Saber quanto ganha o Presidente da República em Portugal continua a ser uma curiosidade recorrente, sobretudo quando se fala de salários públicos, benefícios associados ao cargo e regalias que se mantêm mesmo depois do fim do mandato. Entre valores brutos, descontos, despesas de representação e direitos atribuídos aos ex-presidentes, há números que raramente passam despercebidos e ajudam a perceber melhor como funciona o topo da hierarquia política portuguesa.
A resposta à pergunta sobre o salário presidencial mudou recentemente. Em 2025 terminou o corte de 5% que vigorava desde o período da troika e, este ano, o valor mantém-se nos 11.718 euros brutos mensais. Este montante representa mais 650 euros do que em 2024, mas está longe de ser o valor que entra, no fim do mês, na conta bancária do inquilino de Belém, de acordo com o portal especializado em economia Ekonomista.
O que sobra depois dos descontos obrigatórios
Tal como qualquer trabalhador, o Presidente da República está sujeito a descontos para IRS, Segurança Social e ADSE. Depois de aplicadas todas as retenções, o salário líquido aproxima-se dos 6.000 euros mensais, o que significa que quase metade do valor bruto é absorvido pelos impostos e contribuições.
O montante total resulta da soma de duas parcelas distintas. Por um lado, o salário base, fixado em 8.370 euros. Por outro, as despesas de representação, no valor de 3.348 euros, equivalentes a 40% do salário base. Esta segunda componente destina-se a cobrir custos associados a compromissos oficiais, receções institucionais e eventos protocolares.
Fim de uma herança da crise financeira
Durante mais de dez anos, os titulares de cargos políticos estiveram sujeitos a um corte salarial de 5%, uma medida introduzida em 2010 no contexto da assistência financeira internacional. Apesar de a troika ter deixado Portugal há vários anos, este corte manteve-se até ao Orçamento do Estado para 2025.
Nesse orçamento, o Governo decidiu eliminar definitivamente a redução e aplicar também a atualização geral da função pública, fixada em 2,15%. Foi esta conjugação de fatores que explicou o aumento aplicado em 2025 e que continua em vigor ao longo de 2026, de acordo com a mesma fonte.
As regalias associadas ao cargo presidencial
O salário é apenas uma parte do que está associado à função de Presidente da República. O chefe de Estado tem como residência oficial o Palácio de Belém, um edifício histórico no centro de Lisboa com vários séculos de existência.
Na prática, muitos presidentes optaram por não viver permanentemente em Belém, utilizando o espaço sobretudo como local de trabalho e para atos oficiais. O último a residir de forma efetiva no palácio foi Ramalho Eanes, que terminou o mandato em 1986.
Além de Belém, o Presidente dispõe ainda do Palácio da Cidadela de Cascais como residência de verão e do Paço dos Duques de Bragança como residência oficial no norte do país. Estes espaços estão preparados para acolher chefes de Estado estrangeiros e reuniões de alto nível.
O transporte oficial inclui viaturas blindadas de marcas de topo, com motorista, matrícula especial e bandeira presidencial. A segurança permanente é assegurada pela Guarda Nacional Republicana, incluindo um destacamento dedicado e cerimónias regulares como o Render da Guarda em frente ao Palácio de Belém.
Depois de sair de Belém
O fim do mandato não significa o fim dos benefícios, refere ainda a mesma fonte. Os ex-presidentes têm direito a uma pensão vitalícia correspondente a 80% do salário do Presidente em funções. Com os valores atuais, isso traduz-se em cerca de 9.374 euros brutos mensais.
A esta pensão juntam-se outras regalias. Mantêm o direito a viatura oficial com motorista e combustível pago pelo Estado, bem como a um gabinete de trabalho com um assessor e um secretário, ambos escolhidos pelo próprio e remunerados com dinheiros públicos.
Também a proteção policial se mantém, assim como o passaporte diplomático para deslocações ao estrangeiro. Existe ainda a possibilidade de uso e porte de arma de defesa, um privilégio reservado a um número muito limitado de antigos titulares de cargos de soberania.
Salário presidencial como referência nacional
O vencimento do Presidente da República funciona como base de cálculo para todos os restantes salários políticos. No topo da hierarquia está Belém, e a partir daí aplicam-se percentagens decrescentes. O presidente da Assembleia da República recebe 80% do salário presidencial, cerca de 9.375 euros brutos. O primeiro-ministro aufere 75%, o que corresponde a 8.769 euros. Os ministros recebem 7.617 euros e os secretários de Estado 6.780 euros mensais.
No caso dos deputados, o valor varia consoante o regime. Em exclusividade, o salário é de 4.604 euros brutos por mês, sendo inferior para quem exerce outras atividades profissionais em simultâneo, de acordo com a fonte anteriormente citada.
Comparação com os salários em Portugal
Para enquadrar estes valores, importa olhar para a realidade nacional. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, o salário médio bruto em Portugal ronda os 1.528 euros mensais. O salário mínimo nacional fixou-se nos 920 euros em 2026.
Ainda assim, há cargos públicos com remunerações bastante superiores à do Presidente da República. Gestores de empresas como a Caixa Geral de Depósitos ou a TAP podem ultrapassar os 30.000 euros mensais, chegando nalguns casos acima dos 40.000 euros.
Também nas empresas cotadas em bolsa os valores estão noutro patamar, com administrações a auferirem mais de 20.000 euros por mês, mesmo nos casos menos bem pagos do principal índice nacional.
E no contexto europeu?
A comparação internacional coloca Portugal num plano mais modesto. A presidente da Comissão Europeia recebe cerca de 38.300 euros mensais. Já António Costa, enquanto presidente do Conselho Europeu, aufere um valor semelhante. Os comissários europeus ganham aproximadamente 30.500 euros por mês, enquanto os deputados do Parlamento Europeu recebem cerca de 21.400 euros mensais, de acordo com o Ekonomista.
















