Um fenómeno climático que se desenvolve a milhares de quilómetros de Portugal está a despertar a atenção das autoridades internacionais de saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma análise global dedicada aos riscos do El Niño em 2026, defendendo que paÃses e sistemas de saúde devem preparar-se antecipadamente para os possÃveis impactos nos próximos meses.
O alerta ganha peso porque o fenómeno não deverá desaparecer tão cedo. A Organização Meteorológica Mundial prevê que o El Niño continue a fortalecer-se e atinja uma intensidade muito forte antes do final de 2026, com efeitos que poderão prolongar-se por 2027.
Atenção aos mosquitos: mudanças na chuva e temperatura podem favorecer transmissão
Um dos riscos destacados pela OMS está relacionado com as doenças transmitidas por vetores, entre os quais se encontram os mosquitos. Estes insetos são particularmente sensÃveis à s alterações da temperatura, precipitação e humidade, fatores que influenciam a reprodução, sobrevivência e atividade das diferentes espécies.
A OMS aponta como exemplos a dengue, malária e febre do Vale do Rift. Dependendo da região, perÃodos de chuva intensa podem criar acumulações de água favoráveis à reprodução dos mosquitos, enquanto situações de seca também podem originar reservatórios de água parada. Isto não significa que o El Niño vá provocar automaticamente surtos destas doenças. O risco varia muito entre regiões e depende da presença dos mosquitos transmissores, das temperaturas, da chuva e da circulação dos próprios agentes infecciosos.
Mosquitos já são motivo de atenção na Europa
A questão não está limitada às zonas tropicais. A OMS Europa tem alertado para a expansão das doenças transmitidas por mosquitos no continente, incluindo dengue, febre do Nilo Ocidental, chikungunya, Zika e malária.
Temperaturas mais elevadas, maior humidade e episódios de inundação podem criar condições mais favoráveis para algumas espécies, enquanto as viagens internacionais também podem contribuir para a introdução de vÃrus em novas regiões. Em 2026, a OMS chegou mesmo a pedir aos paÃses europeus que reforçassem a vigilância dos mosquitos devido ao aumento de casos de vÃrus do Nilo Ocidental em algumas zonas da Europa.
El Niño deverá tornar-se muito forte
O cenário climático está a ser acompanhado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM). Segundo a organização, o El Niño encontra-se já firmemente estabelecido e deverá continuar a intensificar-se durante os próximos meses. A probabilidade de permanecer ativo até fevereiro de 2027 aproxima-se dos 100%, de acordo com os modelos utilizados pela entidade.
A OMM prevê que o fenómeno alcance uma intensidade muito forte antes de atingir o pico perto do final deste ano. Um El Niño desta dimensão pode alterar significativamente os padrões de temperatura e precipitação em diferentes partes do planeta, favorecendo situações de seca numa região e chuva excessiva ou inundações noutra.
Calor extremo também preocupa autoridades de saúde
Os mosquitos são apenas uma parte do problema. A OMS identifica ainda o calor extremo como um dos riscos relevantes associados às alterações meteorológicas provocadas pelo El Niño.
Temperaturas muito elevadas podem aumentar problemas relacionados com desidratação e stress térmico e agravar determinadas doenças cardiovasculares e respiratórias, sobretudo entre idosos, crianças pequenas e pessoas com problemas de saúde preexistentes. O El Niño surge, além disso, num contexto em que as temperaturas médias globais já permanecem muito elevadas.
Secas e inundações podem criar outros problemas de saúde
A relação entre El Niño e saúde também passa pela água e pelos alimentos. Uma seca prolongada pode reduzir a produção agrÃcola e dificultar o acesso a água potável, aumentando o risco de insegurança alimentar e desnutrição. Por outro lado, chuvas excessivas e inundações podem contaminar fontes de água e favorecer doenças transmitidas através da água.
Fenómenos meteorológicos extremos podem ainda danificar hospitais, estradas e outras infraestruturas, dificultando o acesso aos cuidados de saúde precisamente quando existe maior procura. É por isso que a OMS está a pedir maior preparação aos sistemas de saúde antes que os potenciais impactos se materializem.
E Portugal, deve preocupar-se?
O alerta é global e não significa que Portugal venha necessariamente a sofrer estes efeitos com a mesma intensidade de outras regiões. O impacto de cada episódio de El Niño varia consideravelmente consoante a localização geográfica e a interação com outros padrões atmosféricos e oceânicos. A própria OMM sublinha que o fenómeno altera as probabilidades de determinados tipos de tempo, mas não permite prever isoladamente aquilo que acontecerá em cada paÃs.
No caso dos mosquitos, o risco também depende da presença local das espécies capazes de transmitir determinadas doenças e da existência simultânea do agente infeccioso. Ainda assim, a expansão de mosquitos capazes de transmitir doenças na Europa ajuda a explicar por que razão a OMS inclui a vigilância dos vetores entre as medidas importantes de preparação.
El Niño pode continuar ativo durante vários meses
O fenómeno El Niño resulta do aquecimento anormal das águas superficiais do PacÃfico tropical central e oriental e faz parte de um ciclo natural conhecido como El Niño-Oscilação Sul. Apesar de se desenvolver no PacÃfico, consegue alterar a circulação atmosférica e modificar os padrões de temperatura e chuva em várias partes do mundo.
Neste episódio, a expectativa da OMM é de que o fenómeno continue a ganhar força durante o outono e alcance o pico perto do final de 2026, mantendo influência sobre o clima global já em 2027. Para a OMS, o objetivo do alerta não é antecipar uma epidemia especÃfica, mas permitir que os paÃses se preparem para um conjunto de riscos que podem surgir em simultâneo e, entre eles, as condições favoráveis à proliferação de mosquitos merecem particular atenção.
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