A Coreia do Norte é conhecida por ter um dos regimes mais repressivos do mundo. Contudo, a maioria dos casos de violações dos Direitos Humanos é abafada pelo regime de Kim Jong-un.
Perante um cenário de pobreza generalizada e liberdades básicas negligenciadas, milhares de norte-coreanos tentam fugir do país, uma missão quase impossível.
Tratados como traidores, arriscam ser presos pelas autoridades norte-coreanas, que desprezam quem foge do país, e são fortemente punidos. Lee Young-joo e Saerom são duas ex-detidas que deram um passo em frente e partilharam o que observaram e ao que foram sujeitas nas prisões.
SENTADAS ATÉ 12 HORAS SEM SE MEXEREM
À BBC, Lee conta que uma das técnicas utilizadas no Centro de Detenção de Onsong era obrigar os detidos a ficarem sentados, de pernas cruzadas, com as mãos sobre os joelhos até 12 horas por dia. Qualquer barulho, sussurro ou movimento implicava severas punições.
Durante o resto do dia, os detidos viviam em miseráveis condições, com acesso limitado à água e apenas algumas taças de milho moído para comer.
“Senti-me como um animal, não como um ser humano”, diz Lee Young-joo, que fugiu do país em 2007 e foi intercetada na China, tendo sido deportada para a Coreia do Norte.
A norte-coreana admitiu que tinha sido espancada com um porta-chaves por ter sussurrado a uma colega de cela.
“O guarda pediu-me para me dirigir às barras da cela e estender as minhas mãos. Depois começou a bater-me com um porta-chaves até ficar inchada e azul“.
Assim como Lee Young-joo, os restantes prisioneiros também eram castigados. “Podíamos ouvir os outros a serem espancados. Estava na cela 3 e conseguia ouvir o sofrimento vindo da cela 10″, admite Lee.
A norte-coreana foi condenada a três anos e meio de prisão por deserção.
“Estava preocupada se ainda estaria viva na altura em que terminasse a minha sentença. (…) Quando entramos nestes lugares, é preciso desistir de ser humano para suportar e sobreviver“.
CASOS DE ABORTOS FORÇADOS E INFANTICÍDIO
Para além de múltiplas denúncias de violações sexuais e outras formas de agressão, houve quem assistisse a abortos forçados.
No centro de detenção de North Hamgyong, uma ex-prisioneira testemunhou guardas a provocarem um aborto a uma colega grávida de oito meses. O bebé acabou por sobreviver e foi posteriormente afogado numa bacia de água.
Entre os relatos, há quem tenha chegado a testemunhar execuções nos estabelecimentos prisionais.
A antiga prisioneira Saerom acusa os guardas do Centro de Detenção de Onsong de a terem agredido com um bastão de madeira nas pernas. Para além disso, o sofrimento de um seria o sofrimento de todos, visto que os guardas obrigavam os prisioneiros a observar esses atos de violência.
ONG KOREA FUTURE DIVULGA BASE DE DADOS SOBRE VIOLAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS
Os vários relatos de mais de 200 pessoas chegaram à Organização Não Governamental sul-coreana, Korea Future. O objetivo desta ONG é investigar violações dos direitos humanos na Coreia do Norte para responsabilizar os perpetradores e levá-los à Justiça.
Proceder à acusação, tendo em conta casos desta magnitude, é difícil e a Coreia do Norte sempre negou este tipo de alegações. Contudo, esta investigação, lançada no domingo, teve o contributo de peritos do Tribunal Penal Internacional e as provas recolhidas serão admissíveis em tribunal.
O co-diretor da Korea Future, Suyeon Yoo, disse à BBC que o sistema prisional e a violência dentro da prisão está a ser utilizada para “reprimir uma população de 25 milhões de pessoas”.
- Texto: SIC Notícias, televisão parceira do POSTAL