As divisões políticas brasileiras sentem-se também na comunidade residente em Portugal, considera Carlos Vianna, fundador da Casa do Brasil de Lisboa. Em declarações à Lusa neste domingo, 4 de outubro, o responsável descreveu a polarização como um fenómeno antigo, mas destacou a importância da participação eleitoral.
“Naturalmente, a emigração brasileira reflete a sociedade brasileira” e a “polarização vem de há muito tempo e infelizmente tem muita coisa de irracional”, afirmou no relvado entre a Reitoria da Universidade de Lisboa e as Faculdades de Letras e de Direito, onde decorre a votação.
Faro conta com perto de nove mil eleitores brasileiros inscritos. Em Lisboa, são cerca de 79 mil e, no Porto, mais de 47 mil, segundo os números apresentados pela Lusa.
Peso dos candidatos e do marketing eleitoral sob crítica
Na análise de Carlos Vianna, as escolhas eleitorais no Brasil estão muito centradas nos nomes dos candidatos, ficando as siglas partidárias em segundo plano.
“Aqui as pessoas votam em listas partidárias, no Brasil, as pessoas votam em nomes para deputados estadual, vereadores e as legendas [siglas partidárias] contam pouco”, afirmou.
O fundador da Casa do Brasil criticou também o peso do marketing eleitoral, considerando que privilegia a imagem dos candidatos em detrimento das ideologias. “O candidato é um produto”, declarou, descrevendo uma “estratégia que tem sido aprimorada” e que o Brasil exporta através dos seus profissionais de comunicação política.
Emendas parlamentares e intervenção dos tribunais
Carlos Vianna afirmou que “quase 85% dos deputados federais são candidatos à reeleição” e questionou a utilização das emendas parlamentares, verbas que permitem aos deputados financiar projetos nas suas regiões.
Na sua avaliação, estes recursos são usados para “pagar favores” ou “promover a sua candidatura com dinheiros públicos”, criando uma “concorrência absolutamente desleal”.
O responsável relacionou ainda o poder do Congresso brasileiro com a crescente intervenção dos tribunais na política, considerando que a “crise do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é uma crise de judicialização”.
“Os juízes passaram a ser ‘players’ da política”, afirmou. Comparando os dois países, disse que os juízes do Tribunal Constitucional português “atuam discretamente”, enquanto os magistrados brasileiros têm uma exposição pública que comparou à popularidade dos clubes de futebol.
Apelo à participação independentemente do candidato
Apesar das críticas, Carlos Vianna destacou o significado democrático da jornada eleitoral e o crescimento do número de brasileiros recenseados em Portugal.
“Olho com muita alegria para o dia de votação, porque a democracia, apesar das muitas mazelas da democracia brasileira, é um dia de afirmação da democracia”, salientou.
Recordou também o trabalho da associação para incentivar a participação: “Fizemos sempre campanha para as pessoas irem votar. Não importa quem é o seu candidato, votem em consciência e votem”.
“Este é um dia feliz e estou otimista”, concluiu.
Mais de 158 milhões de brasileiros chamados às urnas
Segundo a Lusa, mais de 158 milhões de brasileiros são chamados às urnas este domingo nas eleições gerais, que incluem a primeira volta das presidenciais e a escolha de governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais.
Luiz Inácio Lula da Silva, de 80 anos, procura a reeleição e um quarto mandato presidencial. O senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-Presidente Jair Bolsonaro, disputa também a Presidência, quatro anos depois da derrota do pai frente a Lula.
Lisboa é o maior ponto de votação brasileiro no estrangeiro e Portugal constitui o segundo maior colégio eleitoral fora do Brasil, atrás dos Estados Unidos, refere a agência.
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