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JOSÉ FIGUEIREDO SANTOS - Sociólogo e professor universitário jubilado. Foto DR
Opinião, Política

Sonhos agridoces (ou a pátria como lugar que só se lembra de nós quando nos convém) | Por José Figueiredo Santos

“Eu não espero que o país fracasse. Limito-me a reconhecer que, caso fracasse, poderá precisar de mim”

17:54 13 Outubro, 2026 18:01 13 Outubro, 2026
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Há dias em que me sento à conversa comigo mesmo, ou com a Avillez, que sabe transformar uma batata numa experiência gastronómica e cobrar ao cliente o privilégio de continuar com fome. Conversamos sobre a vida, o país e a minha firme decisão de não regressar à política.

É importante começar por acreditar nesta decisão. A primeira vítima de uma mentira política deve ser o próprio político, para que depois possa mentir aos outros com a serenidade de quem está apenas a partilhar uma convicção.

Por isso, não quero voltar. E, para que ninguém duvide, concedo uma longa entrevista televisiva na qual explico detalhadamente em que circunstâncias poderei voltar, o que farei quando voltar, os erros dos que lá estão e a necessidade histórica de aparecer alguém que, por extraordinária coincidência, tem o meu próprio rosto.

É uma forma moderna de renúncia: anunciar a desistência com a mesma minúcia com que um noivo explica, na despedida de solteiro, que o casamento não está nos seus planos.

Falei do país, dos seus bloqueios, das reformas por realizar e da falta de gente capaz.. Sei que a memória tem uma grande capacidade de higiene: lava os fracassos, engoma os sucessos e manda as culpas para a lavandaria dos outros.

Desde que abandonei a vida pública local, os portugueses ainda não deram pela minha falta. Não os censuro. A província é um lugar onde até a ausência de um político pode passar despercebida, sobretudo quando ninguém se lembra de que ele esteve presente.

Pensei dedicar-me à jardinagem. Mas receio que a experiência se torne demasiado política: arrancaria uma erva daninha e nasceriam três comissões de acompanhamento; cortaria um ramo e surgiria uma associação de defesa dos ramos. Ao fim de seis meses, teria um jardim perfeitamente reformado, com uma comissão executiva, duas subcomissões, um plano estratégico e nenhuma flor.

A pesca também não serve. Exige paciência, silêncio e a capacidade de aceitar que nem sempre se apanha alguma coisa. São três competências que, em política, podem ser confundidas com falta de ambição.

Resta-me, portanto, a ocupação para a qual sinto verdadeira vocação: esperar que a pátria precise de ser salva.

Não é uma ambição. É um serviço público de prevenção. Estou em casa, de pantufas, mas em prontidão operacional. O telefone está ligado, a gravata encontra-se à mão e o ego permanece de mala feita.

Se o país entrar em crise, ou em pânico, cá estarei. Se entrar em colapso, peço apenas que não me telefonem depois das dez da noite, salvo se for para formar Governo.

Porque as bardamerdas que lá estão, nem sabem o que são reformas. Eu sei. Talvez não saiba explicar exatamente o que faria, mas reconheço uma reforma logo que a vejo num discurso de outra pessoa. E, se não a reconhecer, posso sempre declarar que a verdadeira reforma seria outra, mais profunda, mais corajosa e, de preferência, conduzida por mim.

Não sou candidato a nada. Sou apenas uma hipótese com boa opinião de si própria.

Já o expliquei. Poderei regressar se o meu partido falhar, se o Governo se atrapalhar, e se eu concluir que tenho alguma coisa diferente para oferecer. É uma lista de condições tão exigente que só por milagre não constitui um programa eleitoral.

Mas eu não desejo regressar. É o poder que poderá bater-me à porta, encharcado, de joelhos, com a Constituição debaixo do braço e um ramo de flores comprado numa estação de serviço.

«Por favor», dirá, «não conhecemos mais ninguém.»

E eu recusarei três vezes, por uma questão de princípio. À quarta, pedirei que me expliquem a composição do Governo. À quinta, perguntarei onde fica o gabinete. À sexta, já estarei a discutir a distribuição das secretarias de Estado, mas continuarei a afirmar que não fui eu quem começou.

O sacrifício tem destas coisas: começa por uma renúncia e acaba com motorista.

Serei um D. Sebastião diferente. O antigo veio montado num cavalo e desapareceu no nevoeiro. Eu regressarei, se necessário, com um consultor de comunicação. O meu cavalo será um automóvel híbrido, porque até a salvação nacional precisa de cumprir as metas ambientais.

