Preservar a memória de quem ajudou a construir Paderne é o propósito de Cidadãos que Conheci em Paderne, o 13.º livro de Arménio Aleluia Martins. Publicada pela Arandis Editora, a obra reúne 63 biografias de pessoas que o jornalista e escritor conheceu, cruzando recordações pessoais com fotografias e testemunhos de familiares e amigos. Das oficinas às associações, da poesia à imprensa, estes percursos ajudam a compreender a história da freguesia e a transmiti-la às novas gerações.
Das recordações pessoais à memória coletiva
Em Cidadãos que Conheci em Paderne, reúne 63 biografias de pessoas com quem conviveu. O que tornou necessário transformar essas relações pessoais numa memória partilhada da terra?
Foi a vontade de preservar a memória de pessoas que deram muito a Paderne, cada uma à sua maneira. Conheci-as, convivi com elas e guardei episódios que não dizem respeito apenas à minha vida. Através dessas pessoas, também podemos conhecer melhor a terra: o trabalho, as atividades culturais, as associações, as relações familiares e os gestos de solidariedade.
Quando comecei a escrever estas crónicas, estava longe de imaginar que um dia formariam um livro. O trabalho foi aproximando recordações e testemunhos, permitindo reunir histórias que fazem parte da identidade da nossa freguesia. Como escrevi na nota de abertura, foi, acima de tudo, um exercício de gratidão.
Também reconheço que ficaram pessoas por biografar. O tempo não permitiu registar todas as vidas que mereciam estar nestas páginas. Por isso, não apresento este livro como uma história completa de Paderne. É um contributo para que algumas dessas vidas continuem a ser conhecidas e para que outras possam ainda ser contadas.
“Escrever este livro foi, acima de tudo, um exercício de gratidão.”

Define este livro como um “exercício de gratidão”. Como conciliou o afeto pelos biografados com o rigor do jornalista, sobretudo ao cruzar as suas recordações com os testemunhos das famílias?
O afeto é uma razão para escrever, mas não deve substituir a informação. Conhecer uma pessoa permite recordar um gesto ou uma conversa; não significa conhecer todos os momentos da sua vida. Neste trabalho, a minha memória juntou-se à colaboração dos familiares e amigos dos biografados.
Essas pessoas facultaram-me informações, documentos e fotografias que foram fundamentais para construir os retratos. Não são apenas elementos que acompanham o texto: ajudam a situar as pessoas nas suas famílias, nas suas atividades e na comunidade. A disponibilidade e a confiança de quem colaborou deram uma dimensão mais ampla às recordações que eu tinha guardado.
Entendo a gratidão como o reconhecimento do que alguém fez, e não como uma licença para lhe acrescentar qualidades ou acontecimentos. O respeito por estas pessoas pede que a homenagem permaneça ligada às suas vidas concretas. Foi esse património humano que procurei preservar, com a ajuda de quem também o conheceu.
O valor dos gestos e das vozes menos ouvidas
No retrato do ferreiro José Martins, recorda uma roda que ele lhe fez para brincar. O que torna alguém digno de figurar na história de uma terra, para além dos cargos ou da notoriedade?
A marca que deixa na vida dos outros. No caso de José Martins, guardo a recordação de um homem que, na sua oficina, transformou um pedaço de ferro numa roda com a qual percorri as ruas da aldeia. É um episódio simples, mas permite recordar uma pessoa através das suas mãos, do seu ofício e da relação que estabeleceu comigo.
Um cargo pode ajudar a compreender um percurso, mas não o resume. Uma terra também se constrói com o trabalho de quem mantém uma oficina, ensina, toca numa banda, escreve versos ou participa numa associação. É importante olhar para essas contribuições sem medir todas as vidas pela mesma forma de reconhecimento.
No retrato de José Martins, acompanho também a família e o percurso das filhas, ligadas ao ensino, à poesia, à economia, ao teatro e à solidariedade. Essa continuidade ajuda a perceber que uma biografia não termina na atividade profissional de uma pessoa: prolonga-se nas relações que criou e na vida da comunidade.
Conta que Amélia da Silva Júdice rasgava os próprios poemas por receio de não serem aceites. Que dificuldades encontrou ao recuperar o contributo das mulheres para a vida cultural de Paderne?
A história de Amélia mostra logo uma dificuldade: uma parte da criação não chegou a conservar-se. Os poemas que rasgou deixaram de poder ser lidos. Ficou, porém, o testemunho desse receio e ficou a obra que mais tarde partilhou. Depois da morte do marido, começou a escrever com maior frequência e a publicar em A Avezinha. Os filhos promoveram depois, no Brasil, a edição dos seus livros.

