Durante pouco mais de três décadas o território de Marrocos esteve dividido em vários sectores apropriadamente designados de protectorados: havia o espanhol e também o francês. Coexistiam com uma outra excentricidade, que é o que nos interessa para o artigo de hoje: a cidade internacional de Tânger. Vibrante, livre (mais ou menos) frenética, era regida por um conselho que envolvia os cônsules de diferentes países mais alguns notáveis locais.
Descobri até, não sem surpresa, durante a investigação para o meu segundo romance, que pouco depois do final da guerra, a governação da cidade internacional coube ao representante de Portugal, um ex-ministro português. Hoje, cruzando a porta na muralha que abre a sul, para o cemitério judaico, que acarinha o horizonte abaixo da fita azul cerúleo da baía, encontramos escondida nas ruelas da medina, impressionante e imponente, a Legação Americana. A sua vista ajudará a compreender muito desta estória. Atrás dela (mas a referência é irrelevante porque só os locais conservam aqui um módico de capacidade orientativa), na direcção da Grande Mesquita, ficava a Legação de Portugal.
A Cidade Internacional, foi instituída logo no início da década de 20 e duraria, de facto, até 60. Após a guerra, curiosamente durante o mandato do administrador português, Paul Bowles desembarca em Tânger onde se prepara para viver, os restantes cinquenta anos da sua vida.

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Os intelectuais ocidentais, principalmente americanos, saturados por algum déjà-vu de Paris são atraídos para Tânger como borboletas para a luz
Bowles é um jovem americano de classe-média, com uma educação esmerada, que faz estudos universitários na Virginia e estuda música com Aaron Copland. Mas é um quadro médio de um banco nova-iorquino e aborrece-se brutalmente com a sua vidinha confortável e banal.

Tânger, à saída da segunda guerra mundial, é uma placa giratória vibrante para contactos públicos e principalmente privados, muitos indizíveis, entre variadíssimos players mundiais de primeira linha. E como é natural atrai também uma comunidade artística e intelectual dinâmica e pujante que se instala na cidade fruindo o clima ameno, a beleza indiscutível da localização e o perfume inebriante do exotismo. Os intelectuais ocidentais, principalmente americanos, saturados por algum déjà-vu de Paris são atraídos para Tânger como borboletas para a luz.
Nenhum foi tão notório quanto Paul Bowles, que dá largas à sua criatividade, imensa, escrevendo, viajando, fazendo recolhas das tradições orais e musicais da região e atraindo outros nomes que com o decorrer dos anos se iam também tornando mais e mais notáveis.
É na cidade que publica o seu primeiro romance The Sheltering Sky, estória que antecipa um conjunto de temas recorrentes na sua obra. Um casal americano no meio de uma relação em crise, parte para o norte-de-áfrica, à procura de qualquer coisa – nunca, Je ne sais quo, pareceu uma expressão tão apropriada – mas levam consigo um amigo que, evidentemente, não vai ajudar à reconstrução da relação nem muito menos à superação da crise existencial.

Pouco depois volta a publicar. Desta vez Let It Come Down, título emprestado de uma cena de Macbeth, quando um dos assassinos está a ponto de matar Banquo.
Aqui, et pour cause, Bowles conta-nos a estória de um jovem nova-iorquino de classe média, que trabalha num banco e decide partir precisamente para Tânger, onde explora para além do seu enfado com a vida, os ambientes ameaçadores da cidade, os bordéis, as drogas e os inúmeros personagens sinistros que são tanto filhos da cidade quanto da náusea existencial em que deixou que a sua vida se tornasse.
Em Tânger, os círculos em que Bowles se move são um corrupio de nomes incontornáveis das letras do século XX. Tenessee Williams, Patricia Highsmith, Jack Kerouac, Truman Capote, Gore Vidal e William Burroughs. São cinquenta anos durante os quais a cidade se transforma sob os seus olhos a compor e a escrever linhas vívidas, fascinantes, com uma prolificidade notável, definindo uma ligação única entre o artista e a (sua) cidade.

Quando conheci Tânger pela primeira vez seria mais novo que Bowles ou o seu personagem Dyar e encontrei Tânger como ela ficou depois da independência de Marrocos, remetida ao papel melancólico de uma cidade de província, pese embora à beira-mar, o que ajuda sempre, olhando mais com uma expressão triste de inveja que propriamente nostalgia, os portos vizinhos de Ceuta e de Gibraltar.
O mundo não parou de mudar. A cidade, entretanto, refundiu-se, refez-se, várias vezes, e está aqui/ali tão acessível.
Deixo-vos numa tradução (muito) livre um parágrafo de The Sheltering Sky – quinta-essência da cidade de Bowles:
A morte está sempre a aproximar-se. Não sabermos quando ela chegará parece aligeirar a finitude da vida. É essa terrível certeza que tanto odiamos. Na ignorância, chegamos a pensar na vida como um poço inesgotável.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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