Uma roda de ferro, feita por um ferreiro para um menino brincar, pode parecer um episódio pequeno. Nas palavras de Arménio Aleluia Martins, torna-se memória de uma pessoa, de um ofício e de uma terra. O menino era ele; o ferreiro, José Martins.
Talvez esteja aqui uma das qualidades mais bonitas do seu percurso: reconhecer grandeza onde outros poderiam ver apenas uma história sem importância. Aos 86 anos, o jornalista e escritor publica Cidadãos que Conheci em Paderne, o seu 13.º livro. Reúne 63 biografias, cruzando recordações com fotografias, documentos e testemunhos. Mas faz mais do que guardar o passado: devolve presença às pessoas que ajudaram a construir a comunidade.
A entrevista publicada nesta edição mostra um homem para quem o afeto não dispensa o rigor. A gratidão, explica, não autoriza a acrescentar qualidades ou acontecimentos. É uma lição de jornalismo e também de respeito: homenagear alguém exige conhecer a sua vida, não inventar-lhe uma grandeza conveniente.
Esse compromisso atravessa um percurso que merece reconhecimento. Dirigiu A Avezinha, Hora de Albufeira e Diário do Algarve, trabalhou na rádio e nas agências noticiosas e fundou a Biblioteca-Museu do Jornal A Avezinha. Ao jornalismo juntou o associativismo, o teatro, a música e o desporto. Não se limitou a contar a vida da sua terra: participou nela.
Ao recordar Maria da Conceição Elói e Maria Feliciana Marim Marques, entre as fundadoras de A Avezinha, dá também lugar às mulheres que escreveram e fizeram a história local.
Paderne pode orgulhar-se deste trabalho. E o Algarve deve reconhecer ne-le uma forma de serviço público: preservar aquilo que nenhuma estatística consegue substituir, a experiência concreta das pessoas. Uma região também se conhece pela atenção que dedica a quem a construiu, longe da notoriedade.
Esta homenagem não pretende encerrar um percurso. Pretende agradecer uma presença e acompanhar o trabalho que continua. Quem dedicou tantas páginas aos outros merece encontrar, nestas páginas, o reconhecimento da comunidade.
A roda do ferreiro sobreviveu na memória do menino. Arménio transforma agora essa memória numa herança partilhada.
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