A palavra “utopia” surge no séc. XVI com Thomas More. O escritor combinou as palavras gregas “outopia” que significa “sem lugar” ou “lugar nenhum”, e “eutopia” que significa “um lugar bom”. Na sua obra Utopia, que cunha o nome, More descreve pela boca do navegador português Rafael Hitlodeu, a sua experiência numa ilha fictícia com uma sociedade perfeita, onde não há propriedade privada e tudo é baseado na razão e no bem comum.
Tomemos agora como exemplo quiçá o mais famoso tratado utópico do ocidente, a República de Platão. Possivelmente a execução do seu professor Sócrates, acusado de corromper a juventude ateniense, o tenha levado a escrever esta utopia onde o filósofo é rei e a prática da filosofia totalmente segura. Talvez Platão tenha pretendido que a República fosse lida não apenas como projecto de uma sociedade perfeita, mas também como crítica da sua própria sociedade que condena à morte quem não apenas se atreve a pensar, mas obriga os outros pensar.
Num mundo marcado por guerras, crises ambientais e desafios políticos, a utopia pode constituir-se numa ferramenta crítica e inspiradora de novas possibilidades. Segundo o filósofo alemão Ernst Bloch (1885-1977), a utopia é o princípio da esperança, a força que impulsiona a humanidade para um futuro melhor. Sem esse impulso, a sociedade corre o risco de permanecer estagnada, prisioneira das injustiças e desigualdades do presente. O pensamento utópico desafia o status quo e questiona os limites do possível. A utopia funciona como uma espécie de ideia reguladora em sentido kantiano, fornece-nos um horizonte não apenas como um ideal inalcançável, mas como um guia para a transformação da realidade.

Doutorada em Filosofia Contemporânea, investigadora da Universidade Nova de Lisboa
A IA não é inimiga ou concorrente, mas aliada, ajudando a resolver os maiores desafios do planeta e a criar uma nova era de colaboração e harmonia
Assim sendo, passo a apresentar aqui, numa primeira parte, a listagem de problemas que encontrámos no Café Filosófico passado, que versou sobre a problemática da inteligência artificial (IA), e as tentativas de solução que para elas busquei. Numa segunda parte apresento a minha utopia de um mundo onde se convive de forma harmoniosa com a IA, sem perigosos efeitos secundários.
IA: problemas e perspectivas de solução
1. Disseminação de desinformação
As redes de informação, especialmente nas plataformas digitais, podem ser suscetíveis à propagação de desinformação e ideologias prejudiciais, como por exemplo o nazismo, que historicamente prosperaram através da criação de narrativas falsas. Para colmatar este perigo poderia desenvolver-se um sistema de IA anti-desinformação com as seguintes valências:
a) identificação de padrões de desinformação e redes propensas à violência
b) Introdução de algoritmos de detecção de notícias falsas
c) obrigatoriedade de transparência sobre os algoritmos que impulsionam o conteúdo, garantindo que não priorizam conteúdos tendenciosos ou extremistas, discursos de ódio ou teorias conspiratórias
d) alfabetização mediática: ensinar os usuários a verificar a veracidade das informações e a reconhecer fontes confiáveis
2. Independência dos Seres Humanos
Embora a IA possa funcionar de forma independente, é crucial que haja uma supervisão humana constante, para garantir que as ações tomadas pelas máquinas estão alinhadas com os valores éticos e os direitos humanos. Deveriam ser criados acordos a nível global que definissem regulamentos para o uso seguro da IA e a proteção dos direitos dos indivíduos. Em resumo: Supervisão Humana e Regulação Ética
3. Sobrecarga de Informação e Impactos na Saúde Mental
A era digital criou um mundo em que as redes de informação estão sempre activas, o que leva à sobrecarga de informação que afecta a saúde mental e a coesão social, pois os seres humanos não estão biologicamente preparados nem para lidar com um fluxo constante de dados, nem para não dormir. Algumas soluções que se me ocorrem seriam:
a) filtragem inteligente de conteúdo que ajudasse os indivíduos a focar naquilo que é relevante e positivo para eles, diminuindo a sobrecarga de informações desnecessárias