Não voltarei para fazer mais do mesmo. Evoluí muito. Antigamente, talvez quisesse governar. Agora, quero governar melhor. A diferença é substancial, embora ainda esteja por demonstrar. É como trocar um pneu furado por outro da mesma marca e anunciar que o veículo entrou numa nova fase de mobilidade.

Deixemos o meu sebastianismo e passemos ao Governo, essa instituição que tem o inconveniente de estar permanentemente a governar quando poderia dedicar mais tempo a ser criticada.

O diagnóstico é simples: governam à bolina.

A expressão é elegante e permite criticar o Executivo sem necessidade de apresentar um mapa. Significa que o Governo vai andando como pode, negociando com uns, cedendo a outros, evitando naufrágios e tentando que o barco não se desfaça enquanto os passageiros discutem quem deve segurar o leme.

Eu teria feito diferente. Evidentemente.

Há uma enorme vantagem em criticar de fora: não se tem de escolher entre duas más soluções, porque podemos inventar uma terceira, muito melhor, cuja única desvantagem é nunca ter sido experimentada.

Tenho saudades das reformas. É uma saudade profunda, como a que sentimos de um parente que nunca conhecemos, mas de quem ouvimos falar maravilhas.

A palavra «reforma» é uma pequena maravilha da língua portuguesa. Serve para anunciar tudo e explicar quase nada. Se correr bem, é modernização. Se correr mal, é coragem. Se correr muito mal, é inevitabilidade. E, se correr mal apenas para os mesmos de sempre, então estamos perante uma reforma de grande qualidade técnica.

Quanto à reforma dos reformados, essa merece atenção especial: é uma reforma da reforma, um exercício de geometria administrativa em que se procura descobrir quantas vezes se pode dobrar o mesmo rendimento sem partir definitivamente a pessoa que vive dele.

A aritmética, contudo, tem sido uma ciência mal-amada em Portugal. Os nossos governantes parecem ter com os números uma relação semelhante à que certas pessoas mantêm com os sogros: reconhecem-lhes a existência, mas preferem não os convidar para a conversa.

Existem maiorias parlamentares possíveis, contas que somam e alianças que, vistas de longe, até parecem razoáveis. Mas ninguém consegue juntar um corretor de bolsa, um pároco, um caçador e um vegan na mesma sala sem que alguém peça uma comissão de inquérito ao menu.

O corretor quer uma margem de lucro, o pároco uma bênção, o caçador pergunta pela perdiz e o vegan quer saber se a perdiz foi consultada. O político, em vez de servir o jantar, anuncia uma reforma estrutural da restauração.

No fim, todos concordam que a refeição é necessária, desde que cada um possa escolher o prato, o preço, o cozinheiro e a hora de pagamento. E depois admiram-se de não haver jantar.

Mas há talentos que o país desperdiça. É o meu caso. Tenho talento, disso não duvido. O que duvido é que o país, para o medir, possua instrumentos de medição adequados. Talvez seja tão raro que os institutos de estatística ainda não tenham inventado a unidade de medida. Infelizmente, os resultados concretos continuam a insistir em unidades mais modestas.

Sou um político de província. E a província tem esta desvantagem: fica longe do lugar onde as pessoas se lembram de quem deve ser lembrado.

Eu precisava de estar em Lisboa, onde o talento ganha eco, o disparate ganha comentadores e uma frase mal construída pode ser promovida a estratégia nacional se for repetida durante três dias consecutivos.

Em Lisboa, se prometesse o impossível, diriam que tinha visão. Se exagerasse, chamariam ambição. Se insultasse, seria frontalidade. Se perdesse a cabeça, talvez me atribuíssem coragem para romper com o sistema.

Na província, pelo contrário, as pessoas têm o mau hábito de perguntar o que queremos dizer.

É uma crueldade.

Se eu prometesse baixar todos os impostos, aumentar todos os salários, reduzir todas as despesas e melhorar todos os serviços, não estaria a fazer populismo. Estaria a oferecer uma visão integrada de desenvolvimento sustentável.

E se alguém perguntasse como pagaria tudo isso, responderia que era precisamente para descobrir que servem os ministérios.