É importante não confundir a falta de oportunidade ou de reconhecimento com a ausência de talento. No livro, refiro as limitações que Amélia encontrou no acesso aos estudos. Outro percurso é o de Albertina Coelho Rodrigues, que não frequentou a escola e cuja poesia guardada na memória encontrou ajuda para chegar à escrita. São experiências diferentes, mas ambas mostram quanto dependia de alguém escutar, incentivar e conservar.
Quero, neste contexto, dar especial relevo a Maria da Conceição Elói. Apesar de não ter prosseguido os estudos depois da escola primária, continuou a aprender através da leitura dos clássicos e do contacto com pessoas que lhe proporcionaram conhecimentos de francês e de piano. Ao longo de cerca de setenta anos, escreveu poesia, contos, novelas e crónicas jornalísticas. A sua atividade literária esteve também ligada à vontade de ajudar os mais desfavorecidos, preocupação que esteve na origem do jornal manuscrito A Avezinha, em 1921.
Quero igualmente destacar Maria Feliciana Marim Marques, uma das quatro fundadoras do jornal, que assinava com o pseudónimo “Violeta”, enquanto Maria da Conceição Elói usava “Madressilva”. Recordá-las é reconhecer que as mulheres não foram apenas tema das páginas da imprensa local: estiveram também na sua origem, tomando a iniciativa de escrever e de comunicar com a comunidade.
Ao recuperar estas vidas, interessa-me que as mulheres sejam conhecidas pelo que criaram e fizeram, e não apenas pelas suas relações familiares. O que sobreviveu merece ser lido; o que se perdeu deve lembrar-nos a importância de dar atenção às vozes que ainda podemos ouvir.
“Cada conversa foi uma descoberta; cada memória partilhada, uma peça indispensável
do património humano de Paderne.”

Trabalho, mudança e imprensa regional
A história de José Cordeiro Bispo e da sua família passa da cerâmica ao turismo. Como ajudam estes percursos a compreender as mudanças de Paderne e do Algarve para além da imagem de destino de férias?
Ajudam a perceber que, por detrás de uma transformação económica, existem pessoas, decisões, trabalho e relações familiares. José Cordeiro Bispo chegou a Paderne em 1960, com António Simões Vicente, para negociar uma pequena fábrica de tijolos e telhas em Mem Moniz. A atividade começou em arrendamento e passou depois à propriedade. Naquele espaço, onde tinham existido um lagar e uma moagem, desenvolveu-se o trabalho da cerâmica.
O seu percurso estendeu-se a outros investimentos, e a família deu continuidade aos projetos turísticos em Albufeira. Essa continuidade é importante: não se trata apenas da história de um empresário, mas de um caminho prosseguido por diferentes gerações.
Quando acompanhamos estas vidas, encontramos um Algarve de agricultores, oficinas, fábricas, comércio e associações, e percebemos como essas atividades se relacionaram com o turismo. A região não pode ser compreendida apenas através daquilo que oferece a quem a visita. É também o lugar onde as pessoas trabalham, constituem família e constroem o seu futuro. As biografias permitem dar nomes e percursos a essa história.

A imprensa regional e a memória das suas fundadoras
Recorda a oferta de décadas de exemplares de A Avezinha por uma assinante. Que parte da história de Paderne e do Algarve ficaria por contar sem o trabalho da imprensa regional?
Ficaria muito mais difícil conhecer a vida quotidiana das comunidades. A imprensa regional dá espaço a pessoas, iniciativas e acontecimentos que, muitas vezes, não encontram lugar noutros jornais. E aquilo que parece pequeno quando é publicado pode tornar-se indispensável para compreender uma época.
A oferta foi feita por D. Paula Trindade Anacleto, uma assinante dedicada de A Avezinha, quando o jornal regressou à publicação. Entregou-me exemplares desde a fundação até 19 de dezembro de 1949. No livro, recordo essa documentação, guardada na Biblioteca-Museu do Jornal A Avezinha e integrada no Arquivo Municipal de Albufeira. Foi um gesto de preservação com valor para toda a comunidade.
Preservar o jornal é também preservar a memória de quem lhe deu vida. Por isso, faço questão de lembrar Maria da Conceição Elói e Maria Feliciana Marim Marques entre as suas fundadoras. Quando A Avezinha retomou a publicação, em maio de 1977, Maria da Conceição Elói assumiu a direção. Havia nessa continuidade uma ligação entre a origem do jornal e a vontade de o devolver aos leitores de Paderne.
A ligação à poetisa teve ainda outra expressão importante: depois da sua morte, A Avezinha promoveu a publicação dos seus versos em livro, concretizando um desejo que ela não realizara em vida. Com o apoio da Santa Casa da Misericórdia de Albufeira, Ecos da Minha Voz saiu em janeiro de 1983, com o título que a própria autora escolhera. É um exemplo concreto de como um jornal pode ajudar a preservar e a divulgar a criação literária de uma comunidade.
O próprio livro mostra também o papel do jornal na divulgação da poesia de Amélia da Silva Júdice e de Maria de Lurdes, filha do ferreiro José Martins. A imprensa não guardou apenas notícias: ajudou a tornar visível uma criação que podia ter permanecido nas gavetas. É essa ligação entre informação, cultura e proximidade que considero tão importante conservar.
“Porque uma terra vive das suas paisagens, mas perdura sobretudo pela memória
das suas gentes.”