b) desconexão programada e intervalos digitais: introduzir períodos de descanso longe das redes sociais e dispositivos digitais, a fim de reduzir a pressão constante da conectividade
c) pesquisa e apoio à saúde mental digital: financiar pesquisa científica e recursos de apoio para lidar com os efeitos psicológicos da era digital
4. Falibilidade da IA e tendências de resultados erróneos ou tendenciosos
Os sistemas de IA podem produzir resultados tendenciosos ou erróneos, o que levanta questões sobre a confiança excessiva nas suas capacidades. Sugestões de resolução:
a) auditoria e transparência algorítmica: empresas e organizações deveriam ser obrigadas a auditar regularmente os seus sistemas de IA para garantir o seu funcionamento dentro das barreiras éticas estabelecidas. Conteúdos xenófobos, por exemplo, seriam automaticamente descartados
b) diversificação de dados de treino: para evitar preconceitos, os conjuntos de dados usados para treinar IA devem ser diversificados e representativos de diferentes contextos, culturas e perspectivas
c) IA explicável: Criar modelos de IA que permitam entender e explicar como a decisão foi tomada, promovendo maior responsabilidade e confiança nos sistemas automatizados
d) colaboração Humano-IA: em vez de confiar totalmente na IA, é essencial promover uma colaboração contínua entre humanos e IA para que os resultados sejam revistos e validados por especialistas humanos
5. Participação vs. Exatidão
As redes sociais e algoritmos de recomendação priorizam o envolvimento e a participação, o que favorece a desinformação, em detrimento de conteúdos verídicos. Possíveis soluções:
a) implementação de filtros de qualidade de conteúdo: reformular os algoritmos para promover sistemas de IA que priorizem a qualidade da informação, com base em fontes verificadas, em vez de envolvimento ou emoções
b) selo de qualidade: introduzir selos de verificação e de confiabilidade para artigos e postagens, permitindo aos usuários identificar rapidamente conteúdos de fontes confiáveis
c) campanhas de conscientização e educação: consciencializar os usuários sobre o impacto da desinformação e capacitá-los para identificar fontes fidedignas
6. Potencial da IA para Reforçar Regimes Totalitários
A IA pode ser usada para fornecer novas ferramentas de vigilância e controle em regimes totalitários, comprometendo liberdades individuais. Possíveis soluções:
a) regulamentação internacional da IA: estabelecer restrições legais e internacionais sobre o uso de IA para vigilância e repressão, garantindo que essas tecnologias sejam usadas para o bem-estar e não para a opressão.
b) tecnologias de privacidade e proteção de dados: promover e desenvolver tecnologias de criptografia e anonimato para proteger os cidadãos da vigilância excessiva e garantir que os seus dados pessoais não serão explorados para fins de controle político, ou qualquer outro
c) monitorização dos Direitos Humanos: criar mecanismos de regulação e vigilância do uso da IA por forma a evitar o uso abusivo e irresponsável, garantindo a privacidade e os direitos dos cidadãos.
Utopiando no Reino da IA
Era uma vez um futuro não muito distante, onde a IA não é uma distopia de máquinas a dominar o mundo, mas uma realidade onde as tecnologias criadas pela humanidade são aliadas poderosas para resolver os problemas mais complexos do planeta e garantir o bem-estar de todos os seres vivos – uma verdadeira Utopia!
Neste futuro ecocêntrico os humanos vivem sob a égide da Ética Ambiental respeitando todos os outros seres vivos e a natureza em plano de igualdade. Igualmente, a IA trabalha de forma integrada com o meio ambiente, monitorizado e optimizando os recursos naturais de maneira tão eficiente que os problemas de escassez de água, energia e alimentos se tornam coisa do passado. As cidades são projetadas para serem completamente sustentáveis, com prédios verdes, sistemas de reciclagem automatizados e energia renovável gerida por redes inteligentes que ajustam o consumo em tempo real. A IA também prevê e responde às mudanças climáticas com precisão, criando soluções rápidas e eficazes para mitigar catástrofes naturais, como inundações, secas e incêndios florestais, minimizando os danos e permitindo a recuperação mais rápida dos ecossistemas.
