Substituir o sal tradicional de cozinha por uma alternativa enriquecida com potássio pode ajudar a prevenir quase três milhões de mortes por ano em todo o mundo. A conclusão resulta de um estudo internacional que analisou os possíveis benefícios desta alteração alimentar em 193 países, apontando para uma redução significativa dos casos de doenças cardiovasculares e renais. Contudo, este tipo de sal não é indicado para todas as pessoas.
De acordo com a Euronews, a investigação foi conduzida por cientistas do The George Institute for Global Health, na Austrália, e publicada esta quarta-feira, 4 de novembro, na revista científica Nature Health. Os investigadores estimam que a substituição generalizada do sal comum poderia evitar anualmente cerca de 2,96 milhões de mortes e 10,17 milhões de novos casos de doenças cardiovasculares e doença renal crónica.
O que distingue este sal daquele que temos na cozinha?
A principal diferença encontra-se na composição. Enquanto o sal de cozinha convencional é constituído essencialmente por cloreto de sódio, esta alternativa substitui parte dessa substância por cloreto de potássio. Desta forma, permite reduzir a ingestão de sódio e aumentar a de potássio, dois fatores que influenciam a regulação da pressão arterial.
Segundo Bruce Neal, investigador do The George Institute for Global Health, citado pela Euronews, “o consumo excessivo de sódio e a ingestão insuficiente de potássio são causas bem estabelecidas de pressão arterial elevada”. O especialista acrescenta que substituir o sal comum permite atuar simultaneamente sobre estes dois problemas alimentares, uma vez que a hipertensão constitui um importante fator de risco para enfartes, acidentes vasculares cerebrais (AVC) e doenças renais.
Mudança apenas nas cozinhas domésticas já poderia ter impacto
Os investigadores analisaram diferentes cenários, incluindo a substituição do sal utilizado nas habitações, nos restaurantes e na produção de alimentos processados. Os resultados sugerem que, mesmo sem uma alteração generalizada da indústria alimentar, a mudança dos hábitos domésticos poderia proporcionar benefícios relevantes para a saúde pública.
A substituição apenas do sal utilizado em casa poderia evitar aproximadamente 1,85 milhões de mortes e 6,19 milhões de novos casos de doenças cardiovasculares e renais por ano. Já a alteração do sal utilizado em alimentos processados e restaurantes apresenta um potencial adicional de prevenção, particularmente nas regiões onde grande parte do sódio consumido provém de refeições preparadas fora de casa.
Indústria alimentar também teria de alterar os produtos
Na Europa e na América do Norte, mais de 70% da ingestão de sal está associada a alimentos processados e refeições consumidas fora de casa, segundo os investigadores. Esta realidade significa que a substituição do sal doméstico, apesar de importante, não seria suficiente para alcançar todos os benefícios estimados pelo estudo.
“Para concretizar os benefícios máximos da mudança para sal enriquecido com potássio, é necessário que a indústria alimentar na Europa e na América do Norte adira a esta solução”, afirmou Bruce Neal. Contudo, uma alteração desta dimensão exigiria adaptações na produção alimentar e um aumento da disponibilidade de cloreto de potássio, uma vez que a procura mundial deste ingrediente poderia crescer consideravelmente.
Atenção: este sal pode representar riscos para algumas pessoas
Apesar dos possíveis benefícios, os investigadores alertam que o sal enriquecido com potássio não deve ser utilizado indiscriminadamente. Pessoas com doença renal, sobretudo em fases avançadas, podem ter dificuldades em eliminar o excesso de potássio do organismo, aumentando o risco de hipercaliemia, uma condição que pode provocar alterações graves do ritmo cardíaco.
O mesmo cuidado aplica-se a pessoas que tomam determinados medicamentos capazes de aumentar os níveis de potássio no sangue, incluindo alguns utilizados no tratamento da hipertensão e da insuficiência cardíaca. Por isso, quem tem problemas renais ou toma medicação regularmente deve consultar um médico ou farmacêutico antes de substituir o sal tradicional por esta alternativa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também exclui as grávidas e as crianças da sua recomendação geral, devido à insuficiência de evidência específica para estes grupos.
Organização Mundial da Saúde já recomenda esta alternativa
Em janeiro de 2025, a OMS publicou uma orientação sobre a utilização de substitutos do sal com menor teor de sódio e enriquecidos com potássio. A organização considera que estes produtos podem contribuir para reduzir a pressão arterial e o risco de doenças cardiovasculares, desde que sejam utilizados por adultos sem contraindicações conhecidas.
Contudo, a recomendação não significa que se deva aumentar a quantidade de sal adicionada aos alimentos. A prioridade continua a ser reduzir o consumo de sódio, sendo a substituição do sal uma possibilidade complementar. Importa ainda esclarecer que os números apresentados pela investigação são estimativas obtidas através de modelos científicos, não correspondendo a milhões de mortes já evitadas ou a resultados garantidos para cada pessoa.
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