Muito antes de existir o Algarve tal como hoje o conhecemos, uma parte do território encontrava-se no fundo de um oceano. Em Vale Fuzeiros, na serra Algarvia, ainda é possível encontrar vestígios desse passado remoto em rochas formadas há mais de 300 milhões de anos.
As rochas mais antigas do Algarve podem atingir cerca de 345 milhões de anos e remontam ao período Carbónico. Segundo o portal Algarvensis Geoparque, as camadas de pelitos laminados e grauvaques que caracterizam a serra começaram por ser sedimentos acumulados no fundo do antigo Oceano Rheic.
Areia e lama acumulavam-se no fundo do oceano
Grande parte desses sedimentos era transportada pelas chamadas correntes de turbidez. Tratava-se de fluxos subaquáticos densos, carregados de areia e lama e capazes de se deslocar rapidamente pelas vertentes submarinas devido à ação da gravidade.
Quando chegavam a zonas com menor inclinação, as correntes perdiam velocidade e deixavam progressivamente cair os materiais que transportavam. Primeiro depositavam-se as partículas maiores e, posteriormente, os sedimentos mais finos que permaneciam suspensos na água.
Cada corrente deixou uma camada nas rochas
A passagem sucessiva destas correntes originou camadas de grauvaque intercaladas com sedimentos mais finos. Ao conjunto destas sequências dá-se o nome de turbiditos, precisamente por terem resultado da deposição provocada pelas correntes de turbidez.
Com a acumulação contínua dos materiais, os sedimentos começaram a compactar-se. As argilas deram origem aos pelitos laminados, enquanto outras camadas acabariam por formar os grauvaques que atualmente fazem parte da paisagem geológica da serra Algarvia.
Oceano desapareceu quando dois continentes colidiram
Os materiais que chegavam ao fundo do Rheic tinham origem nos antigos continentes situados nas suas margens, Euramérica e Gonduana. Com o passar de milhões de anos, estas duas grandes massas continentais aproximaram-se até acabarem por colidir.
Segundo a mesma fonte, essa colisão provocou o fecho do Oceano Rheic e contribuiu para a formação do supercontinente Pangeia. As forças tectónicas deformaram os sedimentos acumulados no fundo marinho, incorporando-os progressivamente na Cadeia de Montanhas Varisca e deixando dobras e falhas que ainda hoje podem ser observadas.
Vale Fuzeiros conserva rochas com mais de 300 milhões de anos
Em Vale Fuzeiros aflora a chamada Formação Brejeira, cujas rochas têm entre 318 e 307 milhões de anos. A sua formação ocorreu aproximadamente numa altura em que começavam a surgir os primeiros répteis, dando uma dimensão da antiguidade do património geológico existente neste ponto do Algarve.
Nas rochas ainda podem ser identificadas marcas deixadas pelas antigas correntes, estruturas de erosão na base das camadas de grauvaque e até impressões de plantas. Alguns destes fragmentos vegetais terão sido arrastados para o fundo marinho pelas mesmas correntes que transportavam areia e lama.
Fósseis ajudam a reconstruir um mar profundo
A Formação Brejeira revelou também fósseis de goniatites, moluscos marinhos já extintos que possuíam conchas em forma de espiral. A presença destes animais constitui mais uma pista sobre o ambiente marinho profundo que existiu nesta região há centenas de milhões de anos.
As sucessivas “avalanches” submarinas acabaram por depositar grandes quantidades de sedimentos que, depois de submetidos a pressão e calor, deram origem aos xistos e grauvaques da serra. Vale Fuzeiros conserva, assim, marcas de um oceano entretanto desaparecido e de uma época em que a paisagem do atual Algarve era completamente diferente.
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