O turismo português continua a apresentar resultados que justificam satisfação. Em setembro de 2026, o alojamento turístico registou 8,7 milhões de dormidas e 890,2 milhões de euros em proveitos totais, mais 6,1% do que um ano antes. No Algarve, entre janeiro e setembro, ultrapassaram-se 17,4 milhões de dormidas e os proveitos do alojamento cresceram 6,6%.
São resultados que refletem investimento, capacidade empresarial e o trabalho de milhares de profissionais. Mas há uma pergunta que raramente acompanha estes indicadores: o que está a mudar na vida das pessoas que tornam possível este crescimento?
Falamos frequentemente de falta de trabalhadores, recrutamento, formação e retenção de talento. Talvez seja tempo de perguntar também que condições permitem a alguém escolher uma profissão, nela progredir e permanecer.
Quando o trabalho e a vida não têm o mesmo horário
A hotelaria, a restauração e muitas atividades turísticas funcionam precisamente quando grande parte da sociedade descansa. Há hóspedes que chegam de madrugada, refeições servidas ao domingo, eventos que terminam à noite e épocas altas que coincidem com as férias escolares. Estas exigências fazem parte da natureza da atividade e não são, por si só, o problema.
O problema começa quando os horários profissionais são difíceis de compatibilizar com uma sociedade organizada, em larga medida, de segunda a sexta-feira. Pensemos num casal que trabalha por turnos e tem filhos pequenos. Quem assegura o seu acompanhamento quando ambos estão escalados ao sábado? Que alternativa existe quando um turno termina depois das 23 horas? E como se organizam as famílias quando as folgas variam e os horários só são conhecidos com pouca antecedência?
As dificuldades estendem-se a quem cuida de familiares idosos ou dependentes. Creches, atividades de tempos livres, transportes e serviços públicos nem sempre oferecem respostas compatíveis com horários rotativos. O resultado é que uma parte significativa da conciliação recai sobre as redes familiares ou sobre a capacidade individual de improvisar.
Trabalhar aos fins de semana não tem necessariamente de impedir uma vida familiar equilibrada. A imprevisibilidade, a ausência de apoios e a falta de soluções ajustadas tornam, porém, essa conciliação muito mais difícil.
Gostar da profissão não é o mesmo que conseguir ficar
A investigação da Universidade de Aveiro, divulgada em 2023, ajuda a compreender esta tensão. No estudo sobre o mercado de trabalho do turismo, 60% dos trabalhadores inquiridos declararam sentir-se felizes ou muito felizes na atividade. Ainda assim, 27% admitiam a possibilidade de a abandonar nos cinco anos seguintes. Entre os motivos apontados surgiam os salários, a pouca flexibilidade dos horários, a fraca progressão e o insuficiente reconhecimento social.
Não estamos, portanto, apenas perante um desafio de atração de novos profissionais. Estamos também perante a possibilidade de perder pessoas que conhecem a atividade, gostam do que fazem e, apesar disso, não encontram condições para construir uma carreira.
A questão remuneratória é incontornável. No segundo trimestre de 2026, a remuneração bruta média mensal por posto de trabalho no alojamento e restauração era de 1.185 euros, contra 1.717 euros no conjunto da economia portuguesa. Os salários deste setor cresceram 3,5% face ao período homólogo, acima dos 1,8% da média nacional, mas a distância entre os valores continua expressiva.
Estes dados não permitem concluir que os salários tenham acompanhado, ou deixado de acompanhar, os proveitos turísticos: dizem respeito a universos e períodos estatísticos diferentes. Permitem, isso sim, reconhecer uma diferença remuneratória relevante. E recordam-nos que salário, progressão, reconhecimento, descanso e previsibilidade dos horários devem ser discutidos em conjunto.
Há ainda uma pergunta pouco explorada: quantos profissionais qualificados não emigram, mas abandonam a hotelaria e o turismo para procurar noutras atividades as condições que não encontram no setor?
Uma resposta em construção, um problema já presente
Na Conceição de Faro, o projeto da creche Salta-Pocinhas, promovido pela AIPAR, permite dar um rosto concreto a estas necessidades. Está prevista uma capacidade para 42 crianças e um funcionamento alargado, incluindo períodos noturnos e fins de semana, pensado para famílias com horários de trabalho atípicos, nomeadamente na hotelaria, nos serviços de saúde e no aeroporto.
Segundo informação publicada em agosto de 2026, a obra encontrava-se na fase final, mas faltava assegurar financiamento para a sua conclusão. A abertura efetiva não está confirmada. O interesse deste exemplo não reside em apresentar uma solução já disponível, mas em revelar a dimensão de uma necessidade ainda insuficientemente respondida.
A legislação portuguesa já admite que as creches funcionem durante a noite e aos fins de semana, quando tal seja justificado pelas necessidades laborais das famílias. Existe também um mecanismo de comparticipação complementar aplicável, em determinadas condições, a horários superiores a onze horas diárias. A possibilidade legal, contudo, não equivale à disponibilidade de lugares.
Importa igualmente evitar soluções que transfiram o problema para os trabalhadores das próprias creches ou prolonguem desnecessariamente a permanência das crianças. São necessárias respostas adequadas, sustentáveis e construídas a partir das necessidades reais das famílias.
Um destino também é a comunidade que nele vive
Uma reflexão publicada recentemente no TNews, a propósito de uma intervenção de Caio Esteves sobre a identidade dos destinos, lembra que o sucesso turístico não deve ser avaliado apenas pelo número de visitantes ou pela reputação externa. Importa compreender também a experiência de quem vive nesses lugares.
Essa perspetiva merece incluir explicitamente quem trabalha no turismo. Um destino pode conquistar prémios, atrair investimento e crescer em receitas, mas continuará a enfrentar um desafio de sustentabilidade se os seus profissionais não conseguirem encontrar estabilidade, desenvolver competências ou compatibilizar a profissão com os seus projetos pessoais.
Não se trata de atribuir às empresas a responsabilidade exclusiva por questões que envolvem habitação, transportes, escolas e respostas sociais. Nem de considerar que cabe apenas às famílias resolver o problema. A melhoria da atratividade exige compromisso partilhado entre empresas, autarquias, instituições sociais, organismos públicos e entidades de ensino e formação.
Há medidas concretas a estudar: maior antecedência na comunicação das escalas, percursos de progressão reconhecíveis, apoio a soluções locais de acolhimento infantil, articulação com transportes e serviços de proximidade e projetos-piloto construídos nos principais polos de emprego turístico. O Algarve reúne experiência e instituições capazes de contribuir para esse trabalho conjunto.
As dormidas, os proveitos e a rentabilidade continuarão a ser indicadores essenciais. Mas importa acrescentar outros: quantos profissionais permanecem, quantos progridem, quantos encontram estabilidade e quantos conseguem conciliar o trabalho com a vida familiar?
O desafio não é apenas trazer pessoas para o turismo. É criar condições para que queiram — e possam — continuar nele.
O turismo pode funcionar todos os dias. Mas a vida de quem nele trabalha não pode ficar permanentemente à espera de uma folga.
Sobre o autor: Licenciado em Turismo, com mais de 30 anos de experiência na hotelaria e no turismo, incluindo direção operacional e formação profissional. Atualmente exerce funções de coordenação de formação profissional no setor.
Nota de independência: Este artigo exprime exclusivamente a opinião pessoal do autor e não representa o posicionamento do IEFP ou de qualquer outra entidade.
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