Há em Portugal uma curiosa inclinação para reformar aquilo que não se conhece. É um dos nossos mais antigos virtuosismos da nossa administração. A nação, pouco diligente na execução das coisas simples, revela uma energia heroica quando se trata de complicar as difíceis. Assim, a escola, esse lugar onde deveriam crescer as inteligências no cultivo do intelecto e amadurecer os caracteres, tornou-se o campo de eleição dos reformadores, dos doutrinadores e de todos aqueles que, não tendo encontrado utilidade bastante para a própria existência, descobrem subitamente a vocação salvífica dos outros.
A escola nasceu para ensinar, mas a educação é um trabalho de bastidores, lento e sem proveito político fácil. O esforço de duas décadas de um professor para abrir horizontes a um aluno não produz um resultado apresentável numa conferência de imprensa, nem rende títulos de jornal. Já as decisões ministeriais operam na lógica do espetáculo: altera-se o nome de uma matéria, adota-se um novo software e vende-se uma revolução na educação. No fim do dia, a propaganda de uma reforma vistosa costuma render mais dividendos políticos do que manter as escolas a funcionar na normalidade.
Foi assim que começámos a substituir a educação pelo seu aparato, convertendo as escolas em estabelecimentos de produção de competências. A palavra é magnífica: tem um ar moderno, dispensa explicações e permite que até o mais incompetente dos funcionários discorra longamente sobre a competência dos outros.
Nas reuniões, os diretores falam de indicadores, os técnicos de monitorização e os consultores de alinhamento estratégico. Os professores escutam. Alguns ainda se lembram de que a sua profissão consiste em ensinar crianças, mas evitam confessá-lo, por receio de parecerem desatualizados.
A rotina atual dos professores está saturada de burocracia. O professor é hoje obrigado a ensinar, avaliar, registar, preencher formulários, justificar e demonstrar que refletiu. A única atividade que ninguém lhe exige expressamente é a de pensar. Essa continua a ser uma iniciativa pessoal, tolerada desde que não interfira com a agenda das reuniões.
Entretanto, nos gabinetes refrigerados da capital, os especialistas desenham o futuro da educação com régua, esquadro e uma confiança comovente na ignorância alheia. Conhecem gráficos, dominam siglas e falam, com bastante fluência, a linguagem dos relatórios. Só lhes falta, por vezes, conhecer uma criança.
Não procuro a imagem perfeita de uma publicidade escolar, uma criança sorridente à frente do computador, mas sim a autenticidade da infância. Falo de alunos reais: aqueles que demoram o seu próprio tempo a entender um conceito, que surpreendem com perguntas imprevistas e que põem a empatia e a justiça acima de qualquer nota ou disciplina.
Como incluir uma formiga num indicador de desempenho? Em que campo do formulário se regista a descoberta de que o sofrimento do outro também nos diz respeito?
Os nossos especialistas resolveram o problema com elegância: desenharam um mapa para todas as escolas, esquecendo-se apenas de perguntar se todas as crianças queriam chegar ao mesmo destino. Distribuímos o mesmo par de sapatos a pés diferentes e depois admiramo-nos de que alguns caminhem com dificuldade. Aos que não chegam a tempo, oferecemos um relatório sobre a importância da pontualidade.
A política, essa não larga a escola. O sistema escolar continua a ser um campo de batalha ideológico. A esquerda e a direita disputam-na com o ardor de duas famílias que reclamam uma herança antecipada. Cada novo governante anuncia uma era, altera programas e aponta o dedo ao passado. Entretanto, as crianças continuam a crescer. E o futuro, essa criatura sem partido nem direito de voto, não espera que os adultos terminem as suas querelas.
Depois chegam os exames. Os exames que são notícia nacional.
Ao longo do ano, vibra-se com a defesa pública da importância da criatividade, da autonomia e do pensamento crítico. Contudo, com a chegada dos exames, esses valores são postos de lado de forma discreta, como quem esconde as falhas antes de uma auditoria. O docente corre contra o tempo para dar a matéria, o estudante memoriza à pressa, os pais entram em pânico e o mercado das explicações fatura. No final, a estrutura educativa valida a conformidade e a memorização, avaliando os alunos com base num clima de pressão emocional que a própria instituição alimentou.
