Cães que atualmente vivem num canil vão passar a visitar pessoas idosas com o objetivo de reduzir o isolamento social e, ao mesmo tempo, aumentar as hipóteses de encontrarem uma família. A iniciativa vai arrancar na ilha Terceira, nos Açores, onde os animais serão previamente selecionados e treinados para estarem em contacto com os participantes.
De acordo com a agência de notícias Lusa, o projeto chama-se “4 Patas no Combate à Solidão” e resulta de um protocolo assinado em abril entre o Governo Regional dos Açores e a associação Pata d’Açúcar. A iniciativa, orçada em 21.000 euros, terá inicialmente a duração de um ano e será testada como projeto-piloto em Angra do Heroísmo.
Primeiras visitas deverão começar em janeiro
Numa primeira fase, deverão participar seis idosos e entre 12 e 18 jovens voluntários. Estes últimos terão 25 horas de formação antes de começarem as visitas, para aprenderem a lidar com os cães e conseguirem também transmitir aos beneficiários os cuidados necessários durante os encontros.
Segundo a mesma fonte, os animais serão escolhidos no canil intermunicipal da ilha Terceira por treinadores da associação. Antes de serem integrados no projeto, passarão por testes e por um período de preparação destinado a garantir que têm características adequadas ao contacto com idosos e voluntários.
Cães podem acabar por encontrar uma nova casa
Os jovens terão como tarefa deslocar-se ao canil, recolher os animais selecionados e levá-los até aos idosos. A associação estima que as primeiras visitas possam acontecer em janeiro, mantendo o acompanhamento dos encontros ao longo do projeto.
Contudo, a iniciativa não pretende apenas proporcionar companhia temporária. A vice-presidente da Pata d’Açúcar, Antónia Saraiva, explicou à Lusa que, caso estejam reunidas as condições necessárias, o próprio idoso poderá futuramente adotar o cão que participa nas visitas.
Associação aponta benefícios no combate à solidão
Antónia Saraiva afirmou que os efeitos positivos do contacto entre idosos e animais já são conhecidos noutros projetos semelhantes. “Está provado […] que o facto de um animal ir visitar o idoso faz com que o idoso deixe de estar em solidão e se apegue àquele animal”, afirmou, garantindo também que todo o processo será acompanhado.
A associação já trabalha há cerca de 10 anos na seleção e treino de animais. Conforme refere a agência noticiosa, mantém igualmente na ilha Terceira outro projeto que prepara cães provenientes do canil para detetarem episódios de hipoglicemia em pessoas com diabetes.
Açores têm rácio de abandono acima da média nacional
O projeto surge também num contexto de abandono animal que preocupa as autoridades regionais. Dados da Provedora Regional do Animal citados pela Lusa indicam que, em 2025, os Açores registavam 9,7 animais abandonados por cada mil habitantes, enquanto a média nacional se situava nos quatro por cada mil.
O secretário regional da Agricultura e Alimentação, António Ventura, considerou o valor “incompreensível” e defendeu que o combate ao fenómeno não depende apenas de políticas públicas. O governante destacou igualmente a responsabilidade individual na prevenção do abandono e a necessidade de reforçar a sensibilização da população.
No final do período experimental serão avaliados vários indicadores, entre os quais os níveis de solidão e de bem-estar dos idosos, o número de cães adotados e as competências adquiridas pelos participantes. IPSS e autarquias locais estarão também envolvidas na execução e acompanhamento da iniciativa.
Se os resultados obtidos na ilha Terceira forem considerados positivos, o Governo Regional pretende levar o modelo a outras ilhas do arquipélago. O objetivo passa, assim, por utilizar o mesmo projeto para atuar sobre dois problemas distintos: o isolamento de pessoas idosas e a permanência prolongada de animais abandonados nos canis.
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