Os carros modernos estão cada vez mais ligados à internet, mas essa conectividade pode ter um preço em termos de privacidade. Uma investigação realizada nos Estados Unidos concluiu que vários automóveis e aplicações das respetivas marcas comunicam com empresas externas, por vezes enviando informação que permite identificar o proprietário ou acompanhar a sua localização.
O estudo, conduzido por investigadores da Northeastern University em colaboração com a Consumer Reports, analisou 21 veículos de 19 marcas e 30 aplicações móveis, procurando perceber que informação saía dos carros e para onde era enviada.
19 carros contactaram pelo menos uma entidade externa
Durante os testes, os investigadores monitorizaram o tráfego de internet produzido pelos veículos em diferentes situações, incluindo com o carro parado e em circulação.
Dos 21 automóveis analisados, 19 estabeleceram através de Wi-Fi ligações a pelo menos uma entidade externa, incluindo serviços associados a publicidade, rastreamento e análise de utilização. Entre os modelos que estabeleceram contactos com mais empresas deste género estavam o Tesla Model 3, o Cybertruck, o Cadillac Lyriq, o Chevrolet Blazer e o Lucid Air.
Importa, contudo, ressalvar que o estudo foi realizado nos Estados Unidos e com versões específicas dos veículos e das aplicações. Os resultados não permitem concluir automaticamente que um determinado modelo vendido em Portugal tenha exatamente o mesmo comportamento.
Aplicações chegaram a enviar localização e e-mail
Os investigadores encontraram sinais ainda mais claros nas aplicações móveis utilizadas para controlar funções dos automóveis.
Das 30 aplicações testadas, 28 comunicaram com pelo menos uma empresa externa de publicidade ou análise de dados. Sete enviaram informação pessoal identificável, incluindo elementos como o VIN (número único de identificação do automóvel), endereços de e-mail ou a localização geográfica precisa.
O problema é que a combinação destes elementos pode tornar mais fácil associar os hábitos de utilização de um automóvel a uma pessoa concreta e a outros perfis de dados existentes no mercado digital.
Empresas como Google, Amazon e Meta aparecem entre os destinatários
Entre as entidades contactadas pelos sistemas analisados surgiram empresas tecnológicas e de publicidade ou análise, incluindo grupos como Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft, entre várias outras.
Os fabricantes contactados pelos investigadores salientaram que nem todas estas ligações significam que os dados sejam vendidos ou utilizados livremente por terceiros. Algumas empresas afirmaram que os contratos com fornecedores impedem a utilização independente da informação recebida.
A Honda, por exemplo, pediu a um fornecedor que eliminasse informação de localização que tinha recebido e alterou posteriormente a sua aplicação para deixar de transmitir esses dados, depois de ser confrontada com os resultados da investigação.
Na Europa há regras específicas para os carros conectados
Na União Europeia, este tipo de tratamento de informação está sujeito às regras de proteção de dados. O Comité Europeu para a Proteção de Dados alerta precisamente para os riscos associados aos veículos conectados e recomenda que, sempre que possível, os dados sejam tratados dentro do próprio automóvel ou do telemóvel do utilizador, evitando o envio desnecessário para entidades externas.
O organismo europeu destaca particularmente informação sensível como localização, dados biométricos ou elementos relacionados com infrações, defendendo medidas de segurança reforçadas e transparência sobre a forma como os dados são utilizados.
Condutor deve saber o que está a aceitar
A investigação aponta sobretudo para uma diferença entre aquilo que muitos consumidores imaginam estar a acontecer e a complexidade real do ecossistema digital de um automóvel.
Aceitar os termos de uma aplicação pode permitir funcionalidades úteis, como localizar o carro, abrir portas à distância ou consultar informação sobre manutenção, mas também pode autorizar determinados tratamentos de dados.
Por isso, quem utiliza um veículo conectado deve verificar as definições de privacidade do automóvel e da aplicação da marca, as permissões de localização e as opções disponíveis para limitar a partilha de informação. Na União Europeia, a recolha de dados pessoais continua sujeita aos princípios de necessidade, transparência e proteção previstos na legislação de privacidade.
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