Todos os seres humanos, sem exceção, fazem juízos de valor. Perante qualquer acontecimento, por mais simples ou complexo que seja, interpretamos os factos à luz das nossas crenças, da nossa educação, da nossa experiência de vida e dos valores que cultivámos. É essa bagagem cultural e moral que nos leva a preferir determinados desfechos em detrimento de outros e a desejar que a realidade se conforme às nossas convicções.
Neste sentido, a neutralidade absoluta é uma ilusão. Não existe um observador inteiramente despido de referências ou preferências. Cada pessoa olha para o mundo através de um conjunto de lentes que condicionam, inevitavelmente, a forma como o compreende. O jornalista não constitui exceção.
Contudo, reconhecer a impossibilidade da neutralidade não significa renunciar à independência. Pelo contrário. É precisamente porque sabemos que temos preferências que devemos esforçar-nos por não lhes permitir que substituam os factos. A verdadeira prova de independência intelectual surge quando somos capazes de admitir que a realidade não corresponde aos nossos desejos.
É relativamente fácil descrever os acontecimentos quando estes confirmam as nossas expectativas. Mais difícil é aceitar um resultado, uma decisão ou uma evolução que contrarie aquilo que gostaríamos que tivesse acontecido. É nesse momento que se revela a diferença entre informação e propaganda.
O jornalismo digno desse nome não consiste em moldar a realidade aos valores do jornalista nem em selecionar apenas os factos que sustentam uma determinada narrativa. A sua missão é mais exigente: relatar os acontecimentos tal como eles se apresentam, mesmo quando estes desmentem as nossas convicções ou frustram as nossas expectativas. A honestidade intelectual exige precisamente essa disciplina.
Já a propaganda segue um caminho diferente. Parte de uma conclusão previamente estabelecida e procura adaptar os factos a essa conclusão. Quando a realidade se mostra inconveniente, é omitida, minimizada ou reinterpretada. O objetivo deixa de ser informar para passar a ser persuadir. E quando tal acontece sob a aparência de jornalismo, o resultado inevitável é a perda de credibilidade.
Num contexto em que a confiança nos meios de comunicação social atravessa dificuldades evidentes, importa recuperar esta distinção fundamental. O problema do jornalismo não reside no facto de os jornalistas terem opiniões ou valores. O problema surge quando esses valores se tornam mais importantes do que os factos.
A independência não exige a ausência de convicções. Exige, isso sim, a capacidade de as subordinar à realidade. Porque, no fim de contas, é na permanente distinção entre aquilo que desejamos e aquilo que efetivamente acontece que se constrói a credibilidade. E é também aí que se encontra a fronteira entre o jornalismo e a propaganda.
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