Um novo anfíbio extinto foi identificado em Portugal e acaba de ser descrito pela ciência, a partir de fósseis encontrados na Lourinhã e na antiga mina de carvão da Guimarota. O animal viveu há cerca de 150 milhões de anos, no período Jurássico, e recebeu o nome de Nabia civiscientrix, passando a integrar o grupo dos albanerpetontídeos, lissanfíbios extintos que coexistiram com os dinossauros.
De acordo com a RTP, a identificação do novo género e espécie baseia-se na análise de 468 ossos recolhidos na Formação da Lourinhã, complementados por milhares de restos fósseis provenientes da Formação de Alcobaça, em Leiria. O conjunto permitiu reconstruir, pela primeira vez, a anatomia global deste tipo de anfíbio.
Grupo antigo com nova identidade
Os albanerpetontídeos eram pequenos vertebrados semelhantes a salamandras, mas com características pouco comuns entre os anfíbios atuais. Segundo a mesma fonte, o Nabia civiscientrix teria menos de cinco centímetros de comprimento e distinguia-se por possuir língua balística, semelhante à dos camaleões modernos, pele seca e escamosa, pequenas garras e pálpebras móveis.
A identificação envolveu uma equipa internacional, com investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa e do Museu da Lourinhã, em colaboração com especialistas espanhóis e britânicos. O trabalho resultou de vários anos de recolha, comparação e revisão de material fossilífero.
Valor de ossos raramente preservados
Parte do avanço científico deveu-se à identificação de ossos pouco comuns no registo fóssil deste grupo. Acrescenta a publicação que elementos, como os quadrados e os ilíacos, foram essenciais para completar a visão anatómica do animal, algo que até agora não tinha sido possível.
Miguel Moreno-Azanza, da Universidade de Saragoça, explicou que alguns ossos eram facilmente reconhecíveis, mas que a verdadeira surpresa foi a presença destes elementos raros, que permitiram uma reconstrução muito mais completa do esqueleto.
Rever o que se pensava saber
Os investigadores compararam ainda o novo material com fósseis antigos da jazida da Guimarota, estudados há décadas. Conforme a mesma fonte, esses restos eram atribuídos provisoriamente ao género Celtedens, mas nunca tinham sido formalmente definidos como espécie.
Alexandre Guillaume, principal autor do estudo, afirmou que os dados agora analisados confirmam que esse enquadramento estava incorreto, levando à criação de um novo género e espécie. Trata-se do albanerpetontídeo mais antigo identificado na Península Ibérica e um dos mais antigos a nível mundial.
Tecnologia ao serviço da paleontologia
Alguns dos fósseis mais bem preservados foram analisados em Londres através de microtomografia computadorizada. Esta técnica permitiu criar modelos tridimensionais detalhados dos ossos, fundamentais para rever a anatomia conhecida dos albanerpetontídeos.
O estudo revelou que, durante décadas, a investigação esteve limitada a ossos mais fáceis de identificar, deixando outros por reconhecer. Alexandre Guillaume referiu que isso levou à descrição de espécies incompletas, difíceis de comparar entre si.
Ecossistema para lá dos dinossauros
Apesar de a Lourinhã ser conhecida sobretudo pelos seus dinossauros, como o Lourinhanosaurus ou o Miragaia, refere a RTP que o estudo destaca a diversidade de pequenos vertebrados que habitavam o mesmo ecossistema, muitas vezes ignorados pela investigação.
A investigação integrou um projeto de Ciência Cidadã, envolvendo residentes e visitantes na valorização do património paleontológico local. Os resultados foram publicados este mês de janeiro na revista científica Journal of Systematic Palaeontology, abrindo caminho para novas análises sobre a evolução destes anfíbios.
















