O turismo português continua a crescer em receitas, dormidas e projeção internacional.
A eleição de Portugal como Melhor Destino da Europa e a distinção do Algarve como Melhor Destino de Praia da Europa nos World Travel Awards 2026 são motivo de orgulho e confirmam a atratividade dos nossos destinos. Mas estes prémios devem também levar-nos a refletir sobre o que significa, na prática, ser um destino de excelência. Num território onde o acesso à habitação se tornou uma preocupação crescente, importa perguntar se quem contribui diariamente para essa excelência consegue também viver na região, desenvolver uma carreira e projetar nela o seu futuro. A reputação de um destino não se constrói apenas com aquilo que oferece a quem o visita, mas também com as condições que proporciona a quem nele trabalha. Para além dos indicadores de sucesso, importa colocar uma pergunta essencial:
- “Estamos a construir um setor onde as pessoas querem permanecer, evoluir e desenvolver uma carreira?”
A dificuldade em atrair e reter profissionais qualificados é frequentemente apresentada como um problema de falta de mão de obra, sazonalidade ou evolução demográfica. São fatores relevantes, mas há outra questão que merece atenção: como valoriza o setor as competências de que necessita?
Esta não é uma preocupação nova. Durante décadas, a hotelaria e a restauração conheceram mecanismos de reconhecimento profissional que associavam categorias, preparação técnica, experiência e, em determinados casos, remuneração. As carteiras profissionais e os enquadramentos previstos na contratação coletiva ajudavam a estruturar percursos e a distinguir funções.
Conheço esta realidade também pela minha experiência profissional. Comecei na hotelaria como bagageiro, passei a aprendiz de receção e evoluí para rececionista de segunda e, posteriormente, de primeira, até chegar a diretor hoteleiro. Não era apenas uma sucessão de funções: existia um percurso profissional reconhecível. O conhecimento de línguas estrangeiras, quando devidamente reconhecido, podia também traduzir-se num prémio remuneratório. A competência adquirida tinha, assim, uma expressão concreta no trabalho.
A legislação e a contratação coletiva conheceram, entretanto, alterações profundas. Em 2011, o Decreto-Lei n.º 92/2011 instituiu o Sistema de Regulação do Acesso a Profissões, simplificando o acesso a diversas profissões e eliminando, nos casos abrangidos, determinados requisitos de acesso. A simplificação do acesso ao mercado de trabalho tinha objetivos próprios, mas deixou uma questão que continua atual: como assegurar que a facilidade de entrada nas profissões não se traduz numa menor valorização da preparação técnica e da experiência?
Não se trata de idealizar o passado nem de defender o regresso às antigas carteiras profissionais. Trata-se de recuperar a função de reconhecimento que importa preservar: distinguir competências, valorizar o saber-fazer e criar perspetivas de progressão.
Hoje, dispomos do Quadro Nacional de Qualificações, de referenciais de formação certificada e de instrumentos de contratação coletiva que continuam a definir categorias profissionais e níveis remuneratórios. O desafio está em articular melhor estes mecanismos, para que a qualificação, a especialização e a experiência tenham consequências efetivas nas oportunidades de carreira e na remuneração.
Se alguém investe tempo e esforço numa formação profissional, é legítimo esperar que esse investimento faça diferença. Não significa que um diploma deva garantir automaticamente uma categoria ou um salário. Significa que as competências adquiridas e demonstradas não podem ser tratadas apenas como um requisito para entrar no mercado de trabalho.
Quando as perspetivas de evolução são reduzidas e a experiência acumulada não encontra reconhecimento, torna-se mais difícil reter profissionais. A rotatividade representa então mais do que um problema de recrutamento: implica perda de conhecimento, sobrecarga das equipas e riscos para a consistência e a qualidade do serviço.
Que caminhos podemos seguir?
Em primeiro lugar, precisamos de reforçar a ligação entre qualificação e carreira. Os níveis do Quadro Nacional de Qualificações, incluindo os níveis 4 e 5, podem ajudar a estruturar percursos profissionais, desde que articulados com as competências demonstradas, as responsabilidades assumidas e mecanismos transparentes de progressão e remuneração.
Em segundo lugar, importa aprofundar a colaboração entre entidades formadoras e empresas. Experiências como o Hotel Academy Lab ilustram o potencial da aprendizagem em contexto real de trabalho. Mas a colaboração não deve terminar com a formação ou o estágio. Deve incluir acompanhamento, tutoria e condições para uma integração profissional efetiva.
Em terceiro lugar, temos de reconhecer o valor da experiência e da transmissão de conhecimento. Os profissionais mais experientes representam um património que importa preservar. Valorizar a tutoria, criando condições para que acompanhem e desenvolvam os mais novos, é investir na qualidade do serviço, na continuidade das equipas e na dignificação das profissões.
Estas mudanças exigem o envolvimento das empresas, dos trabalhadores, dos parceiros sociais, das entidades formadoras e das instituições públicas. Nenhum destes intervenientes conseguirá, isoladamente, responder a um desafio que atravessa todo o ecossistema turístico.
É também aqui que a valorização profissional se liga à sustentabilidade. Um destino não pode avaliar o seu sucesso apenas pelas receitas geradas ou pelos visitantes recebidos. Deve igualmente perguntar se cria condições para que as pessoas que nele trabalham possam desenvolver competências, progredir e construir um futuro profissional.
O turismo português não tem de escolher entre crescer e valorizar as pessoas. Tem de demonstrar que consegue crescer criando mais valor económico, profissional e social.
A questão já não é apenas onde encontrar os trabalhadores de que o setor precisa. É perceber que razões lhes estamos a dar para escolher este setor, permanecer nele e querer fazer melhor.
Não precisamos de regressar ao passado. Precisamos de garantir que, no turismo de hoje, a qualificação, a competência e o saber-fazer voltam a ser razões concretas para reconhecer, valorizar e fazer progredir quem trabalha.
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