentou gelo e dificuldades, e Gaspar acabaria por desaparecer, sem regresso a Portugal.
Em 1502, o irmão Miguel tentou encontrá-lo e também desapareceu, numa sequência trágica que ilustra bem como o Atlântico Norte era, então, um limite físico e humano para qualquer potência europeia.
Apesar do fascínio de narrativas que ligam diretamente estes episódios a “direitos” do tratado, o que as fontes evidenciam é sobretudo a lógica do período: procurar novas rotas e territórios, num quadro em que Tordesilhas era mais bússola diplomática do que mapa exato.
Os bascos e o “Ártico produtivo” antes de haver bandeiras fixas
Enquanto exploradores desapareciam, o negócio avançava. No século XVI, a caça à baleia no Atlântico Norte tornou-se uma indústria organizada, e Red Bay (Labrador, Canadá) é hoje um dos exemplos mais bem documentados dessa presença basca, com vestígios de múltiplas estações de processamento e arqueologia subaquática de navios.
A própria Parks Canada refere que a investigação arqueológica identificou restos de dezenas de estruturas/estações ligadas à atividade baleeira e descobertas subaquáticas relevantes, ajudando a explicar como funcionava uma economia de “óleo” (gordura) que iluminava cidades europeias antes da era do petróleo.
A Gronelândia surgia, neste contexto, como espaço de navegação e proximidade, mas não como colónia efetiva ibérica: a presença era sobretudo marítima, sazonal e económica, muito diferente da ocupação política que, séculos depois, seria consolidada por outros atores no Ártico.
Como a Gronelândia acabou formalmente na órbita dinamarquesa
A colonização moderna dinamarquesa é geralmente associada a 1721, com a missão liderada por Hans Egede no âmbito da coroa dano-norueguesa, um marco que abriu caminho a uma presença mais contínua no território.
Já em 1814, no contexto das Guerras Napoleónicas e do Tratado de Kiel, a dissolução do reino Dano-Norueguês levou a que colónias como a Gronelândia permanecessem sob soberania dinamarquesa, clarificando uma realidade política que nada tinha a ver com as intenções originais de Tordesilhas.
De acordo com o AS, a história da “Gronelândia de Tordesilhas” funciona mais como retrato de uma época, a de impérios a desenhar linhas com informação incompleta, do que como título de posse real: um detalhe curioso que volta à conversa sempre que o Ártico entra no centro da geopolítica.
















