Quem escreve Fuseta ou Fuzeta não precisa de procurar muito para encontrar exemplos das duas formas. A vila do concelho de Olhão surge identificada de ambas as maneiras, incluindo em referências de entidades públicas, o que ajuda a explicar a dúvida sobre a sua grafia.
No plano administrativo, a resposta é clara: a freguesia está oficialmente identificada como Fuseta. O Portal Autárquico da Direção-Geral das Autarquias Locais utiliza esta forma, tal como a Câmara Municipal de Olhão na identificação da respetiva Junta de Freguesia. Isso não significa, porém, que Fuzeta seja apenas um erro popular.
“Fuzeta” está documentada há séculos
A grafia com “z” está longe de ser uma invenção recente. Um estudo de Pedro Miguel Mascarenhas de Brito e João Gabriel Candeias Dias Soares, disponível no repositório da Universidade do Algarve, identifica formas históricas como Fozeta, Foseta e Fuzeta. Segundo os autores, esta última predomina nos mapas referentes à povoação a partir do século XVIII.
O mesmo trabalho refere um alvará da rainha D. Catarina, de 1551, onde surge a designação “Armação da Fozeta”, e um documento de 1572 que volta a empregar Fozeta. Com o passar do tempo, Fuzeta ganhou expressão e ficou associada à consolidação da identidade da povoação.
Hoje, a designação administrativa é Fuseta
A investigação associa a adoção administrativa de Fuseta a uma alteração do Código Administrativo, citando um trabalho de Mascarenhas publicado em 1962. A utilização oficial da forma com “s” é, portanto, anterior à reorganização recente das freguesias.
Na reorganização de 2025, a Lei n.º 25-A/2025, de 13 de março, previu a reposição das freguesias de Moncarapacho e de Fuseta, até então agregadas. O diploma utiliza expressamente Fuseta e estabeleceu que a reposição produziria efeitos com a instalação dos novos órgãos eleitos nas autárquicas desse ano.
Até entidades públicas continuam a usar “Fuzeta”
A variante com “z” não desapareceu das referências institucionais. A Autoridade Marítima Nacional, por exemplo, identifica no seu portal a “Delegação Marítima da Fuzeta”, utilizando também essa grafia na respetiva morada.
O Património Cultural, I. P., abordou expressamente esta diferença numa informação técnica de julho de 2025 sobre o edifício local do Instituto de Socorro a Náufragos. O documento propôs conservar Fuzeta na designação do imóvel, apesar de reconhecer que vários organismos utilizam Fuseta e que algumas referências municipais alternam entre as duas formas.
A grafia com “z” foi, entretanto, usada no Anúncio n.º 65/2026, publicado no Diário da República de 30 de março, que abriu o procedimento de classificação do “Edifício do Instituto de Socorro a Náufragos da Fuzeta”. Trata-se da designação utilizada nesse procedimento patrimonial, não de uma alteração do nome administrativo da freguesia.
Origem do nome também ajuda a explicar a dúvida
Uma das explicações históricas relaciona o topónimo com a palavra foz. A informação técnica do Património Cultural apresenta Fozeta como uma forma documentada no século XVI e, citando o Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, associa a passagem para Fuzeta à confusão entre “Fo-” e “Fu-” na sílaba inicial não acentuada.
Contudo, a origem do nome não é apresentada como definitivamente esclarecida no estudo disponível no repositório da Universidade do Algarve. Os autores reúnem diferentes hipóteses etimológicas, embora documentem a ligação histórica entre as formas Fozeta e Fuzeta.
Então qual das duas deve ser usada?
Para reproduzir a designação administrativa atual da freguesia, a forma a utilizar é Fuseta, tal como consta da legislação e do registo da Direção-Geral das Autarquias Locais. Nas designações de organismos, imóveis ou documentos históricos, importa respeitar a grafia que lhes corresponde.
Já no plano linguístico, Fuzeta tem defensores. Numa resposta publicada em 16 de fevereiro de 2006 no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, José Mário Costa defendeu a escrita com “z”, apoiando-se na origem associada a foz e em dicionários de toponímia. A recomendação linguística distingue-se, assim, da forma adotada administrativamente.
As duas grafias contam parte da história da povoação, mas a resposta depende do contexto: Fuseta é a designação administrativa oficial da freguesia; Fuzeta mantém fundamento histórico, é defendida em referências linguísticas e continua a aparecer em designações institucionais. Reduzir a segunda forma a um simples erro não faz justiça à documentação existente.















