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Quatro espectáculos divididos por seis cidades algarvias são a proposta da 17ª edição do Festival de Música Al-Mutamid, que passará por Lagoa, Vila Real de Santo António, Silves, Albufeira, Loulé e Lagos, nos dias 27 e 28 de Janeiro e 3, 4, 10, 11 e 18 de Fevereiro.
O evento, que pretende dar a conhecer a música árabe-andalusí e oriental, é um dos três festivais de música mais antigos do Algarve, a realizar-se de forma ininterrupta, só sendo ultrapassado pela Mostra de Música Antiga de Loulé e pelo Festival de Jazz de Loulé.
“O Festival de Música Al-Mutamid tem características únicas em Portugal. Não há nenhum outro exclusivamente dedicado à música árabe”, garante João Pedro Vieira, director artístico do evento.
A iniciativa, que além de ter sido criada com o objectivo de resgatar e divulgar a música que durante séculos inundou bazares e palácios do Gharb al-Andalus e de pretender responder à escassez cultural existente no Algarve no início deste século, é uma homenagem ao rei poeta al-Mutamid, nascido em Beja, em 1040 e nomeado governador de Silves com apenas 12 anos.
Em 1069 acedeu ao trono de Sevilha, o reino mais forte entre os que surgiram em al-Andalus após a queda do Califato de Córdoba. Em 1088 foi destronado pelos almorávides e recluído em Agmat, a sul de Marrakech onde viria a falecer em 1095. Al-Mutamid foi, também, poeta. O seu túmulo, conservado até hoje, tornou-se símbolo dos mais belos tempos de Al-Andalus.
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‘A música é um bom veículo para conhecermos o lado mais espiritual e pacifico do Islão’
Com a sua primeira edição no ano 2000, o festival vê hoje em dia a sua missão inicial estendida à desmistificação do estigma que tem sido criado à volta do Islão e dos islamistas.
“O festival serve também para nos aproximarmos daquilo que são as coisas boas que vêm do Islão, que não é só aquilo que vemos nas televisões. É muito mais, é uma história riquíssima, é uma cultura riquíssima e é uma música fantástica, e eu acho que a música é um bom veículo para conhecermos o lado mais espiritual e pacifico do Islão”, considera o responsável pelo evento.
“As sonoridades presentes nestes espectáculos, apesar de serem longínquas, estão no sangue dos algarvios pelas suas raízes passadas, e nós nunca devemos esquecer o passado, porque temos uma herança árabe, apesar de todos os problemas que estão hoje associados ao Islão”, acrescentou João Pedro Vieira.
Cidade de Lagoa é a primeira a receber o evento
Nesta 17ª edição, o festival apresenta uma fusão entre músicos muçulmanos, de raiz afro-árabe, e com componentes naturais do continente africano, aos quais a organização dá destaque. “Sem menosprezar qualquer um dos outros espectáculos, o espectáculo ‘Al-Bashirah’, de fusão síria e marroquina, conta com a participação de um bailarino sírio que interpreta magistralmente a dança espiritual sufi dervish e a dança tradicional de Egito, denominada Tanora. A espiritualidade que acompanha o grupo marcará, com certeza, o público presente”, salienta o responsável.
Público esse que desde a primeira edição tem vindo a crescer, sobretudo a nível nacional, afirma João Pedro Vieira. “Inicialmente recebíamos sobretudo turistas, mas ao longo destes anos o público português tem vindo a aderir em massa, portanto neste momento diria que estamos com 50% de público estrangeiro e 50% de público nacional”, menciona o director artístico. Frisando ainda que “realizar este festival ano após ano só tem sido possível com o apoio do público que enche sempre as salas”.
O primeiro espectáculo designado ‘Muhsilwan’, com foco na música afro-árabe, acontece já no próximo dia 27 de Janeiro, no Convento de São José, em Lagoa, e no dia 28 no Centro Cultural António Aleixo, em Vila Real de Santo António.
O evento musical segue em Fevereiro com o espectáculo ‘Al-Bashirah’, centrado na música árabe-andalusí, giro sufi e dança tanora, no dia 3 no Teatro Mascarenhas Gregório, em Silves, e no dia 4 no Auditório Municipal de Albufeira. Nos dias 10 e 11 de Fevereiro o Cine-Teatro Louletano e o Centro Cultural de Lagos, respectivamente, recebem o espectáculo ‘El-Laff’, dedicado à música árabe e à dança oriental.
A série de demonstrações termina no dia 18 de Fevereiro no Auditório Municipal de Lagoa, em Lagoa, com o espectáculo ‘Nyftys Ensemble’, composto por música e dança oriental. Todos os espectáculos têm hora marcada para as 21.30.
(Com Henrique Dias Freire)