Graças a um processo do Tribunal do Santo Ofício, é possível conhecer as múltiplas vidas de um algarvio multifacetado chamado Vicente Pereira Sarmento. Vejamos as suas origens familiares: Nascido em Lagos por volta de 1527, mencionado como homem «nobre e de boa geração», filho de Gomes Pereira, fidalgo da Casa Real e capitão-mor da costa do Algarve, e de Teresa Gonçalves, ambos moradores em Lagos. Era neto paterno de João Pereira e, pelo lado materno, neto de Vicente Esteves. Suspeita-se que o seu avô paterno possa ser o mesmo que surge referido nas genealogias insulares como irmão de Sebastião Pereira Sarmento e de Gaspar Garcia Pereira Sarmento, naturais da ilha do Faial.
A sua vida foi tudo menos tranquila. Em 1542, com cerca de quinze anos, embarcou para a Índia. Viveu na costa do Malabar e casou com D. Leonor de Lemos, irmã do camareiro do duque de Bragança. Mais tarde, já residente em Malaca, matou um fidalgo chamado D. António. Procurando redenção e também escapar das consequências desse homicídio, ingressou como frade na Ordem de São Francisco. Em 1552, teve o privilégio de estar presente no momento da morte de São Francisco Xavier, na ilha de Sanchoão, acompanhando posteriormente o traslado do corpo do santo até Goa. Durante os cerca de 28 anos que permaneceu na Índia, adquiriu vastos conhecimentos de medicina oriental, conquistando reputação como hábil curandeiro.

Em 1570, foi preso e acusado de vários escândalos sexuais. Como consequência, foi proibido de usar o hábito franciscano e condenado a dez anos de galés. Contudo, a pena acabou por ser comutada por ordem de D. Sebastião, que o mandou chamar para socorrer o fidalgo Rui Barreto.
De regresso a Portugal, encontrava-se em Lisboa, em 1580, a exercer medicina e com intenção de seguir para Sevilha, quando uma violenta epidemia de peste assolou Tavira. Nomeado mestre da saúde da cidade, dedicou-se durante sete meses ao combate à doença, enfrentando enorme risco pessoal. Segundo o relato do seu processo inquisitorial, tratou mais de 1.020 doentes e conseguiu salvar cerca de 700 vidas. Além dos cuidados médicos, sustentou com os seus próprios recursos muitos pobres e crianças da cidade. Contou também com a ajuda de Maria Rolão, com quem vivia amancebado. Quando esta se encontrava às portas da morte, vítima da peste, Vicente decidiu casar-se com ela.

A 9 de abril de 1583, residindo em Tavira, foi preso pela Inquisição e conduzido para os cárceres de Évora. Era acusado de ter contraído matrimónio enquanto continuava vinculado à Ordem de São Francisco e de exercer práticas médicas e cirúrgicas sem habilitação oficial. Condenado ao degredo no Brasil, acabaria, contudo, por regressar a Portugal. Os últimos anos da sua vida foram marcados pela pobreza. Morreu em Évora, em 1590. Segundo a tradição, existirá na Santa Casa da Misericórdia de Aljezur um crucifixo que lhe pertenceu e teria sido uma oferta do próprio São Francisco Xavier.
A trajetória de Vicente Pereira Sarmento é verdadeiramente invulgar. Algarvio aventureiro, viveu na Índia, privou com um Santo da Igreja, esteve preso na China, foi degredado para o Brasil, casou duas vezes, foi frade franciscano, cirurgião e médico autodidata. Salvou centenas de vidas durante a epidemia de peste em Tavira e distinguiu-se pelo auxílio prestado aos mais necessitados. Apesar de uma existência atribulada, encontrou ainda tempo para escrever duas obras: Tractado das Cousas da China e Livro de Várias Medicinas e Modos de Curar com Ervas. A sua vida permanece como um exemplo extraordinário de aventura, conhecimento e ousadia no Portugal do século XVI.
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