A imagem de uma localidade branca voltada para o Guadiana guarda em si a memória de várias civilizações. Do topo das suas muralhas avista-se a planície alentejana e, ao fundo, o rio que nasce em Espanha e segue o seu percurso até ao Algarve, terminando no Atlântico. Mais do que um ponto geográfico, este é um lugar que preserva o traçado medieval, respira heranças islâmicas e convida a descobrir um património raro.
De acordo com a revista espanhola Hola!, a vila em questão é Mértola, que se situa no Baixo Alentejo, junto à fronteira espanhola. Erguida sobre camadas de história, conserva ruas estreitas pavimentadas em pedra, casas caiadas de branco com apontamentos de azul e ocre, além de recantos sombreados que revelam o legado árabe. O núcleo amuralhado, conhecido como Vila Velha, é um “verdadeiro labirinto” que convida a ser percorrido a pé.
Vestígios de várias civilizações
O traçado atual deve muito à antiga Mārtulah islâmica, que deu prosperidade económica à região e a transformou num importante porto fluvial. Segundo a mesma fonte, a influência árabe continua visível nos arcos, pátios interiores e perspetivas que surgem em cada esquina. É também neste espírito que, a cada dois anos, em maio, decorre o Festival Islâmico, recriando um um espaço com artesanato, música, dança e gastronomia.
Entre os pontos mais marcantes encontra-se a Igreja Matriz. À primeira vista parece ser um templo manuelino do século XVI, mas no interior escondem-se as origens: a antiga mesquita do século XII, com a planta quadrangular e o mihrab ainda visível atrás do altar. Conforme a Hola!, sob este edifício existiram também estruturas romanas e um complexo paleocristão, revelando a sobreposição de épocas.
Castelo e museus a céu aberto
Subindo até ao ponto mais alto da vila encontra-se o castelo. Após a reconquista por D. Sancho II, a fortaleza islâmica foi adaptada pela Ordem de Santiago, que ali fixou a sua sede. Escreve a revista espanhola que a Torre de Menagem, com quase 30 metros de altura, oferece hoje uma vista de 360 graus sobre o Guadiana e as paisagens alentejanas. No interior, funciona um museu que ajuda a interpretar os séculos de ocupação.
A própria vila é descrita como um museu vivo. O trabalho iniciado pelo arqueólogo Cláudio Torres, em 1978, revelou camadas históricas preservadas pelo isolamento da região. Acrescenta a publicação que em vários pontos é possível visitar alguns ‘achados’, como as ruínas de um bairro islâmico, uma basílica paleocristã com batistério e necrópole, ou mosaicos romanos sob o edifício da Câmara Municipal.
Guadiana e a mesa alentejana
A identidade de Mértola está também ligada ao rio que a banha. O Guadiana integra um parque natural com quase 70 mil hectares, abrangendo o troço entre a fronteira espanhola e o Pulo do Lobo, cascata com cerca de 20 metros de altura. Refere a mesma fonte que José Saramago, na obra Viagem a Portugal, evocou a imponência desse lugar, onde a água se encaixa numa garganta rochosa.
De salientar que, ao navegar no Guadiana a partir de Mértola e no sentido sul irá deparar-se com a vila de Alcoutim, já no Algarve. Mais abaixo irá encontrar a famosa cidade de Vila Real de Santo António.
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