Cláudio Pereira, conhecido artisticamente como Kelad, encontrou em Tavira a inspiração para uma canção de amor e gratidão. “Menina de Tavira”, com lançamento para esta sexta-feira, dia 16 de outubro, e acompanhada de um videoclipe, nasceu de uma paixão vivida durante os quase seis meses em que trabalhou e residiu na cidade. Aos 26 anos, o músico natural de Castro Daire cruza bossa nova, fado, pop e R&B e conta ao POSTAL o caminho das gravações caseiras ao estúdio, entre a vontade de criar uma identidade própria e os custos de fazer música.
A confiança recuperada nos palcos
Cresceu numa família ligada à música, mas a mudança de voz afastou-o do canto. O que o ajudou a recuperar a confiança para voltar a cantar?
Foram sobretudo os meus amigos e conhecidos que me incentivaram a voltar a cantar, a fazer covers e a participar em pequenos eventos da minha vila, como o festival da canção, as galas de Natal e as festas locais. Voltar a pisar palcos ajudou-me a recuperar a confiança. Ver os meus irmãos a fazer música também me deu vontade de me lançar aos leões. Não encaro isto como uma competição, gostava de alcançar o patamar da minha irmã, que já teve algumas músicas com bastante sucesso. Quem sabe, um dia, não façamos os três uma colaboração musical?
Gravou a voz do primeiro original dentro de um armário. Qual foi o maior desafio para passar dessas gravações caseiras a um trabalho em estúdio com vários músicos?
Penso que o maior desafio foi a nível monetário. Gravar em estúdio é caro porque é preciso pagar a captação, a mistura e a masterização. Quando envolve vários músicos e uma música ainda pouco trabalhada, as sessões podem demorar mais e os custos aumentam. Também senti alguma dificuldade em trabalhar com outros músicos por ter ideias muito fixas. Nem sempre estávamos em sintonia, o que tornou o processo de construção musical mais desafiante. Ainda assim, foi uma experiência importante para aprender a trabalhar em conjunto.

“Voltar a pisar palcos ajudou-me a recuperar a confiança”
Uma paixão que mudou o olhar sobre Tavira
Viveu e trabalhou quase seis meses em Tavira. Que momento desse período melhor explica a ligação que criou com a cidade?
Diria que foi quando comecei a desenvolver sentimentos pela Menina de Tavira e vivemos um romance que parecia saído de um conto de fadas. Estávamos felizes e tudo parecia perfeito. Quando ela regressou à sua cidade natal, comecei a sentir saudades, mas de uma forma boa, porque ficava feliz por ter vivido aqueles momentos. Ao mesmo tempo, muitos lugares de Tavira passaram a ter um significado especial para mim: as ruas por onde passeávamos, a ponte romana e até os pequenos pormenores da cidade ficaram associados a essas memórias. Foi assim que Tavira se tornou muito mais do que uma cidade bonita.
“A saudade existia, mas vinha acompanhada de gratidão”
“Menina de Tavira” nasceu de uma paixão real. Como transformou a saudade dessa pessoa na primeira canção assumidamente feliz do seu repertório?
Acho que surgiu de forma bastante natural. Há uma frase de que gosto muito e que resume bem o sentimento da música: “Como sou sortudo por ter algo que torna tão difícil dizer adeus.”
Antes de ir para Tavira, já tinha um rascunho, mas estava pouco desenvolvido e ainda não tinha nome. Quando cheguei à cidade e comecei a passear pelas ruas, ganhei inspiração e pensei: “Vou escrever uma música chamada ‘Menina de Tavira’.” Depois, acabei por conhecer a Menina de Tavira e o resto foi história.
Lembro-me de passar por um cartaz com o nome verdadeiro dela e pensar logo: “Fogo, ela está mesmo em todo o lado!” Quando cheguei a casa, peguei na guitarra e comecei a compor o resto da canção. Ao contrário das músicas anteriores, mais ligadas à dor e à confusão de relações que terminaram, esta nasceu da felicidade de ter vivido algo especial. A saudade existia, mas vinha acompanhada de gratidão.
Da bossa nova às imagens de uma cidade
Neste single, cruza bossa nova, fado, pop e R&B. Como encontrou, entre estas influências, o som que melhor conta esta história?
“Menina de Tavira” é inspirada em “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, mas quis dar-lhe uma identidade portuguesa. Inspirei-me também em artistas como António Zambujo, Miguel Araújo e Slow J, que mistura a guitarra portuguesa com sonoridades de hip-hop e R&B.
Queria criar algo romântico e melódico, com a bossa nova como ponto de partida, mas que soasse genuinamente português. A guitarra portuguesa ajudou a dar-lhe essa identidade e permitiu criar uma parte que se aproxima bastante do fado. O objetivo era juntar influências diferentes sem perder a essência da história que queria contar.
“O maior obstáculo será o dinheiro, porque produzir músicas e videoclipes de qualidade implica investir em estúdios e profissionais”
Imaginou o videoclipe como uma curta-metragem romântica. Que lugares de Tavira eram indispensáveis para contar essa história e porquê?
A ideia original era fazer uma curta-metragem. Gosto muito de cinema e sempre quis escrever e realizar o meu próprio filme. Escolhi os locais a dedo e pesquisei no terreno para filmar nos sítios mais bonitos de Tavira e, sempre que possível, em lugares por onde eu e a Menina de Tavira passámos.
