O jardim infantil Unidinhos de Cabo Verde, no Casal da Mira, na Amadora, distribui cabazes de apoio alimentar a pessoas cujos salários e pensões já não chegam para todas as despesas. Famílias de origem cabo-verdiana ouvidas pela Lusa relatam cortes nas compras de comida para conseguirem pagar a renda, a energia e outros encargos.
No bairro, onde foram realojados muitos antigos moradores da Estrela da África e das Fontainhas, a ajuda chega a pessoas que vivem em Portugal há décadas. Para algumas, as limitações de saúde e as dificuldades em encontrar trabalho tornam ainda mais apertada a gestão do orçamento.
Pensões insuficientes obrigam a escolher os alimentos mais baratos
Maria Natalina Lopes, de 53 anos, trabalhou nas limpezas, cuidou de idosos e passou por restaurantes. Atualmente, os problemas nas costas impedem-na de permanecer muitas horas de pé. Diz que procurou emprego, mas considera que a idade dificulta essa possibilidade.
A pensão não chega para pagar a renda, a água, a luz, o gás e a alimentação. Às segundas e terças-feiras, passa pelo jardim infantil para recolher alimentos.
Tem sete filhos, dois dos quais ainda vivem consigo: uma adolescente de 14 anos, que estuda, e um jovem de 22, que não trabalha.
“A alimentação está muito cara, há coisas que a gente não compra mesmo e as opções vão para o frango ou a pescada, às vezes”, afirmou.
Maria Natalina reconhece que as dificuldades também atingem os portugueses. “Vamos para Lisboa, vemos muita gente a dormir na rua (…) É triste”, observou, apontando os custos da água, da eletricidade e da botija de gás, que descreve como estando “ao preço do ouro”.
Seis pessoas dependem de duas pensões
Ana Maria, de 70 anos, nasceu na ilha de Santiago, em Cabo Verde, e começou recentemente a recorrer ao centro, depois de saber das doações.
Viúva, depende das pensões de reforma e de viuvez para responder às necessidades de um agregado de seis pessoas, incluindo três filhos e dois netos. A renda de 300 euros pesa nas despesas mensais.
“A gente não pode comer a comida em condições, temos de comprar aquilo que dá”, contou. Massa e frango estão entre as escolhas mais acessíveis.
“Quando chegamos no fim do mês, paga-se a água, paga-se a luz, paga-se a renda, já ficamos sem nada para a casa”, acrescentou, classificando o cabaz como uma boa ajuda.
Também Lena, moradora do bairro que chegou a Portugal em 1973, vinda da ilha de Santiago, sente o agravamento das despesas. Chama a atenção para as famílias “a quem falta o que comer” e recorda uma compra recente: “Há dias fui comprar um quilo de cebola, estava a 1,69 euros. Assustei-me”.
Jardim infantil apoia crianças e famílias
A distribuição de cabazes às segundas-feiras é preparada com a recolha, ao domingo, de doações de um hipermercado.
Cesaltina Gomes, conhecida por Avó Ciza, é auxiliar de educação e trabalha no centro há quase 40 anos. É também através do seu trabalho que o apoio chega às famílias.
Segundo a responsável, praticamente todas as crianças que frequentam o jardim infantil pertencem a agregados cujos rendimentos não são suficientes “para as necessidades básicas, para alimentação, para vestir”.
Nas três salas, crianças entre os três e os cinco anos recebem um reforço alimentar. Muitas chegam sem ter tomado o pequeno-almoço, por falta de condições em casa ou porque os pais, apressados, não tiveram tempo.
A cozinha prepara ainda o almoço para as crianças, os funcionários e quem precisar. Na manhã acompanhada pela Lusa, um estufado apurava num panelão enquanto algumas moradoras aguardavam pelos alimentos.
Há quem procure melhores condições noutros países
Cesaltina Gomes relata que já viu amigos partir em busca de rendimentos mais elevados em França, na Suíça e no Luxemburgo.
São sobretudo jovens que procuram emprego na restauração, nas limpezas e como auxiliares de ação educativa, numa tentativa de encontrar melhores condições de vida.
Para Ana Maria, porém, regressar a Cabo Verde não está nos planos. Visita a família de vez em quando e considera que a vida é mais barata naquele país, mas os filhos também preferem ir apenas de férias.
“Ficar lá não, já estamos mais habituados aqui”, afirmou.









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