Acordei amargurado, com a alma pesada e a consciência em desordem. Não porque tivesse dormido mal — que dormir mal é uma vulgaridade da vida moderna, e até um privilégio daqueles que ainda têm preocupações —, mas porque me ficou, desde o primeiro clarão da manhã, a desagradável impressão de que, durante a noite, se passara alguma coisa.
Eu sou sonâmbulo.
Não o nego. Há em mim, desde a infância, essa singular disposição para, enquanto a consciência repousa prudentemente no leito, deixar o corpo entregue às mais extravagantes iniciativas.
O sonambulismo, que me foi diagnosticado, é defeito antigo, que a família sempre atribuiu à sensibilidade do meu sistema nervoso e que eu, por modéstia, imputo antes à grandeza das minhas responsabilidades públicas.
Mas reconheço que uma coisa é atravessar sonâmbulo o corredor, procurar na cozinha um copo de água ou, numa dessas aventuras noturnas, abraçar um candeeiro julgando tratar-se de uma pessoa conhecida.
Outra, bem diversa, é encontrar-me, às sete da manhã, num gabinete da Assembleia da República, a destruir papéis de vital importância para o Estado, empenhado na sua destruição metódica. Isso já é uma manifestação do sonambulismo que ultrapassa os limites razoáveis da medicina e entra, com franqueza, nos domínios da História.
Isto já não é sonambulismo. É excesso de zelo patriótico.
Confesso que, ao recordar a cena, senti algum embaraço.
Eu, que sempre tivera pela coisa pública aquele respeito grave que se deve às instituições — sobretudo quando estão rodeadas de funcionários e câmaras de televisão —, via-me agora, pela simples negligência do meu subconsciente, a revolver ficheiros, a espalhar papéis e a pôr em risco os grandes segredos da Pátria.
E tudo isto no Parlamento, com a PSP e a GNR ali por perto!
Mas não sejamos injustos com as forças de segurança. Não podemos exigir demasiado delas. Os agentes também são homens. Também eles têm direito ao repouso, à sopa quente e, sobretudo, a não serem responsabilizados por aquilo que os representantes do povo fazem enquanto dormem.
Não se pode exigir a um cidadão, ainda que fardado, que passe a noite inteira a vigiar os sonâmbulos da nação, na expectativa de que algum deputado, vencido pelo sono, resolva iniciar uma atividade clandestina.
Além disso, os salários não permitem semelhantes heroísmos.
Uma pessoa não é de ferro. E depois há o cansaço, que explica muita coisa neste país.
Explica o funcionário que não viu, o deputado que não sabe, o ministro que não se lembra e até o cidadão que, interrogado sobre determinado acontecimento, responde com a serenidade filosófica de quem acaba de descobrir que a memória é uma faculdade excessivamente sobrevalorizada.
Mas o que verdadeiramente me inquieta é o quadro.
Como caiu o quadro?
E por que razão caiu?
Não consigo responder. Talvez o tivesse derrubado eu. Talvez tivesse sido o vento. Talvez a própria solenidade parlamentar, que durante o dia pesa sobre os homens, se torne particularmente instável durante a noite.
Talvez a Democracia, que às vezes se mostra particularmente instável quando pendurada numa parede.
E depois houve o rosário! Esse objeto piedoso, respeitável, quase ministerial na sua dignidade.
Também caiu.
Ora, destruir documentos de Estado ainda pode atribuir-se ao sonambulismo; mas deixar cair um rosário já introduz no episódio uma espécie de responsabilidade metafísica que me perturba.
E é então que surge, na minha já fraca memória, a figura da senhora do Rosário.
Ah, a senhora do Rosário!
Que mulher!
Há pessoas que simplesmente veem. A senhora do Rosário observa. E entre ver e observar existe a distância que separa um cidadão de uma testemunha.
Começo, portanto, a recear que ela me tenha visto.
Se assim foi, estou perdido.
Porque ela terá visto tudo: o homem de Estado, às sete da matina, debruçado sobre ficheiros secretos; os papéis espalhados; o quadro no chão; o rosário caído; e, porventura, aquele ar de inocência profundamente sincera que só possuem os homens que sabem que não fizeram nada — porque estavam a dormir.
Ficheiros secretos!
A expressão, por si só, já nos restitui alguma dignidade. Ficheiros secretos são peças que nos habituámos a conhecer pelos filmes americanos: uma sala escura, uma lâmpada verde, dois agentes de fato escuro e um homem grave a dizer:
— Isto nunca aconteceu.
Ora, no meu caso, aparentemente, tinha acontecido.
Só faltava o homem de fato escuro.
E talvez nem isso.
Desde então, tenho andado com uma permanente inquietação. Vivo na esperança de que a senhora do Rosário seja discreta, a PSP seja esquecida, a GNR tenha sono pesado e os ficheiros secretos continuem suficientemente secretos para que ninguém descubra que, afinal, o maior perigo para o Estado não é o inimigo externo.
E, sobretudo, procuro reconstruir aquela noite misteriosa em que, enquanto eu dormia profundamente, alguém — eu próprio, segundo parece — decidiu prestar à República o mais singular dos serviços: destruir aquilo que, por ser secreto, não deveria sequer existir aos olhos de ninguém.
Há nisto uma ironia que não me escapa.
Durante o dia, os homens esforçam-se por parecer responsáveis.
À noite, quando dormem e vagueiam pela vida onírica, talvez revelem aquilo que são.
Eu, infelizmente, sou sonâmbulo.
E temo que a República também seja.
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