A história de uma reforma antecipada, os cortes na pensão e a forma como muitos idosos são obrigados a complementar o rendimento com poupanças de uma vida inteira de trabalho volta a ganhar atualidade num contexto de envelhecimento da população e de crescente pressão sobre os sistemas de pensões. O percurso de Francisco Carrasco, um reformado de 83 anos, ajuda a perceber o impacto real destas decisões ao longo do tempo.
Francisco Carrasco, espanhol reformado que tem hoje 83 anos, olha para trás com a consciência de quem dedicou 45 anos ao trabalho, dentro e fora de Espanha. Ao longo da carreira percorreu praticamente todo o país e parte do estrangeiro, num percurso profissional marcado por esforço, ambição e ascensão gradual.
Começou a trabalhar muito cedo, ainda adolescente, aceitando tudo o que surgia. Aos 13 anos surgiu a grande oportunidade, quando entrou como aprendiz numa multinacional ligada à engenharia e à tecnologia, o que viria a marcar definitivamente o seu futuro profissional, de acordo com o jornal digital espanhol Noticias Trabajo.
Uma carreira construída passo a passo
Com o passar dos anos, a dedicação permitiu-lhe subir na hierarquia da empresa. Tornou-se delegado na Andaluzia, assumiu depois a direção de uma sucursal em Sevilha e acabou por integrar o conselho de administração da empresa em Espanha, como secretário.
Esse percurso trouxe-lhe responsabilidades, mas também experiências que recorda com satisfação. Viajar com frequência, conhecer pessoas e trabalhar num ambiente internacional deixou-lhe, segundo relata, “bons momentos” e “recordações muito intensas” de uma fase exigente, mas gratificante da vida profissional.
Decisão de se reformar antecipadamente aos 60 anos
Aos 60 anos, Francisco tomou a decisão de se reformar antecipadamente, uma mudança que não foi fácil. Habituado a um ritmo de trabalho intenso, sentiu necessidade de continuar ativo e decidiu abrir uma loja de ferragens, projeto que manteve até aos 65 anos.
Só nessa idade optou por se retirar definitivamente da vida profissional, entrando então na reforma plena, de acordo com a mesma fonte.
Uma pensão com cortes significativos
A reforma antecipada teve consequências diretas no valor da pensão deste reformado, hoje com 83 anos. Por se ter aposentado antes da idade legal, a prestação mensal sofreu uma redução de 35%, um corte que ainda hoje condiciona o seu orçamento.
Apesar disso, a pensão permite-lhe manter algumas atividades, como o bricolage, o uso do computador e algumas viagens pontuais. Ainda assim, reconhece que viver apenas com este rendimento seria difícil nos dias de hoje.
Importância das poupanças acumuladas
Para manter o equilíbrio financeiro, Francisco depende também das poupanças que conseguiu juntar ao longo de 45 anos de trabalho, refere a mesma fonte. Essa reserva permite-lhe viver com alguma tranquilidade, embora reconheça que nem todos os reformados têm essa possibilidade.
Segundo explica, citado pela mesma fonte, há pensões que não chegam aos 800 euros mensais, o que torna praticamente impossível suportar despesas como renda de casa, eletricidade, medicamentos e outros encargos essenciais.
Uma mensagem para as gerações mais novas
Com a experiência de quem já atravessou todas as fases da vida ativa, deixa um conselho claro aos mais jovens.
Defende, citado pelo Noticias Trabajo, que devem lutar pelos seus objetivos, tentar escolher uma profissão de que gostem e, sobretudo, começar cedo a pensar na reforma, porque, como sublinha, chega mais depressa do que muitos imaginam.
Realidade das pensões dos portugueses
Em Portugal, a reforma antecipada também pode traduzir-se em cortes muito relevantes. No regime geral, a lei prevê uma redução de 0,5% por cada mês de antecipação (artigo 36.º do Decreto-Lei n.º 187/2007) e, quando aplicável, a pensão pode ainda sofrer o impacto do fator de sustentabilidade (artigo 35.º do mesmo diploma). Para o próximo ano, a idade normal de acesso à pensão de reforma foi fixada em 66 anos e 9 meses pela Portaria n.º 358/2024/1, o que ajuda a explicar porque antecipar vários anos pode facilmente levar a penalizações acima dos 30%, dependendo da situação concreta do pensionista.
E, quando se olha para os valores recebidos, o cenário de pensões abaixo dos 800 euros não é exceção: segundo dados citados num trabalho do Banco de Portugal, em 2024, metade dos pensionistas por velhice recebia uma pensão abaixo de 462 euros.
















