Há países que elegem os melhores. Outros, mais cautelosos, procuram pelo menos os competentes. E depois há países que se resignam ao mal menor, transformando a mediocridade relativa numa virtude cívica e a ausência de catástrofe num motivo de celebração.
O nosso parece pertencer a esta última categoria.
O Presidente da República foi escolhido, dizem-nos, não tanto pelas suas qualidades excecionais quanto pelo receio do candidato adversário. Não venceu porque representasse uma esperança particularmente luminosa; venceu porque a alternativa era apresentada como suficientemente assustadora. A escolha democrática, que deveria ser a consagração de uma preferência, converteu-se assim num exercício de prevenção de danos.
O mesmo sucede com os governos. Não se aprova um Orçamento do Estado porque ele seja excelente, visionário ou reformador. Aprova-se porque rejeitá-lo poderia desencadear uma crise política. Mais uma vez, o país avança não em direção a um ideal, mas fugindo de um cenário pior. Governa-se pela lógica da emergência permanente, como quem repara o telhado durante a tempestade, sem nunca encontrar o tempo ou a vontade para reconstruir a casa.
E assim se vai vivendo.
Não se planeia. Desenrasca-se.
O desenrascanço, elevado durante décadas à categoria de virtude nacional, acabou por se transformar numa desculpa para a imprevidência. Onde devia existir estratégia, surge improvisação. Onde deveria haver reforma, aparece remendo. Onde se exigiria visão, contentamo-nos com a gestão da contingência.
A tudo isto junta-se um velho hábito nacional que resiste a todos os programas de modernização e a todos os discursos sobre transparência: a persistente superioridade da cunha sobre o mérito. O talento continua demasiadas vezes a esperar à porta enquanto a familiaridade entra pela frente. O esforço apresenta credenciais; a influência dispensa-as. E o país perde, silenciosamente, aqueles que mais poderiam contribuir para o seu progresso.
Não admira, por isso, que o interesse coletivo tantas vezes se encontre sequestrado por interesses particulares. Multiplicam-se os grupos, as clientelas, as corporações e as dependências mútuas. O bem comum, essa entidade abstrata que todos invocam mas poucos servem, acaba frequentemente relegado para um plano secundário, vencido por vantagens imediatas e conveniências circunstanciais.
Perante este panorama, a questão impõe-se: que futuro pode ter um país que vive sistematicamente do mal menor?
Um país que escolhe para evitar, governa para adiar, aprova para impedir males maiores, contrata por influência e decide em função de interesses parcelares dificilmente encontrará o caminho da excelência. Pode sobreviver durante muito tempo. Pode até exibir períodos de prosperidade. Mas habituar-se-á progressivamente a confundir estabilidade com estagnação e prudência com resignação.
As nações não definham apenas por causa das crises. Definham também quando deixam de acreditar que merecem mais do que o mal menor.
E talvez resida aí o problema mais profundo. Não é o fracasso ocasional das instituições. É a atrofia da ambição coletiva. É a aceitação tácita de que o suficiente basta, de que o medíocre é razoável e de que o futuro se fará, como sempre, à custa de mais um desenrasque providencial.
Até ao dia em que a realidade apresentar a conta.
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