Comprar sapatos baratos através da Internet pode esconder riscos que passam despercebidos aos consumidores. Um novo estudo europeu identificou substâncias químicas potencialmente perigosas em calçado adquirido em plataformas como a Shein e a Temu, com alguns produtos a ultrapassarem largamente os limites permitidos pela legislação europeia.
A investigação foi coordenada pela Confederação Europeia do Calçado (CEC) e divulgada a 13 de outubro de 2026. Os resultados mostram que 27 dos 76 pares analisados, correspondentes a 35,5%, apresentavam pelo menos uma irregularidade relacionada com a presença de substâncias químicas.
O estudo contou com a participação de Portugal e envolveu compras realizadas entre fevereiro e maio deste ano em sete países europeus: Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália, Chéquia e Reino Unido.
Quase metade dos sapatos analisados da Shein apresentou irregularidades
Os investigadores adquiriram calçado nas plataformas Shein, Temu e AliExpress, submetendo posteriormente os produtos a análises laboratoriais para verificar o cumprimento das normas europeias.
Os resultados revelaram diferenças entre as plataformas. Na Shein, 13 dos 27 pares analisados apresentaram irregularidades, o equivalente a 48,1%.
Na Temu, foram identificados incumprimentos em 14 dos 46 pares examinados, correspondentes a 30,4%. Já nos três pares adquiridos na AliExpress não foram detetadas irregularidades.
A Confederação Europeia do Calçado sublinha, contudo, que estes resultados dizem respeito apenas aos produtos analisados e não podem ser generalizados a todo o calçado comercializado pelas plataformas.
Substância encontrada num sapato ultrapassou 370 vezes o limite europeu
Um dos resultados mais preocupantes está relacionado com os ftalatos, substâncias utilizadas para conferir flexibilidade a determinados materiais plásticos.
Dos 50 pares analisados especificamente para estas substâncias, 15 ultrapassaram os limites regulamentares estabelecidos pela União Europeia.
Num dos produtos foi identificada uma concentração de ftalatos de 37%, um valor aproximadamente 370 vezes superior ao limite europeu de 0,1%.
A investigação encontrou também incumprimentos relacionados com formaldeído, crómio hexavalente, metais pesados, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e parafinas cloradas de cadeia curta.
Estas substâncias estão sujeitas a restrições devido aos potenciais riscos para a saúde humana. No entanto, a identificação de concentrações superiores aos limites legais não significa, por si só, que os consumidores tenham sofrido danos.
Oito em cada dez modelos de calçado de segurança falharam nos testes
As conclusões foram particularmente preocupantes no segmento do calçado destinado à proteção dos trabalhadores.
Dos dez modelos de calçado de segurança submetidos a ensaios, oito falharam pelo menos um dos requisitos exigidos pela legislação.
Entre os problemas identificados estavam falhas na resistência ao escorregamento, na proteção contra impactos e perfurações e na resistência das biqueiras.
Foram ainda encontrados produtos comercializados como calçado de segurança sem a necessária marcação CE ou sem documentação obrigatória que comprovasse a sua conformidade.
Associação portuguesa exige fiscalização mais apertada
O estudo contou com a colaboração do Centro Tecnológico do Calçado de Portugal (CTCP), que integrou a rede europeia de laboratórios responsáveis pelas análises.
Luís Onofre, presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS), considera que os resultados devem servir de alerta para as autoridades europeias.
O responsável defende que os produtos importados devem cumprir as mesmas exigências de segurança aplicadas aos fabricantes europeus, independentemente do país de origem ou da plataforma utilizada para a venda.
A Confederação Europeia do Calçado pede agora à Comissão Europeia e aos Estados-membros que reforcem a fiscalização dos produtos comercializados através da Internet, bem como a responsabilização das plataformas digitais.
Para os consumidores, o estudo reforça a importância de verificar a identificação dos vendedores, a informação disponibilizada sobre os produtos e, no caso do calçado de proteção profissional, a existência da certificação obrigatória.