A curiosidade encolhe e as perguntas emagrecem. O questionamento torna-se superficial. A leitura deixa de ser uma viagem de descoberta para passar a ser uma busca cirúrgica pela resposta que valida os números. À imaginação, habituada a desbravar caminhos novos, impõe-se agora a rota comum. O pensamento crítico, esse antigo viajante que se alimentava da dúvida, é forçado a calar-se para não quebrar a ilusão de avanço e harmonia, não perturbando a ordem e o progresso.
Os exames oferecem aos adultos um alento ilusório, uma tranquilidade metafísica, proporcionando-lhes uma falsa sensação de controlo sobre o intelecto. Reduz-se o pensamento crítico a uma folha de papel e finge-se que a inteligência pode ser pesada, isolada, medida e classificada como um lote de mercadoria. O aluno escreve, o professor corrige, o sistema calcula. No fim, surge um número que, por milagre administrativo, deixa de representar o desempenho numa prova e passa a representar a própria criança.
Nunca vi uma vocação obedecer a uma grelha de classificação. Nunca vi um futuro pedir autorização a uma pauta. Porventura ignorância a minha.
Não se trata de abolir os exames, nem de fingir que o conhecimento dispensa esforço, disciplina e avaliação. Trata-se de reconhecer que uma prova é apenas uma prova, não podendo constituir uma sentença sobre o destino de alguém. A vida é demasiado complexa para caber numa classificação, e a inteligência manifesta-se de formas demasiado diversas para ser reduzida a umas breves horas de escrita vigiada.
Mas os números têm uma virtude política que a realidade não possui: cabem num discurso, alinham-se num gráfico e permitem anunciar vitórias sem visitar o campo de batalha.
Talvez seja este o nosso grande equívoco: confundimos medir com compreender, desempenho com inteligência, aprovação com sabedoria e educação com uma coleção de procedimentos destinados a provar que tudo funciona. Uma nação começa a ficar mais pobre muito antes de lhe faltar dinheiro. Empobrece quando deixa de perguntar às crianças o que sonham e passa a perguntar apenas quanto obtiveram no malfadado teste.
O verdadeiro fracasso de uma escola não será o aluno que reprova num exame. Será a escola que consegue aprovar milhares de alunos e, ainda assim, não desperta neles a vontade de compreender o mundo em que vivem.
E há um sinal de alerta bem mais profundo e inquietante do que qualquer resultado negativo na matemática ou no português: no dia em que uma criança aprender que é mais seguro calar uma pergunta do que arriscar uma resposta errada, a escola terá conseguido uma vitória administrativa e sofrido uma derrota humana. E nenhuma classificação, por mais elevada que seja, poderá reparar inteiramente esse dano.
Não convém, porém, dramatizar. Por certo que a próxima reforma já virá a caminho. Trará um novo nome, uma nova plataforma e, possivelmente, um observatório destinado a acompanhar a implementação dos princípios que a reforma anterior deixou por aplicar.
Os gabinetes continuarão refrigerados. Os especialistas continuarão a reunir-se. Os ministros prosseguirão a descoberta da escola em vésperas de eleições. E as crianças continuarão a crescer sem consultar os regulamentos.
A escola permanecerá de portas abertas, com horários, indicadores, relatórios e plataformas atualizadas. Tudo estará em ordem, menos o essencial.
Porque uma escola não devia ter medo das perguntas. Devia ter medo do dia em que já ninguém se atrevesse a fazê-las. Não deveria ter medo de revisitar o “Clube do Poetas Mortos”.
Não tenho qualquer interesse em tornar-me especialista seja no que for. Já há peritos suficientes por aí para bloquear qualquer progresso. Chamem a esta postura o que quiserem — filosofia barata, pessimismo ou outra coisa qualquer. O rótulo é o que menos me importa.
O que me inquieta não é reprovar numa discussão sobre educação. É ver uma geração inteira aprovada num sistema que talvez nunca tenha aprendido a educá-la.
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