O século XIX é rico para a História Cultural em Portugal, atribulado com três invasões francesas entre 1807 e 1811, fuga do rei e da corte para o Brasil, revolução liberal em 1820, guerra civil entre liberais e absolutistas entre 1832 e 1834, ultimato inglês…
Do ponto de vista cultural e científico, a Europa sentiu os efeitos da revolução industrial e do ideário das Luzes, surgiram a máquina a vapor, electricidade, telefone, redes ferroviárias, avanços na medicina e microbiologia, descoberta da penicilina e do raio X, movimentos filosóficos e artísticos como o impressionismo,…
Transformações políticas e sociais sucederam-se, instituídas monarquias parlamentares, unificação da Alemanha e da Itália, descolonizações e independências na América espanhola e do Brasil, o evolucionismo e o materialismo histórico e científico, movimentações reivindicativas do proletariado industrial e rural, guerra civil americana 1861-1865, abolição da escravatura, Comuna de Paris em 1871, a Conferência de Berlim de 1885 que dividiu a África entre as potências coloniais,…

Sociólogo
Mouzinho da Silveira legislou em 1832 sobre a abolição dos direitos senhoriais, foram confiscados bens da Igreja, extintas ordens religiosas, proprietários rurais beneficiaram de terras, a população camponesa ficou à margem dos benefícios da revolução liberal que no essencial serviu a burguesia ascendente.
O romantismo político-filosófico e estético, inspirava-se no imaginário histórico medieval e no mundo rural, este era a prova da identidade pátria e da alma do povo.
Diversas ciências sociais surgiram no século XIX, com relevo para a etnografia e arqueologia, resultantes das preocupações com o estudo e preservação de vestígios materiais de outras épocas.
O liberalismo era anti-feudal, não desejava a revolução proletária, opôs-se ao sufrágio universal, defendeu o sistema censitário. O voto era reservado a pessoas de condição económica mais elevada, as mulheres não votavam.
Segundo especialistas o romantismo literário em Portugal iniciou-se com o poema “Camões” (1825) de Almeida Garrett, comemorativo do nascimento do poeta. Teófilo Braga tentou uma teorização histórica, definindo três correntes, romantismo religioso ou emanuélico, liberal e ultraliberal ou satânico.
Camões é o herói romântico celebrado, talentoso e incompreendido pela Pátria, idealista e anticonvencional, dado a amores arrebatados como era guião dos românticos.
É o século da emergência do amor romântico, sofrimentos amorosos faziam prova de sentimentos verdadeiros, conhecidas são as dramáticas relações de Garrett com o feminino, casou com uma menor, teve uma filha de uma francesa, um amor interdito com uma viscondessa casada e terá originado a coletânea “Folhas Caídas” (1853).
Vida amorosa e literatura caminhavam a par, romantismo vivencial e ficcional.
Garrett ligado ao teatro e às novelas obteve sucesso com “As viagens na minha terra” e “Frei Luís de Sousa”. Herculano dedicou-se à história e ao património, ambos integraram a primeira geração de escritores românticos. Na segunda metade ficaram para a história da literatura, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Antero de Quental, mentor da geração de 70…
O intelectual político destacado foi Alexandre Herculano (1810-1877), austero, solitário, polemista, viveu com simplicidade, casou tardiamente com a namorada da juventude.
Herculano teorizou o romantismo, dirigiu a revista “Panorama”, que em 1837 vendia 5 mil exemplares por número, tiragem extraordinária num País analfabeto, na primeira metade do século XIX cerca de 88% da população não sabia ler ou escrever.
Considerado introdutor da História moderna, cientificamente fundamentada, Herculano realizou pesquisas de documentação na Torre do Tombo, tinha particular fascínio pela história medieval portuguesa que o levou aos romances históricos “Eurico, o Presbítero”, “O Bobo”, “O Bispo Negro” e outros, o modelo era uma mescla de personagens angélicas e demoníacas.
Herculano era liberal, defensor do parlamentarismo e da Carta Constitucional, foi deputado “cartista”, bibliotecário no Porto e na Real Academia da Ajuda,
Entre 1846 e 1853 publicou a “História de Portugal” em quatro volumes, essencialmente história das Instituições, não biográfica, granjeou-lhe prestígio nacional, enriqueceu com a venda das obras.
Na história de Herculano estão ausentes a economia, as lutas sociais, datou a origem do reino no Condado Portucalense, omitiu períodos pré-romano, romano e muçulmano. Para Herculano o município era a estrutura embrionária da nação, combateu a centralização do poder, defendeu a autonomia dos municípios.
Causou polémica com o clero e os tradicionalistas a omissão na História de Portugal, da lenda do aparecimento de Cristo a Afonso Henriques na batalha de Ourique, até então fundamento sobrenatural da legitimidade da monarquia portuguesa. Atacado nas missas, Herculano escreveu a “História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854), opôs-se à Concordata com a Santa Sé, colaborou no primeiro Código Civil pugnando pelo casamento civil a par do religioso.
O património era um dos focos da intervenção política de Herculano, o nacionalismo romântico procurava intensamente vestígios das origens da nacionalidade, arqueologia, na missão etnografia e literatura oral desempenharam papel primordial.
Em meados do século XIX a defesa do património histórico ganhou importância no debate político, encontravam-se em ruínas monumentos importantes para a memória nacional, as muralhas urbanas medievais, Alcobaça, a Batalha, etc..
O património era vandalizado por “hordas de bárbaros”, ignorantes que os derrubavam, sobre eles construíam.
Herculano escreveu “Monumentos Pátrios”, longo artigo publicado em 1838 na revista “Panorama”, manifesto em defesa do riquíssimo património português.
Retirou-se em 1867 para a quinta que comprara no Ribatejo, instalou um lagar, foi pioneiro do azeite engarrafado, o “Vale de Lobos” premiado nas exposições universais de Paris (1889) e Antuérpia (1894), que hoje ainda se mantém no mercado.
Defensor do património cultural, Herculano é patrono escolhido do Dia Nacional dos Centros Históricos, 28 de Março instituído em 1993.
Está sepultado na sala do Capítulo do Mosteiro dos Jerónimos para onde foi trasladado em 1888. Durante as comemorações dos Centenários em 1940, o belo baldaquino neomanuelino que envolvia o túmulo foi destruído, diz-se que para evitar no centro da sala o destaque ao escritor anticlerical, após a morte Herculano continua polémico e interventivo.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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