A ideia é genial: entregar um ministério a alguém que promete o impossível, para que aprenda, através do contacto com a realidade, a diferença entre uma promessa e uma despesa. É a versão institucional de entregar uma refinaria a uma criança que brinca com fósforos, na esperança de que a dimensão do edifício lhe ensine prudência.

Considero-me uma referência política, uma espécie de discípulo avançado de Maquiavel, embora com a vantagem de não ter de escrever um tratado para justificar cada manobra. Sou capaz de compreender partidos, parceiros, sindicatos, Bruxelas e, com algum esforço, as marés. O que me custa é compreender por que razão os governantes não governam exatamente como eu governaria, caso estivesse no lugar deles.

O homem que está no Governo tem uma vida péssima.

Se negoceia à esquerda, trai a direita. Se negoceia à direita, trai o «não é não». Se faz reformas, é radical. Se não as faz, é inútil. Se decide, é autoritário. Se consulta, é indeciso. Se fala, não devia falar. Se fica calado, está a esconder alguma coisa.

E, enquanto tenta governar, tem de ouvir alguém como eu explicar na televisão, com a gravidade de um médico que anuncia uma doença terminal, que o país precisa de uma liderança diferente.

Diferente como a minha, naturalmente.

A democracia é um regime admirável. Sobretudo quando se está na oposição ou a descansar da oposição.

E chegamos, finalmente, ao «tempo de vésperas».

É uma expressão maravilhosa, dessas que parecem conter o destino de uma civilização, quando na verdade podem significar apenas que alguém está à espera de uma sondagem favorável.

Vivemos um tempo de vésperas. De quê, não sabemos. Mas o plural dá importância à coisa. Uma véspera seria pouco; várias vésperas já sugerem uma mudança histórica, uma cerimónia de Estado, talvez uma procissão de personalidades à procura de um lugar na fotografia.

Dizer que vivemos um tempo de vésperas é anunciar uma candidatura sem ter de preencher o formulário. Não digo que vou avançar. Digo apenas que o momento se aproxima. Não digo que sou a solução. Digo apenas que as soluções disponíveis parecem estar a esgotar-se.

A minha candidatura, se algum dia existir, será construída com materiais de primeira qualidade: uma entrevista, três ambiguidades, cinco críticas ao Governo, uma referência à responsabilidade histórica e uma fotografia em que apareço a olhar para o horizonte.

O horizonte é essencial. Permite olhar para longe sem ter de olhar para trás.

E se alguém perguntar se estou à espera que as coisas corram suficientemente mal para me chamarem, ficarei ofendido. Não por a pergunta ser injusta, mas por ser tão pouco elegante.

Eu não espero que o país fracasse. Limito-me a reconhecer que, caso fracasse, poderá precisar de mim. É uma diferença fundamental, como a diferença entre desejar um incêndio e ter já o número dos bombeiros guardado no telemóvel.

E prontes!

Foi aqui que o sonho começou a perder qualidade.

Imaginei o país em crise, o Governo de saída, os comentadores sem argumentos e os partidos em peregrinação. Imaginei o telefone a tocar, os convites a multiplicarem-se, os jornais a anunciarem o meu nome com aquela solenidade que se reserva aos homens que prometem vir a fazer.

Imaginei-me a recusar. Uma vez. Duas vezes. Três vezes.

À quarta, pedi os detalhes. À quinta, perguntei se havia condições. À sexta, já estava a discutir o programa do Governo, mas continuava a declarar que não tinha qualquer ambição pessoal.

Foi então que ouvi uma voz vinda do fundo do sonho:

«Mas o senhor não dizia que não queria voltar?»

Respondi com a dignidade possível:

«E não quero. Mas uma coisa é aquilo que eu quero. Outra, muito diferente, é aquilo que o país me obriga a querer.»

A voz perguntou:

«E se o país não o quiser?»

Foi nesse instante que acordei, banhado em suor, com o coração em sobressalto e o ego a pedir assistência médica.

Olhei em redor. Estava em casa. Não havia telefonemas, jornalistas ou comissões de negociação. A pátria continuava no mesmo lugar, indiferente ao meu destino.

Felizmente, era apenas um sonho, porque, se fosse realidade, seria um pesadelo.

E dos caros: daqueles em que o político regressa para salvar o país, o país paga a operação, o salvador fica com os louros e o contribuinte ainda tem de regar as roseiras.

Quanto a mim, continuarei indisponível.

A menos que me chamem.

Nesse caso, logo se verá.

A pátria, afinal, não pode ficar à espera que eu termine a entrevista.

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