Tudo aconteceu no mesmo dia. Não houve dias de intervalo, nem semanas para a memória transformar o sonho numa recordação distante.
Acordei com a imagem das borboletas ainda nítida. No sonho, eram de várias cores e pousavam em mim. Lembro-me da felicidade de lhes tocar e do cuidado de não as magoar. Havia também uma borboleta branca, doente, que procurava abrigo junto de mim, embora eu nada pudesse fazer para a salvar.
Depois, a manhã começou e o sonho ficou para trás.
Eu e o meu marido fizemo-nos à estrada, rumo a Sesimbra, onde iria participar no congresso internacional do G100, dedicado ao empoderamento feminino. Ia falar do meu percurso, do meu livro A Viajante do Tempo e de uma nova etapa: a sua tradução para inglês.
Foi nesse congresso, rodeada de mulheres de diferentes países e culturas, que uma senhora ofereceu uma borboleta de papel a cada uma de nós.

Prendi-a na lapela e continuei o meu dia. Não me lembrei do sonho. Não estabeleci qualquer ligação.
Só horas mais tarde, já no regresso ao Algarve, parámos num posto de abastecimento. Olhei para a borboleta presa à roupa.
E, de repente, o sonho voltou inteiro.
As cores. As asas. A alegria de as sentir pousar em mim. E aquela borboleta branca, tão frágil, à procura de abrigo.
Senti um arrepio.
Tinha sonhado com borboletas naquela manhã. Poucas horas depois, alguém me oferecera uma borboleta de papel num encontro internacional de mulheres. Mas só ali, durante uma pausa na viagem, os dois momentos se tinham encontrado na minha memória.
Não sei explicar por que razão esta coincidência me tocou tão profundamente. Talvez porque, depois de um dia a falar de percursos, de coragem e de mudança, aquela pequena figura de papel parecia reunir coisas para as quais eu ainda não tinha encontrado palavras.
Pensei nas mulheres que conhecera. Nos países de onde vinham, nas histórias que traziam, no que cada uma escolhera partilhar e no que teria guardado para si.
As borboletas coloridas do sonho fizeram-me pensar nessa diversidade. Na possibilidade de seguirmos caminhos diferentes e, ainda assim, encontrarmos um lugar de encontro.
A branca trouxe-me outra pergunta: quantas vezes, enquanto falamos de força, deixamos por dizer aquilo que nos dói?
Num encontro dedicado ao empoderamento feminino, também há lugar para reconhecer a fragilidade. Para admitir que nem sempre conseguimos, que precisamos de abrigo e que, por vezes, quem nos escuta não pode resolver o que nos acontece. Pode apenas ficar perto.
Talvez tenha sido apenas uma coincidência. Talvez o seu significado esteja naquilo que despertou em mim.
Não preciso de escolher uma explicação para contar o que aconteceu.
Naquela noite, a caminho do Algarve, uma pequena borboleta de papel fez-me regressar a um sonho que tivera poucas horas antes.
Há dias que passam por nós. E há dias que, por alguma razão, nos fazem parar e olhar duas vezes.
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