João Céu e Silva entrevistou o político da lei da Reforma Agrária, o sociólogo que pôs de pé o Pordata, o publicista que não prescinde de fazer análises na imprensa e que tem um olhar permanente sobre Portugal e os portugueses. Entrevistou com muita exigência e rigor, é seu timbre preparar-se a sério sobre os itinerários do biografado. Deixa um documento de grande mérito, temos aqui António Barreto sem olhares de hagiógrafo, passeiam-se os dois por meio século da História de Portugal, mergulha-se num Estado Novo, nos exilados de Genebra, na militância do biografado no PCP, ingresso na vida política na órbita do PS, ministro, investigador em diferentes instituições universitárias, presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos onde deixou obra, e relevante.
Abrem as hostilidades com exílio genebrino, reflete-se sobre a frase Salgueiro Maia, “o estado a que chegámos”, e o sociólogo observa: “Afinal os portugueses são um dos povos que têm o máximo de aspirações possíveis porque muitos foram emigrantes e outros porque viajam e conhecem a saúde na Suécia, a educação em Inglaterra, as fábricas na Alemanha, as autoestradas de Itália ou a cultura em França. Ao conhecerem tudo isto, querem igual. Acontece que em Portugal é o país europeu que tem menos capacidades, sem uma economia forte ou uma organização dos serviços ao nível dos outros, com um rendimento menor, além de que a produtividade de um trabalhador português é de um terço – até de um quinto, por vezes – quando comparada com a de um trabalhador alemão, que detém mais tecnologia, organização e conhecimento.” A conversa flui para os mandatos presidenciais, as suas relações com os primeiros-ministros, seguem-se as tensões políticas pós-25 de abril, o biografado não deixa de criticar o grau de impreparação pessoal, técnica e política na elaboração dos programas apresentados pelos governos e as oposições, a superficialidade dos debates parlamentares que por vezes quase se assemelham a uma farsa.

O azimute aponta agora para governos mais próximos. Falando das elites da direita, dos seus políticos, dirá que esta direita é acanhada, nacionalista, integrista, católica, corporativista e autoritária. O sociólogo interpelado se estes profissionais procuram identificar as causas da crise de confiança atual, responderá: “O comportamento dos sociólogos é muitas vezes conservador porque para o seu ofício necessitam de realidades conhecidas, e o que está a acontecer não o é ainda por inteiro. Existe um grande receio em perceber a razão de as esquerdas estarem a falhar historicamente enquanto as direitas estão a ganhar nesse nível. Do meu ponto de vista, a grande responsabilidade do aparecimento do populismo e da direita radical está no falhanço sistémico da democracia em responder aos problemas dos cidadãos.”
Faz uma apreciação da gestão pública, denuncia a falta da organização do SNS, e entra-se diretamente na matéria daa corrupção, no sistema de favores e arranjos, nos empregos partidários, nos lugares para os filhos, nas licenças de urbanização, nas promoções do emprego ou lugares na Administração Pública, – é uma dissecação da cunha e do nepotismo, e até se fala na maçonaria e se e como influi nos governos.
António Barreto faz uma documentada exposição sobre a Reforma Agrária, traça uma boa síntese de intervenções anteriores, deixa bem claro que tudo o que era a Reforma Agrária naquele tempo era pago pelo Ministério da Agricultura e do Estado. A conversa agora encaminha-se para um tema que é muito apreciado por Barreto: o papel de Salazar na valorização do PCP, como o ditador e as suas organizações acabaram por ter um papel sinérgico com os comunistas – parecia uma sala de espelhos onde ditadura e oposição fervente se mediam e justificavam perante os seus auditórios. O sociólogo escreveu Três retratos – Salazar Cunhal Soares, o trio de políticos que considera serem os principais do século português e medita sobre os funerais destas três figuras.
Voltamos ao itinerário biografado, os tempos passados, o funcionamento da PIDE, a sua vida política no PS e fora dele, convite feito por Soares dos Santos para que ele crie a Fundação Francisco Manuel dos Santos, a importância da Pordata, como se obtém a radiografia de um país, a demonstração como nunca tivemos uma vocação industrial. É então que é perguntado sobre o que é o carácter português, as nossas dependências, as nossas ineficiências, como a Justiça, fará comentários aos referendos sobre a interrupção voluntária da gravidez e a regionalização.
Escrever-se-á no livro: “A comunicação social portuguesa será um caso raro talvez único no mundo ocidental, de fusão e confusão entre comentário político, jornalismo político e política profissional, não faltará uma observação sobre a invasão de comentadores nos ecrãs, o declínio do debate político parlamentar. Então, noutra reviravolta do azimute o biografado falará da sua paixão pela fotografia e o entrevistador questiona o que é que a fotografia tem a ver com a sociologia, vem logo a resposta: “A fotografia é também um olhar sociológico e para mim a sociologia faz parte da fotografia, porque é um olhar para o real e permite reinterpretar ou transmitir uma visão. Dou um exemplo: se olharmos para uma fotografia tirada em 1950 e outra, vinte anos depois no mesmo lugar, percebemos imediatamente que a realidade naquele tempo mudava muito pouco. Essa imobilidade acabou e agora há zonas em que bastam dois anos para estar tudo diferente.” Mas o que é que ele procura na fotografia? “Para mim, o essencial na fotografia é luz; não é o momento, não o sorriso, não o dramático. O que procuro são os vários graus entre o preto, o cinzento e o branco.”
Outra guinada dos temas, os porquês daquela guerra colonial que transfigurou Portugal com a liquidação do seu império, como decorreram as negociações para as independências, como era possível apurar as responsabilidades. E agora sim, estamos num campo de eleição do Barreto, populismo, mas revisitará antes o seu percurso político no comunismo e noutros quadros ideológicos, onde se presumou a revolução do sistema democrático. E escreve-se: “O populismo também nasce de uma democracia de lugares-comuns, de uma democracia sem alma nem palavra, de uma democracia de banalidades e clichés, de discursos repetitivos, de narrativas cansadas e de promessas gastas.” Também se pronuncia sobre a revisão constitucional, o tripartidarismo atual, as grandes questões da educação saúde e habitação. Barreto considera-se um conservador liberal de esquerda.
Tal o vigor da radiografia e o brilhantismo e a acuidade do entrevistado, é obra credora de uma leitura ao nível do esplendente da viagem deste sociólogo por Portugal. Um olhar de extrema riqueza, uma das poucas personalidades que é obrigatoriamente seguida da esquerda à direita.
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