No Mosteiro Cisterciense de Nossa Senhora da Piedade de Tavira, vulgarmente conhecido por Mosteiro das Bernardas, existiu na igreja, junto à grade do coro, uma sepultura com a seguinte inscrição: «Aqui jaz D. Branca Coutinha e D. Maria da Silva, ambas irmãs, primeiras abadessas que foram deste convento. 1574.» Por cima da lápide encontrava-se o respetivo escudo de armas, esculpido em meio-relevo. D. Branca Coutinho da Silva foi a primeira abadessa do mosteiro, governando a comunidade entre 1527 e 1553. Sucedeu-lhe a sua irmã, D. Maria da Silva, que exerceu o cargo até 1574.
Pelo título deste artigo, o leitor já terá deduzido que estas religiosas, que tiveram o privilégio de integrar a primeira comunidade do convento, eram filhas de um bispo. Num manuscrito genealógico conservado na secção de Reservados da Biblioteca Nacional encontra-se a seguinte referência: «Dom Fernando Coutinho, filho de João da Silva o Velho e irmão do Regedor Aires da Silva, foi Bispo de Lamego e do Algarve (…) e tem filhas bastardas, dona Isabel, mulher de Rui Pereira (…), e outras que são freiras no mosteiro da Ordem de São Bernardo da cidade de Tavira (…) que ele fez.»

D. Fernão Coutinho nasceu provavelmente em Montemor-o-Velho, onde o seu pai, João da Silva, senhor de Vagos, exercia o cargo de alcaide do castelo. Era descendente de importantes linhagens históricas, sendo filho de João da Silva e de D. Branca Coutinho.
Estudou em Coimbra e em Itália, onde se formou em Direito Canónico. Regressado a Portugal foi nomeado, em 1488, prior da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães. Ascendeu a Bispo de Lamego e integrou a embaixada portuguesa que negociou junto do Papa Alexandre VI os termos do Tratado de Tordesilhas. Cerca de 1501 trocou a Sé de Lamego pela de Silves, passando a residir no Algarve. Homem extremamente poderoso, acumulava a dignidade episcopal com o cargo de Regedor das Justiças da Casa da Suplicação nos reinados de D. João II e D. Manuel I. Contudo, a sua carreira sofreu um sério abalo em 1504, quando D. Manuel o obrigou a renunciar ao cargo, após um escândalo denunciado por Duarte de Morais, natural de Silves. Segundo o seu depoimento, o bispo teria ordenado aos seus escudeiros o rapto de uma jovem de Lagoa, prometida em casamento. À medida que as denúncias se multiplicaram, em 1524 foi apresentada ao rei D. João III uma extensa participação contendo quarenta e duas acusações contra este prelado. O documento traça um retrato devastador da sua atuação, entre outras coisas, consta que não respeitava as festas principais do ano, nem domingos e dias santos, não ouvia missa e, quando rezava, rezava mal. Usava as toalhas dos altares da Sé como toalhas de refeição dos seus criados e os bancos do templo eram utilizados para neles se cortar a carne. Havia dez anos que tinha levado da Sé os castiçais de prata que lá tinham sido deixados pelo falecido rei, assim como uma vestimenta e um cálice, pelo que a Sé deixou de os ter para dizer a missa. Nas endoenças organizava caçadas e nas festas principais mandava trabalhar os seus escravos e criados.

O documento refere que era mais mercador e negociante do que prelado, pois comprava cereais para dar a troco de fazendas e pelo mais alto preço, impedindo a entrada de navios carregados de víveres com um preço mais baixo, que eram deitados fora para não os dar de comer. Comprara muitas terras e fazendas por um preço mais baixo, por saber que os donos estavam com necessidades económicas, e depois não as pagava. Deu benefícios a troco de herdades, tornou-se proprietário de terras que pertenciam à Sé e recusava-se a pagar os dízimos das duas propriedades. Espancava os clérigos e tratava-os como se fossem seus escravos. Tinha em sua casa um homem casado com duas mulheres, ambas recebidas por palavras de presente e mandara matar e dar cutiladas no rosto a muitas pessoas. Deu abrigo a um mouro que recebeu na tomada de Azamor, o qual matou o sobrinho de um cónego. Relacionou-se com uma moça de Monchique e depois casou-a com um seu criado, que nomeou meirinho do bispado. Relacionou-se com quatro filhas de um João Vaz, de Aljezur, e teve um relacionamento com uma Inês Vaz, moradora no sítio dos Casais, em Monchique, com quem terá tido uma filha, e depois relacionou-se com a filha, sobrinhas e primas dessa mesma Inês Vaz. Contratou com Estêvão Correia a compra de uma grande quantidade de pedras de ara para as igrejas, tendo recebido em troca a filha do canteiro. Mandou um Bartolomeu Cortes difamar a filha de Heitor Soares, de Silves, tendo posteriormente dormido com a irmã do dito Bartolomeu, que tinha ficado órfã, desamparada e pobre. Mandou prender na cadeia de Lagos um chantre da Sé de Silves, por este ter dito que o Bispo dormia com uma escrava sua, obrigando-o a pagar duzentos cruzados de indemnização. Teve por manceba uma escrava moura, de quem teve quatro filhos, tendo alguns morrido sem batismo e mandou quatro ou cinco beneficiados da Sé irem armados à cadeia de Portimão libertar um preso que era seu servidor, depois de ferirem a mulher do carcereiro. Mandou demolir a casa de Simão Correia, pela inimizade que tinha com ele. Outra acusação grave é que era Bispo de Silves havia 22 ou 23 anos e apenas tinha celebrado uma missa no Algarve. D. Fernão Coutinho faleceu em Ferragudo a 16 de maio de 1538, sendo sepultado na capela-mor da Sé de Silves, junto do túmulo de D. João II.
A vida amorosa deste bispo daria facilmente matéria para um romance, uma série televisiva ou mesmo um filme. Figura simultaneamente poderosa e escandalosa, deixou uma marca profunda no Algarve quinhentista. Apesar da longa lista de acusações que o acompanharam em vida, foi também um importante patrocinador de instituições religiosas, entre as quais o Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade de Tavira, entregue às monjas cistercienses. Foi nesse mosteiro que duas das suas filhas, D. Branca Coutinho da Silva e D. Maria da Silva, encontraram lugar de destaque na história, tornando-se as primeiras abadessas da comunidade fundada sob a proteção do seu controverso pai.
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