Quando pensamos na saúde mental, tendemos a olhar para o que se passa dentro de cada pessoa: os pensamentos e as emoções, os recursos de que dispõe e as dificuldades que enfrenta ao lidar com as exigências do dia a dia.
Mas a saúde mental também é influenciada pelo que vivemos e pelas relações que vamos estabelecendo ao longo da vida.
É nas relações que aprendemos, desde cedo, se podemos confiar, pedir ajuda, mostrar fragilidade e ser escutados. Sabemos também que as relações podem ferir. Podem ser marcadas pelo conflito, pela ausência, pela rejeição ou pelo medo. O modo como somos vistos e tratados pelos outros influencia a forma como nos vemos a nós próprios e interpretamos o mundo, com repercussões na nossa saúde mental.
A investigação mostra que as relações têm um papel importante em diferentes momentos do desenvolvimento. Na infância, a segurança das primeiras relações de vinculação associa-se a diferentes dimensões do desenvolvimento socioemocional da criança. Mais tarde, na escola, a qualidade da relação entre professores e alunos está associada ao desempenho académico, à motivação, às emoções vividas naquele contexto, ao comportamento e ao envolvimento escolar.
Na adolescência, as relações com os pares podem contribuir para a autoestima e para a construção da identidade, num período em que encontrar um lugar entre os outros ganha particular significado.
Na vida adulta, a qualidade das relações amorosas também se associa ao bem-estar psicológico. Relações vividas com satisfação e apoio podem constituir uma fonte de bem-estar, embora o sofrimento psicológico também possa repercutir-se na forma como cada pessoa vive esse vínculo.
Também no contexto laboral, as relações assumem especial relevância. A forma como nos sentimos tratados por colegas e chefias, a possibilidade de contar com apoio e de sermos reconhecidos influenciam o sentimento de pertença e o bem-estar. As relações de trabalho podem, porém, tornar-se fonte de tensão, desvalorização ou isolamento, com consequências para a saúde psicológica. A saúde mental no trabalho relaciona-se, assim, com a qualidade das relações e do ambiente organizacional.
Em fases mais avançadas da vida, a perceção de que podemos contar com apoio emocional nas relações significativas continua associada ao bem-estar psicológico.
Uma relação segura não resolve todos os problemas, mas pode oferecer um lugar de pertença e confiança a partir do qual se torna menos difícil enfrentá-los. Importa, por isso, considerar também a qualidade das relações. A solidão não se mede apenas pelo número de pessoas que temos à volta. Há quem esteja acompanhado e se sinta profundamente só; mas também há momentos em que uma conversa atenta, uma presença disponível ou um gesto simples fazem alguém sentir que não está a atravessar tudo sozinho.
Cuidar das relações passa pela forma como escutamos, pelo tempo que partilhamos, pela atenção que prestamos e pela disponibilidade para nos mantermos presentes.
Neste Dia Mundial da Saúde Mental, importa reconhecer a importância de cuidar das relações que estabelecemos ao longo da vida. Promover relações saudáveis na família, na escola, no trabalho, nas relações amorosas e na comunidade é uma responsabilidade coletiva. Todos integramos esta teia e faremos, seguramente, parte de muitos nós: alguns sustentam, outros condicionam e outros ainda podem causar sofrimento.
Se sente dificuldade em lidar com algumas das relações que fazem parte do seu presente, ou com o lugar que ocupam e o que representam na sua vida, procurar apoio psicológico pode ajudar a reconhecer necessidades e limites, a ressignificar experiências e a encontrar outras formas de se posicionar nas relações com os outros e consigo próprio.
Essa importância das relações está também presente no próprio processo psicoterapêutico. Embora os modelos teóricos possam diferir, a relação terapêutica ocupa um lugar central: é no vínculo de confiança que se constrói entre terapeuta e cliente que se abre espaço para compreender o que se vive e trabalhar, entre outros objetivos, a relação que cada pessoa mantém consigo própria.
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