Dois locais que queria usar não estavam disponíveis, mas encontrámos alternativas igualmente bonitas. Para mim, o mais importante era que os lugares tivessem significado: as ruas floridas lembravam-me os vestidos que ela usava; as casas piscatórias e os azulejos eram coisas de que ela gostava; e a ponte romana era onde passeávamos à noite. Quis ainda filmar num restaurante onde jantámos, porque aquele onde tivemos o primeiro encontro estava fechado. O videoclipe é também uma homenagem à cidade que marcou esta fase da minha vida.
Um álbum entre a ambição e os custos
Está a preparar um álbum. Que futuro deseja para Kelad e qual é hoje o maior obstáculo para o alcançar?
Estou a preparar um álbum que deverá chamar-se Unidos pelo Trauma, Separados pelo Amor, inspirado nas minhas experiências de vida e numa relação que vivi intensamente com alguém que partilhava vivências semelhantes às minhas. Apesar da ligação que criámos, a relação acabou por terminar porque percebemos que era o melhor para ambos.
Gostava de chegar a mais pessoas, criar uma identidade própria e construir um público que se identifique com as minhas músicas. Ao Kelad do futuro, desejo boa sorte, disciplina e motivação. Quero não ir abaixo se as músicas não tiverem o alcance esperado e investir mais no marketing, correndo atrás dos meus sonhos mesmo que tenha de sair da minha zona de conforto.
O maior obstáculo será o dinheiro, porque produzir músicas e videoclipes de qualidade implica investir em estúdios e profissionais. A falta de motivação e disciplina também são desafios que procuro trabalhar diariamente.

Do armário de casa às ruas de Tavira: a viagem musical de Kelad
Um armário de casa foi a solução que Cláudio Pereira encontrou para gravar a voz do seu primeiro original e reduzir o eco. Sem grandes meios, contou com o amigo Daniel Tejo para a mistura e a masterização. “Quero Voltar”, lançado em 2021, marcou o início de um percurso que chega agora a “Menina de Tavira”, uma canção construída de raiz e gravada com vários músicos.
Natural de Castro Daire, Kelad tem 26 anos e cresceu numa família ligada à música: o pai foi DJ e os dois irmãos também cantam.
Na primeira comunhão, ouviu elogios à sua “voz de anjo”. Hoje, revê esse registo com humor e alguma distância em relação ao entusiasmo de quem o escutou. A mudança de voz afastou-o temporariamente do canto, mas não da música. Chegou a sonhar em ser DJ e tentou aprender piano, oferecido pelas tias, sem conseguir manter a disciplina.
O incentivo do melhor amigo, Bernardo Vicente, ajudou-o a regressar. Festivais escolares, festas de aldeia, galas de Natal e iniciativas solidárias deram-lhe oportunidades para voltar a cantar diante de um público.
Aprender entre canções e pausas
A vontade de escrever originais ganhou força durante a pandemia. Depois de “Quero Voltar”, entre o R&B e a pop, lançou “Quem Diria”, em 2022, cruzando hip-hop e pop numa história de amor não correspondido. No ano seguinte, “Saudade Interlúdio” levou-o pela primeira vez a um estúdio: gravou na Produsom, em Viseu, com a participação do saxofonista Sr. José.
Entretanto, concluiu a licenciatura em Turismo e Lazer e começou a trabalhar nessa área. A música perdeu algum espaço no quotidiano. Continuava a escrever, mas algumas ideias ficavam por terminar. “Preciso de sentir que tenho alguma coisa para dizer”, explica na nota biográfica enviada ao POSTAL.
Em 2024, comprou uma guitarra e começou a aprender sozinho. Surgiu então o primeiro esboço de “Menina de Tavira”, que ganhou forma durante a temporada em que trabalhou e viveu na cidade algarvia. Uma paixão ajudou a desbloquear a escrita: o tema desenvolveu-se em cerca de mês e meio.
Ao contrário das canções anteriores, marcadas por relações terminadas e sentimentos difíceis de compreender, esta guarda a felicidade de uma experiência vivida. Kelad descreve-a como a primeira canção assumidamente feliz do seu repertório.
Uma cidade transformada em música e imagens
“Menina de Tavira” foi gravada nos Satori Studios, em Viseu. O músico escreveu a letra, interpretou o tema e participou no arranjo musical. Aos instrumentais encontrados na Internet, que serviram de base aos três singles anteriores, sucedeu agora um arranjo instrumental original.
Bernardo Vicente colaborou na guitarra clássica; Pedro Bento, no baixo e nas guitarras clássica e elétrica; Francisco Henriques, na guitarra portuguesa; e Daniel Tejo e Pedro Bento, na bateria. Pedro Bento assegurou também a mistura e a masterização.
A realização do videoclipe ficou a cargo de Kelad, com Bernardo Vicente como correalizador e a colaboração do videógrafo Kurt. O músico imaginou um rapaz pobre e uma rapariga rica que percorrem Tavira, quase se encontram e acabam por se conhecer. Entre as referências cinematográficas que identifica estão “La La Land” e “Before Sunrise”.
As ruas floridas, as casas piscatórias e os azulejos tornaram-se parte dessa narrativa. Mostrar Tavira foi também uma forma de agradecer à cidade que o recebeu durante quase seis meses. Enquanto prepara um álbum, Kelad procura continuar a transformar experiências reais em canções: guardar o que viveu e encontrar quem se reconheça nessas histórias
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