Estava habituada a gerir pessoas, a tomar decisões e a manter o controlo sobre a sua vida profissional. Sempre teve cuidado com possíveis esquemas fraudulentos e chegou mesmo a impedir que uma funcionária fosse enganada. Ainda assim, acabou por perder uma fortuna numa burla que se prolongou durante vários meses com uma falsa taróloga.
A vítima, identificada pelo nome fictício de Vitória, perdeu cerca de 400 mil euros depois de estabelecer contacto com uma mulher que se apresentava como taróloga e alegava possuir poderes especiais. Em entrevista à CNN Portugal, publicada este sábado, 7 de novembro, contou como foi enganada numa fase marcada pela solidão e fragilidade emocional.
“Se me contassem a minha história, eu dizia que era mentira”, confessou Vitória, que continua a ter dificuldade em compreender como acabou envolvida numa situação desta dimensão. A mulher admite sentir vergonha pelo sucedido, sobretudo porque sempre se considerou uma pessoa particularmente cuidadosa.
Tudo começou com uma conversa no Instagram
O primeiro contacto aconteceu em janeiro de 2026, através do Instagram. A alegada taróloga, identificada na reportagem pelo nome fictício de Dora, promovia serviços esotéricos nas redes sociais e apresentava-se como alguém capaz de ajudar a resolver problemas pessoais.
Depois das primeiras conversas, a comunicação passou para o WhatsApp, onde trocaram mensagens, chamadas telefónicas e videochamadas. Segundo Vitória, a mulher parecia simpática e transmitia confiança, o que contribuiu para o desenvolvimento de uma relação que se prolongaria durante vários meses.
A vítima reconhece que atravessava um período particularmente difícil. “Estava numa péssima fase. Tenho noção disso hoje e terá sido isso que fez com que acreditasse nela”, explicou à CNN Portugal, acrescentando que, ao contrário de outros momentos complicados da sua vida, desta vez sentia que não tinha ninguém com quem contar.
Começou por devolver pequenas quantias de dinheiro
O esquema terá começado com pedidos de pequenas quantias, acompanhados da promessa de que o dinheiro seria devolvido depois de passar por um alegado processo espiritual. A suspeita dizia que era necessário “abençoar” os valores entregues antes de os restituir.
Inicialmente, as quantias eram efetivamente devolvidas, o que ajudou a reforçar a confiança da vítima. Contudo, com o passar do tempo, os pedidos tornaram-se mais frequentes e os montantes aumentaram consideravelmente.
As transferências bancárias deram lugar também a entregas de dinheiro em numerário. Sempre que Vitória questionava a devolução dos valores, surgiam novas justificações relacionadas com alegados trabalhos espirituais que precisavam de ser realizados.
Segundo o testemunho, a suspeita chegou a afirmar que a interrupção desses procedimentos poderia provocar consequências negativas na vida pessoal e afetiva da vítima. A sucessão de pedidos e devoluções parciais acabou por dificultar a perceção do montante total entregue.
Foi um pormenor numa casa de banho que levantou suspeitas
O momento decisivo aconteceu durante uma deslocação ao Porto, cidade onde Vitória se encontrava habitualmente com a alegada taróloga quando esta vinha a Portugal.
Nessa ocasião, a suspeita levou-a a um apartamento que apresentou como sendo a sua residência. Contudo, quando Vitória foi à casa de banho, reparou que faltavam objetos básicos de higiene pessoal.
“Não havia uma pasta de dentes, não havia um champô, não havia nada”, recordou à CNN Portugal. A ausência de sinais de que alguém habitasse regularmente naquele espaço levantou as primeiras suspeitas mais sérias.
A situação agravou-se quando a mulher voltou a pedir dinheiro, apesar de ter prometido devolver as quantias anteriormente entregues. Foi nesse momento que Vitória percebeu que poderia estar a ser enganada e decidiu procurar ajuda jurídica.
Casal foi detido pela Polícia Judiciária no Porto
Depois de contactar uma advogada, Vitória reuniu as mensagens e outros elementos relacionados com os pedidos de dinheiro. A apresentação da queixa permitiu desencadear uma investigação que contou com a colaboração das autoridades brasileiras.
No início de outubro, a Polícia Judiciária deteve no Porto um casal suspeito de estar envolvido no esquema. Os dois residiam no Brasil e deslocavam-se a Portugal por períodos curtos, durante os quais mantinham contactos com a vítima.
Segundo a PJ, os suspeitos exibiam nas redes sociais um estilo de vida luxuoso e sinais exteriores de riqueza. A mulher já tinha sido detida no Brasil, em 2015, por suspeitas de crimes semelhantes, embora não tenha chegado a ser julgada nesse processo.
Os dois suspeitos ficaram em prisão preventiva. A investigação identificou ainda contas bancárias em diferentes países e transferências de dinheiro para contas associadas à mãe da suspeita, que poderá também vir a ser constituída arguida.
Advogada admite dificuldades em recuperar os 400 mil euros
A advogada Núbia Alves, que representa Vitória, explicou à CNN Portugal que a cliente se encontrava confusa e com medo quando procurou ajuda. A análise das mensagens e da cronologia dos acontecimentos permitiu compreender a dimensão do alegado esquema.
A jurista considera que este tipo de criminalidade envolve estratégias de aproximação e manipulação capazes de criar uma relação de confiança com as vítimas. No caso de Vitória, a situação prolongou-se durante meses, até que surgiram elementos que permitiram identificar a possível burla.
Quanto à recuperação dos 400 mil euros, Núbia Alves admite que poderá ser possível reaver pelo menos parte do dinheiro, embora sublinhe que tudo depende do desenvolvimento da investigação.
A circulação de valores por contas bancárias de diferentes países constitui uma dificuldade adicional, uma vez que o dinheiro pode ser rapidamente transferido ou convertido noutros ativos.
Especialista explica como os burlões conquistam a confiança
César Afonso, psicólogo forense e antigo inspetor-chefe da Polícia Judiciária, explicou à CNN Portugal que os autores deste tipo de crimes recorrem frequentemente a técnicas de engenharia social, procurando identificar momentos de maior vulnerabilidade emocional.
Segundo o especialista, uma das estratégias mais comuns consiste em começar por pequenas quantias que são devolvidas, criando a sensação de que o processo é seguro. Depois de conquistada a confiança, os pedidos aumentam progressivamente.
O mesmo mecanismo pode ser utilizado em falsas oportunidades de investimento online, nas quais as vítimas recebem inicialmente pequenos lucros antes de serem incentivadas a entregar montantes mais elevados.
O antigo responsável da PJ alerta ainda para a importância da literacia digital e considera que o testemunho de Vitória poderá incentivar outras pessoas que tenham passado por situações semelhantes a apresentar queixa.
Apesar da dimensão do prejuízo, Vitória decidiu tornar pública a sua história, preservando a identidade, para mostrar como uma relação construída através das redes sociais pode transformar-se numa burla com consequências financeiras e emocionais profundas.
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