Com a devida vénia e permissão do director, permito-me citar uma parte do texto de um artigo que publiquei no jornal Barlavento, no dia 2 de Junho de 2022. Dizia então: “(…) E no Algarve, apesar de todos os instrumentos de planeamento em vigor, a betonização da frente de mar não tem parado. Um imenso paredão de edifícios tem-se tornado a nova realidade paisagística da Região, cujas belezas e património naturais vão sendo destruídas sem dó nem piedade com a cumplicidade de responsáveis técnicos e políticos no activo. Money, Money, Money. Uma fuga para a frente, uma febre especulativa que não recua perante nada, ocupando até à exaustão espaços de biodiversidade, zonas de cheia, destruindo paisagens. Esse tem sido, infelizmente, o caso da zona costeira do Algarve, onde uma frente cerrada de betão tem ocupado impiedosamente sem intervalo o que restava do coberto vegetal. Densidades habitacionais de loucura, cargas humanas insuportáveis. É por isso de assinalar a iniciativa da Câmara Municipal de Loulé ao propor-se criar a Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal, no limite nascente da cidade de Quarteira. Uma autêntica brecha no paredão que importa preservar, e que torna evidente a riqueza ambiental que ali temos e que, se calhar, quase todos desconhecíamos na sua real dimensão.”
Depois de ler o texto de uma petição que circula por aí, https://peticaopublica.com/mobile/pview.aspx?pi=PT124724 a pedir a suspensão imediata de obras que ali decorrem, é com um misto de decepção e revolta que vejo colocado em causa o merecimento do elogio que então fiz à Câmara Municipal de Loulé. A dita reserva foi de facto classificada como área protegida em 14 de Agosto de 2024 (Aviso nº 17412/2024/2), num reconhecimento dos elevados atributos ecológicos e paisagísticos da área envolvida. Mas será verdade que a autarquia aprovou dois projectos de construção ANTES dessa classificação, e teve a insensatez de os licenciar DEPOIS da Reserva Natural estar constituída e oficializada? Tudo em nome de sacrossantos “direitos adquiridos”, que são uma afronta a qualquer esforço sério de preservar o que resta da frente litoral? Como designar isto? Hipocrisia? Falta de vergonha? Incompetência? Falta de vontade política para ser coerente com as próprias políticas apregoadas? Estamos a falar da zona a nascente da conhecida Praia do Forte Novo, coitado do forte já engolido há muitos anos pelos avanços do mar, que recentemente levou-lhe a areia, continua a escavar a passo acelerado o que resta da falésia, entrou terra adentro e, pelo caminho, espatifou o passadiço de madeira que ali foi levantado não há muito.
A receita é sempre a mesma. Uns poucos fazem fortuna com os valores naturais, ambientais e paisagísticos do Algarve, que depois cá estarão os orçamentos do Estado e da Autarquia para reparar os danos. Ao arrepio do Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC Vilamoura-Vila Real de Santo António), que previa um simples apoio de praia, com um estacionamento em espaços aplanados de clareira, afinal serão dois, prevendo-se um parque para 300 viaturas, com uma terraplanagem que já abateu inúmeras árvores até para lá da área prevista no projecto. E consta que se acrescentarão mais dois loteamentos ditos ecológicos, seja lá o que isso for. E, cereja no topo do bolo, anuncia-se a construção de um novo hotel num lote de um antiquíssimo alvará de loteamento com mais de 54 anos de idade (nº 5/1971), ressuscitado por obra e graça de juristas habilidosos, especialistas em arqueologia urbanística, uma antiguidade tão grande que não foi objecto de qualquer reavaliação de conformidade desde então, pese embora todo o arquétipo legal e regulamentar ter mudado nas últimas décadas.
Tudo isto passa à margem de avaliações de impacto ambiental. Já nada nos espanta. O “isto” está entregue aos bichos, aos fundos imobiliários sem rosto, muitos deles com capitais de origem desconhecida para não dizer outra coisa. Antigamente, os empresários tinham nome, hoje nem isso, há representantes não se sabe bem de quem, a Região está a caminho de ser absorvida pelo império “off-shore”.
Não se aprende com os erros do passado, enquanto houver um metro quadrado de terra disponível próximo do mar “la lotta continua”. Dizem que tubarões, crocodilos, hienas e abutres são predadores? Errado! Não passam de amadores ao pé dos devoradores de paisagens.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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