Há decisões governativas que, pela sua elevação moral, pela sua excelsa visão estratégica e pelo conhecimento quase transcendental que revelam da condição humana, deixam-nos num estado de admiração tão profundo que quase sentimos necessidade de pedir desculpa por não termos participado na sua conceção. Não por falta de convite, bem entendido, mas por manifesta insuficiência de iluminação.
Foi o que me sucedeu ao tomar conhecimento da generosa intenção de conceder apoio governamental à aquisição de automóveis elétricos por famílias carenciadas. Confesso que me invadiu uma certa melancolia: como gostaria de ter estado presente na reunião em que tão luminosa ideia foi concebida! Teria sido uma experiência intelectual verdadeiramente inesquecível. Gostaria de conhecer o autor da proposta, observar a expressão dos presentes e, sobretudo, esclarecer um pormenor que me parece essencial: em que momento alguém se riu? Ou, hipótese ainda mais inquietante, se alguém chegou a perceber a graça.
Porque há, com efeito, qualquer coisa de sublime nesta moderna conceção da assistência social. Durante séculos, nas relações entre o Estado e a sociedade, os governos preocuparam-se, talvez por uma lamentável falta de imaginação, em proporcionar aos pobres coisas tão rudimentares como pão, abrigo, trabalho e condições mínimas de sobrevivência. Mas eis que surge uma nova geração de estadistas, iluminada pelos ventos da pós-modernidade, que finalmente compreendeu que a verdadeira pobreza não consiste em não ter casa, mas em não possuir um automóvel de emissões reduzidas. Afinal, a miséria também precisava de uma atualização e um sobressalto tecnológicos.
Entretanto, o país oferece-nos um espetáculo consideravelmente menos futurista. Há famílias que aguardam apoios à renda como quem espera a chegada de um parente rico, há inquilinos que fazem contas ao salário com a angústia de um condenado a quem já anunciaram a sentença, e há quem não saiba se, no mês seguinte, terá dinheiro para conservar o teto que o abriga. Mas não desesperemos! O Estado, sempre atento às necessidades mais profundas dos cidadãos, prepara-lhes uma solução elétrica. Pode faltar-lhes o essencial, mas não lhes faltará certamente a oportunidade de participar na transição energética.
Imagino a cena, numa repartição pública, entre um cidadão de rosto cansado e um funcionário de sorriso institucional, daqueles que parecem ter sido concebidos para tranquilizar quem acaba de receber uma má notícia:
– Senhor funcionário, a minha renda está em atraso, já recebi uma ameaça de despejo e, para ser franco, não sei como vou alimentar os meus filhos.
– Compreendo perfeitamente. Mas já ponderou adquirir um automóvel elétrico?
– Um automóvel? Mas eu mal tenho dinheiro para o supermercado!
– Precisamente! Com um elétrico, contribuirá para a descarbonização da economia.
– Mas onde vou carregá-lo? Vivo num terceiro andar, sem elevador, e a garagem é uma realidade que só conheço dos anúncios imobiliários.
– Não se preocupe. O importante é ter uma atitude sustentável.
– E a renda?
– Essa questão não se enquadra no âmbito deste programa.
Eis o novo rosto da solidariedade: o cidadão pode não ter pão, mas terá baterias de lítio; pode não ter casa, mas terá autonomia de duzentos quilómetros; pode não saber como chegar ao fim do mês, mas chegará certamente ao futuro – desde que encontre um posto de carregamento rápido, ou ultrarrápido, pelo caminho. A sobrevivência, pelos vistos, já não se mede em dias, mas em quilómetros de autonomia.
É uma revolução social de tal magnitude que quase nos faz esquecer as pequenas insignificâncias do quotidiano. Afinal, para que serve uma renda paga a tempo, quando se pode possuir um veículo de tecnologia avançada? Que importância tem a estabilidade familiar, se a dinâmica familiar pode participar ativamente na transição energética? E que melhor maneira de combater a exclusão social do que oferecer aos excluídos um objeto cujo custo de aquisição, manutenção e utilização continuará a exigir recursos que, por uma infeliz coincidência, não possuem?
Há nisto uma filosofia nova, que certamente merecerá lugar de destaque nos manuais de economia e de políticas sociais. Talvez se trate de uma variante particularmente sofisticada do pensamento económico: em vez de retirar os pobres da pobreza, moderniza-se a pobreza. O indigente de outrora tinha uma enxada, um casaco coçado e uma preocupação diária com o jantar. O indigente do futuro terá uma aplicação no telemóvel, uma ficha de carregamento e uma preocupação diária com o jantar, acrescida da gestão da autonomia da bateria. É a mesma pobreza, mas agora com interface digital.
Naturalmente, o autor desta iniciativa merece reconhecimento público. Talvez uma medalha, uma condecoração ou, no mínimo, uma promoção para um cargo onde possa continuar a exercer tão extraordinária capacidade de diagnóstico social. Uma pessoa que consegue identificar necessidades tão sofisticadas na vida de quem não consegue pagar a renda não deve ser desperdiçada em funções administrativas de modesta ambição. Talvez até possa vir a dirigir um observatório da pobreza, desde que devidamente equipado com postos de carregamento.
E, se me permitem uma sugestão, talvez se devesse alargar o programa. Porque ficar pelos automóveis elétricos seria uma visão demasiado limitada e, convenhamos, pouco ambiciosa. Às famílias que não conseguem pagar a eletricidade, poder-se-iam oferecer painéis solares; aos que vivem em casas sem condições, uma estação meteorológica doméstica; aos desempregados, uma subscrição de plataformas de produtividade; e aos que passam fome, quem sabe, um curso de gastronomia molecular. Afinal, não há razão para que a carência material continue presa a soluções tão antiquadas como comer.
O importante é que ninguém fique para trás – sobretudo no que respeita à tecnologia. Quanto às necessidades básicas, essas poderão aguardar por uma fase posterior do programa, eventualmente integrada num plano estratégico de longo prazo.
Há companhias aéreas de baixo custo (low-cost) que, com as suas campanhas publicitárias de gosto duvidoso, se esforçam diariamente por inventar situações absurdas que provoquem o riso. Gastam dinheiro, contratam criativos, reúnem equipas e passam horas a tentar encontrar a ideia mais disparatada. Por vezes, conseguem resultados bastante razoáveis.
Nós temos uma vantagem competitiva extraordinária: não precisamos de contratar ninguém. Temos o Estado. E, ao contrário das companhias aéreas, nem sequer precisamos de recorrer à ficção publicitária. A realidade encarrega-se de fornecer o argumento, o humor e, sobretudo, o financiamento.
E o melhor de tudo é que a campanha é paga pelos próprios espectadores. Mesmo por aqueles que, provavelmente, não terão dinheiro para comprar bilhete.
Resta-nos esperar que, na próxima iniciativa de combate à pobreza, alguém se lembre de oferecer aos pescadores carenciados e às suas famílias um iate elétrico. Afinal, não seria justo que continuassem a atravessar a crise sem uma experiência de navegação sustentável. E, se a embarcação tiver autonomia suficiente, talvez possam até utilizá-la para se deslocarem até ao centro de emprego, desde que o mar esteja de feição e haja um posto de carregamento na doca.
Quanto à renda, à comida e ao resto, há de haver sempre tempo para tratar disso.
O futuro, esse, já está carregado.
Só falta que alguém se lembre de carregar o presente.
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