Na educação, os professores humanos e a IA trabalham de forma sinergética dando lugar a um sistema totalmente personalizado de aprendizagem que tem em conta o ritmo, o interesse e o estilo de aprendizagem de cada um. Desta forma, ninguém é deixado para trás; todas as crianças e adultos têm acesso ao melhor conhecimento disponível, em qualquer momento e lugar, sem limitações de recursos ou geografia. Por outro lado, a sede de conhecimento não é freada, pois não é necessário que alunos mais rápidos tenham de esperar pelos mais lentos, o que, no passado, levou muitas vezes ao desinteresse. Os sistemas de IA promovem também a inclusão, ajustando métodos de ensino a pessoas com deficiência, tentando que todas as barreiras para a educação sejam eliminadas. A afinação de conteúdos e avaliação dos mesmos é estabelecida pelos professores humanos que estão disponíveis para inter-actuar de forma personalizada com os seus estudantes. Como resultado, a alfabetização global atingiu níveis nunca antes vistos, e a taxa de desigualdade educacional foi drasticamente reduzida.
No campo da saúde, sistemas de IA monitorizam continuamente a saúde dos indivíduos, fazendo diagnósticos fidedignos muito rapidamente. Tratamentos personalizados são acessíveis a todos, erradicando muitas doenças crónicas e oferecendo uma enorme qualidade de vida e longevidade. As tecnologias de IA também facilitam a descoberta de novos medicamentos e terapias, acelerando o processo de cura de doenças até então incuráveis. Porém, a função da IA na saúde é sobretudo de diagnóstico, sempre supervisionada por médicos humanos a quem cabe a decisão final sobre as terapêuticas a adoptar.
Com respeito aos governos, estes tornaram-se mais justos e transparentes devido aos sistemas inteligentes que analisam grandes volumes de dados para criar políticas públicas mais eficazes, ajudando a resolver problemas sociais como a pobreza, desigualdade de género e discriminação racial. As decisões são tomadas com base em evidências científicas e são constantemente ajustadas para atender às necessidades reais da população.
Em termos sociais e profissionais a IA promove uma conectividade global sem precedentes, onde as fronteiras físicas e culturais se dissipam. As pessoas comunicam e colaboram sem barreiras linguísticas, graças a tradutores automáticos e sistemas de comunicação inteligentes. Projetos colaborativos entre nações e culturas diferentes são comuns, com a IA a facilitar a troca de ideias e a resolução conjunta de problemas globais. Em vez de competir, as sociedades humanas passaram a focar-se em partilhar recursos, conhecimentos e experiências, criando uma rede global de apoio mútuo.
Os seres humanos vivem uma vida de abundância e paz, com imenso tempo livre para se dedicarem às actividades que mais os apaixonam. A IA automatiza tarefas repetitivas e pesadas, permitindo que as pessoas se concentrem em atividades criativas, intelectuais e sociais. O trabalho tornou-se mais flexível e gratificante, com uma ênfase maior em bem-estar e equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Por outro lado, a IA ajuda a descobrir e potencializar os talentos e habilidades de cada indivíduo, criando um mundo onde cada pessoa tem a oportunidade de se desenvolver rumo ao seu máximo potencial.
Nesta utopia a tecnologia serve para libertar a humanidade das suas limitações, criando um mundo mais justo, próspero, saudável e sustentável. Assim sendo, a IA não é inimiga ou concorrente, mas aliada, ajudando a resolver os maiores desafios do planeta e a criar uma nova era de colaboração e harmonia. A humanidade aprendeu a viver em equilíbrio com a tecnologia, utilizando-a apenas para seu benefício e dela prescindindo em todos os outros casos.
Café Filosófico 5 de Abril | Casa Álvaro de Campos Tavira
16.30 Português | 18.30 Inglês | Inscrições [email protected]
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
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