Há uma pessoa que entra num comboio convencida de que regressará a casa. Outra sai para trabalhar e despede-se à pressa. Outra demora-se num beijo, sem imaginar que será o último. Alguém deixa uma chávena por lavar, combina um jantar, pensa no que vai fazer no fim de semana. A vida está cheia destes pequenos gestos em que acreditamos, sem precisar de o dizer, que haverá continuação.
Depois, por vezes, não há.
É nisso que tenho pensado. Na facilidade com que um dia comum pode ser o último, sem que nada na sua aparência o anuncie. A roupa fica no armário, os compromissos na agenda, uma encomenda a caminho. Tudo parece contar com o regresso de alguém.
E custa-me compreender como pode uma vida inteira deixar de estar ali, quando à sua volta tanta coisa ainda a espera.
Penso em quem sai sem se despedir, porque se atrasou ou porque uma discussão deixou as palavras suspensas. E em quem se despediu como sempre, com o carinho habitual, sem saber que aquele gesto ganharia um peso impossível de imaginar. Não há maneira de preparar todas as despedidas. Nem seria possível viver a tratar cada saída de casa como a última. Mas há momentos em que esta fragilidade se torna tão evidente que já não conseguimos afastá-la com o conforto de um «não penses nisso».

Dou por mim a olhar mais demoradamente para os meus filhos. Para as expressões que mudam à medida que crescem, para a maneira como se riem, para os gestos que hoje lhes pertencem e que daqui a algum tempo serão outros. Quero ouvi-los, mesmo quando a história é longa e tenho trabalho à espera. Quero dar-lhes colo enquanto o procuram, beijá-los sem pressa, estar disponível para um abraço que não precise de motivo.
Pergunto-me quantas vezes ainda os verei entrar por uma porta. Quantos passeios faremos, quantas viagens teremos oportunidade de fazer, quantas conversas surgirão à mesa ou no caminho para casa. Não espero uma resposta. A pergunta basta para me comover.
Há tanto que ainda quero conhecer com eles. E tanto que quero continuar a conhecer neles.
Ao mesmo tempo, o meu corpo muda. Estou a entrar na menopausa e essa passagem tem-me feito pensar no lugar da vida em que me encontro. Dou por mim a pensar que estou na segunda metade da minha vida, embora ninguém possa saber onde fica exatamente o meio. Pela primeira vez, talvez, o futuro já não me pareça uma extensão tão vasta e indefinida.
Esta consciência acompanha mudanças íntimas, memórias de quem fui e perguntas sobre quem ainda serei. Continuo a ter vontade de descobrir, de viajar, de amar, de fazer coisas pela primeira vez. Ainda há beijos que quero dar, toques em que me quero demorar, lugares onde gostava de chegar de mãos dadas. Há conversas para as quais nunca parece haver a noite certa e gargalhadas que a seriedade dos dias vai adiando.
Oiço dizer: «Quando me reformar, vou aproveitar a vida.»
Entendo o desejo de descanso de quem trabalhou durante décadas. Entendo as contas, as obrigações, a impossibilidade de simplesmente largar tudo. Também eu conheço os dias em que o trabalho ocupa quase todo o espaço e a cabeça continua presa a ele muito depois de acabar.
Mas custa-me ouvir a vida conjugada sempre no futuro. Quando houver tempo. Quando houver dinheiro. Quando isto estiver resolvido.
E se houver sempre mais alguma coisa para resolver?
Não tenho uma resposta fácil. Seria injusto pedir a quem mal consegue sustentar a casa que viva como se pudesse escolher livremente o destino dos seus dias. Ainda assim, pergunto-me se, dentro do que nos é possível, não haverá alguma coisa que possamos deixar de adiar. Uma visita. Uma conversa. Uma tarde juntos sem a obrigação de a tornar produtiva.
A morte perturba-nos também porque não obedece à ordem que desejaríamos. Procuramos razões, comparamos percursos, perguntamos por que motivo uns ficam e outros partem. Há quem encontre conforto na ideia de uma missão cumprida. Eu não sei. Gostava de compreender, mas não consigo transformar a ausência de alguém numa explicação que me tranquilize.
Penso sobretudo no que fica interrompido. Na conversa que não chegou a acontecer. Na gargalhada que poderia ter surgido se tivesse havido mais uma noite à mesa. No carinho que existia, mas que nem sempre encontrou tempo ou palavras para se mostrar.
E apetece-me chorar.
Talvez por perceber que amo pessoas que não posso guardar a salvo do tempo. Que os meus filhos vão crescer, que eu vou envelhecer, que nenhum abraço, por mais apertado, consegue garantir outro.
Não quero que esta consciência me tire a alegria de estar aqui. Gostava que me ajudasse a prestar mais atenção. A pousar o telefone quando alguém me fala. A olhar para quem está comigo. A não encurtar sempre o beijo porque estou atrasada.
Quando os meus filhos me chamarem, haverá dias em que terei mesmo de lhes pedir que esperem. Mas quero que também haja muitos outros em que feche o computador e vá.
Não sei quantos abraços cabem no tempo que me resta. Sei que há alguns que posso dar hoje.
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