Uma herança para continuar
Escreve que uma terra perdura pela memória das suas gentes. O que gostaria que um jovem de Paderne fizesse com este livro, para que ele não se limitasse a guardar o passado?
Gostaria que o usasse como ponto de partida para fazer perguntas. Que procurasse saber quem foram as pessoas cujos nomes encontra nas ruas, nas associações ou nas conversas da família. Que olhasse para uma fotografia antiga e tivesse vontade de identificar os rostos, o lugar e a ocasião.
Não lhe pediria que vivesse voltado para trás, nem que repetisse o caminho destas pessoas. Cada geração tem a sua vida para construir. Mas conhecer o que outros fizeram pode ajudar a perceber melhor aquilo que recebemos e a responsabilidade de lhe dar continuidade.
Há também histórias que não couberam neste livro. Um jovem pode encontrar, na sua própria família ou entre os vizinhos, testemunhos que acrescentem outras páginas à memória de Paderne. Gostaria que a leitura despertasse essa curiosidade e esse cuidado.
Se este trabalho levar alguém a ouvir uma pessoa mais velha, a conservar um documento ou a contar uma história que ainda não foi registada, já estará a fazer mais do que guardar o passado. Estará a preparar aquilo que as gerações seguintes poderão conhecer de nós.

Arménio Aleluia Martins: uma vida entre a imprensa, a cultura e Paderne
O jornalismo, a música, o teatro, o desporto e o associativismo cruzam-se no percurso de Arménio Aleluia Martins. Aos 86 anos, o escritor padernense publica Cidadãos que Conheci em Paderne, o seu 13.º livro, dando continuidade a uma atividade em que a informação, a criação cultural e a memória da comunidade ocupam lugares centrais.
A sua formação passou pelos cursos de Guia-Intérprete, pelo SNI, e de Direito do Trabalho, pelo ITE, a que se juntou o curso de Jornalismo e Gestão do Centro de Formação dos Jornalistas de Paris. Em França, estagiou no diário Le Progrès, em Lyon, antes de regressar a Portugal e desenvolver uma carreira ligada a jornais, rádios e agências noticiosas.
Dos jornais à rádio
Arménio Aleluia Martins dirigiu os jornais regionais A Avezinha, Hora de Albufeira e Diário do Algarve. Na rádio, foi diretor de informação da Rádio Albufeira e da Rádio Barrocal e colaborou com a RDP.
Foi também correspondente do Diário de Notícias e delegado no Algarve da agência noticiosa ANOP e do jornal O País. A estas funções somam-se colaborações com outros jornais e estações de rádio, regionais e nacionais. A ligação à preservação documental tem expressão na Biblioteca-Museu do Jornal A Avezinha, em Paderne, de que é fundador. O novo livro prolonga esse interesse pela memória: reúne biografias acompanhadas de fotografias, num trabalho que contou com informações e documentos facultados pelas famílias.
Uma presença nas associações e na vida cultural
No movimento associativo, presidiu à Associação de Imprensa Regionalista do Algarve, ao Clube de Golfe da Comunicação Social, ao Padernense Clube, à Sociedade Musical e Recreio Popular de Paderne e ao Imortal Basket Club.
A nota biográfica fornecida ao POSTAL identifica-o ainda como presidente da direção do Grupo de Amigos de Paderne e das assembleias da Casa do Povo de Paderne, da Casa do Benfica em Albufeira e da Associação Prime Skills, além de dirigente da Associação de Pesquisa e Estudo da Oralidade.
A participação cultural não se limitou às funções diretivas. Foi ator e diretor de grupos de teatro, músico na banda da Sociedade Musical de Paderne e monitor de cursos de teatro e jornalismo. É autor e coordenador editorial de livros e revistas, tendo também proferido palestras e apresentado trabalhos em congressos.
Reconhecimento pelo trabalho desenvolvido
Entre as distinções recebidas encontram-se a Medalha de Honra Municipal de Grau Ouro, atribuída pela Câmara Municipal de Albufeira, e o Louvor de Mérito Jornalístico da Comunicação Social Regional e Local, atribuído pelo Secretário de Estado do Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro.
Foi igualmente homenageado pelo Governo Civil de Faro e distinguido como Profissional do Ano pelo Rotary Club de Albufeira.
Com Cidadãos que Conheci em Paderne, publicado pela Arandis Editora, com prefácio de Nuno Campos Inácio e apoio da Junta de Freguesia de Paderne, volta a centrar a escrita nas pessoas da sua terra. As 63 biografias recuperam percursos que conheceu e acompanhou, acrescentando ao registo dos nomes as atividades, as relações e as histórias que os ligaram à comunidade.
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