Caro leitor, talvez me esteja a escapar alguma inovação no pensamento político, mas ainda não consegui perceber de que forma partir a montra de uma loja melhora o salário de quem lá trabalha. Ou como incendiar o automóvel de outra pessoa contribui para baixar as rendas. Admito que o mecanismo seja complexo. Até agora, porém, ninguém mo explicou de forma convincente.
As notícias sucedem-se. De diferentes países chegam manifestações, palavras de ordem e sinais de descontentamento. As causas variam, mas repetem-se preocupações com a habitação, os salários, a educação e o custo de vida. Há pessoas cansadas de trabalhar sem conseguirem estabilidade e jovens que olham para o futuro com mais apreensão do que esperança.
É preciso ouvir esse descontentamento. Uma sociedade não pode exigir permanentemente paciência a quem vive sem margem para mais um aumento, mais uma despesa ou mais um adiamento.
Manifestar-se é um direito fundamental. A democracia precisa de cidadãos que questionem, contestem e exijam respostas. Muitas conquistas sociais nasceram da coragem de quem saiu à rua e recusou aceitar como inevitável aquilo que era injusto.
Precisamente por isso, preocupa-me ver uma reivindicação perder espaço para o espetáculo da destruição.

Em Paris, as notícias sobre a mobilização de 17 de outubro dão conta de lojas saqueadas e comerciantes agredidos na zona da Praça da República e nas ruas próximas. Entre os estabelecimentos atingidos estavam uma farmácia e lojas de bairro. Por detrás de cada montra havia pessoas, trabalho e compromissos que não desapareceram com o vidro partido.
Há uma diferença que importa deixar clara: quem parte a montra não é, em regra, quem trabalhou para abrir aquela loja. Quem incendeia o automóvel não é quem passou anos a pagá-lo. Quem saqueia um estabelecimento leva os bens; deixa a outros o prejuízo, a reparação e a incerteza sobre o dia seguinte.
A revolta pode nascer de dificuldades reais. Mas isso não dá a ninguém o direito de impor novas dificuldades a pessoas que também trabalham, pagam contas e procuram sustentar uma família. O comerciante não deixa de ser trabalhador por ter uma loja. E os funcionários não deixam de precisar do emprego por trabalharem para uma grande empresa.
É particularmente cómodo exercer a indignação à custa do património alheio. Quem destrói pode ir embora; quem sofreu o dano fica com as consequências. Que solidariedade é essa que exige justiça para uns enquanto aceita arruinar a vida de outros?
E depois há o saque. Porque partir uma montra e sair com os produtos debaixo do braço exige uma explicação bastante mais convincente do que a invocação da justiça social. Em que medida levar um telemóvel melhora a escola pública? Que reivindicação fica satisfeita com o conteúdo de uma montra dentro de um saco?
A indignação não confere um direito de apropriação. Uma loja não se torna um alvo legítimo por vender produtos caros, pertencer a uma grande empresa ou representar um mundo ao qual muitos não têm acesso. A dimensão do estabelecimento não transforma os seus bens em mercadoria à disposição de quem os queira levar.
Chamar saque ao saque não diminui o direito à manifestação. Pelo contrário: impede que quem procura uma mudança coletiva seja confundido com quem aproveita a confusão para obter um benefício pessoal.
Essa distinção é indispensável. A cobertura das manifestações em França descreve tanto participantes pacíficos como grupos envolvidos em confrontos, incêndios e pilhagens. Responsabilizar todos pelos atos de alguns seria injusto e apagaria as reivindicações de quem saiu à rua sem destruir nada.
Mas a legitimidade de um protesto também não absolve todos os atos praticados à sua volta. Uma causa justa não transforma automaticamente em justo tudo o que se faz em seu nome.
Há ainda a questão dos rostos tapados. Incomoda-me ver alguém exigir publicamente responsabilidade enquanto procura escapar à responsabilidade pelos próprios atos. Reconheço que pode haver razões legítimas para proteger a identidade, incluindo o receio de represálias. Uma cara tapada, por si só, não prova uma intenção violenta. Porém, quando alguém oculta o rosto para agredir, saquear ou destruir sem ser reconhecido, a questão é bastante concreta: quer agir e evitar responder pelo que fez.
A liberdade de manifestação não inclui uma dispensa de responsabilidade.
Quanto ao património público, talvez convenha recordar uma evidência: pertence à comunidade. Nenhum indivíduo pode decidir destruí-lo em nome da sua própria indignação. Ao fazê-lo, retira aos outros o uso de um bem comum e impõe-lhes o custo da sua reparação.
Uma biblioteca, uma escola, um jardim ou uma paragem de autocarro têm uma função na vida das pessoas. Não são abstrações nem objetos descartáveis. Quando são danificados, as consequências atingem também quem depende deles e não teve qualquer participação nos acontecimentos.
Como historiadora e arqueóloga, custa-me particularmente a facilidade com que o património pode ser tratado como um alvo disponível. Um edifício histórico guarda marcas de vidas, técnicas, acontecimentos e transformações que ultrapassam largamente o governo do momento. A sua destruição pode eliminar testemunhos que nenhuma verba de reconstrução consegue devolver.
É possível contestar o passado, discutir os seus símbolos e exigir novas formas de o apresentar. Esse debate merece conhecimento e participação. O fogo é um péssimo instrumento de interpretação histórica.
Há quem pergunte se um protesto que não perturba alguma vez é ouvido. É uma pergunta pertinente. Uma manifestação ocupa espaço, interrompe rotinas e pode condicionar a circulação. Não se pode exigir que toda a contestação decorra discretamente, sem causar o menor incómodo a ninguém.
Mas existe uma diferença entre interromper o trânsito e incendiar o carro de quem ficou parado nele. Entre ocupar uma praça e destruir o equipamento que permite a outras pessoas usá-la. Entre contestar uma decisão e agredir alguém que não teve qualquer participação nela.
Essa diferença não desaparece por estarmos indignados.
Também não devemos aceitar que os atos violentos sirvam de pretexto para desvalorizar todas as reivindicações ou justificar respostas indiscriminadas. A responsabilidade deve ser apurada em cada caso, incluindo quando estão em causa abusos de autoridade. Exigir rigor a quem protesta e a quem exerce o poder faz parte da mesma exigência democrática.
O que me inquieta é a facilidade com que a destruição ocupa toda a conversa. Discutem-se os incêndios, os confrontos e os prejuízos. Os salários, a habitação e a escola passam para segundo plano. Quem queria tornar um problema visível acaba representado por imagens que podem nada ter que ver com aquilo que defende.
O estrondo consegue atenção. Nem sempre consegue fazer ouvir uma ideia.
Não espero uma indignação elegante de quem está exausto. Espero, contudo, que a revolta conserve a capacidade de reconhecer o outro. Sobretudo aquele que tem tão pouco poder como nós para mudar as circunstâncias.

Porque, depois de dispersar a multidão, há sempre alguém que fica. Alguém que encontra o negócio destruído, telefona à família, faz contas ao prejuízo ou procura uma maneira de chegar ao trabalho sem o automóvel que lhe incendiaram.
Podemos exigir mudanças profundas, fazer perguntas incómodas e recusar respostas vazias. Devemos fazê-lo. Mas continuo à espera de que me expliquem como se melhora a vida de quem, depois da manifestação, fica a varrer os vidros.
Essa pessoa também fazia parte do povo.
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