No alto de uma falésia voltada para o oceano Atlântico encontram-se os vestígios de uma pequena povoação onde pescadores viveram há cerca de 900 anos. As escavações arqueológicas permitiram identificar 19 estruturas habitacionais, vários objetos utilizados na pesca e utensílios domésticos que ajudam a compreender o quotidiano de uma comunidade muçulmana instalada na costa algarvia durante a Idade Média.
O local chama-se Ponta do Castelo e situa-se junto à Carrapateira, na freguesia da Bordeira, concelho de Aljezur, a norte da Praia do Amado. Segundo um estudo da arqueóloga Rosa Varela Gomes, publicado na obra Terra e Sal, os vestígios pertencem a um povoado ocupado entre meados do século XII e o início do século XIII, provavelmente por pescadores que ali permaneciam apenas durante determinadas épocas do ano.
Arqueólogos encontraram vestígios de 19 pequenas casas
As investigações permitiram identificar os restos de 19 estruturas habitacionais, construídas sem um plano urbanístico previamente definido. Segundo a autora, as casas apresentavam uma planta aproximadamente retangular e tinham dimensões reduzidas, com áreas interiores compreendidas entre 5,55 e 9,36 metros quadrados. Cada habitação possuía apenas uma divisão, utilizada para diferentes atividades do quotidiano.
As paredes foram construídas em taipa, sobre bases de pedra calcária, e algumas conservavam vestígios de revestimentos de cal e areia. Os pavimentos eram sobretudo de terra batida, embora existissem espaços revestidos com pequenas pedras. Os investigadores identificaram ainda três fornos, conhecidos como tannur, que seriam utilizados para cozinhar alimentos, incluindo pão produzido a partir dos cereais moídos pela comunidade.
Comunidade poderá ter vivido junto ao mar apenas durante alguns meses
A localização do povoado, num promontório exposto aos ventos fortes e à humidade do Atlântico, levou os investigadores a considerar que as habitações não seriam ocupadas durante todo o ano. A hipótese apresentada no estudo aponta para uma utilização sazonal, possivelmente na primavera e no verão, quando as condições meteorológicas eram mais favoráveis à pesca.
Segundo a mesma investigação, os pescadores poderão ter vivido noutras localidades próximas durante os meses mais frios, dedicando-se então à agricultura. Esta combinação de atividades terrestres e marítimas permitiria garantir a subsistência das famílias ao longo do ano, aproveitando os recursos disponíveis em cada estação.
Anzóis, arpões e instrumentos de pesca foram encontrados nas escavações
O conjunto de objetos recolhidos constitui uma das principais fontes de informação sobre os antigos habitantes. Entre os materiais identificados encontram-se anzóis de ferro, pesos e agulhas de rede, arpões, facas e instrumentos que poderão ter sido utilizados na captura e recolha de diferentes espécies marinhas.
Também foram recuperados utensílios de cerâmica, incluindo panelas, cântaros, jarros, frigideiras e recipientes destinados ao armazenamento de água. Um dos achados mais curiosos foi uma peça retangular feita a partir de um grande osso de baleia, com 89 centímetros de comprimento, encontrada no interior de uma casa e que poderá ter servido como bancada. A presença deste objeto não permite, por si só, concluir que os habitantes capturavam baleias.
Vestígios começaram a ser estudados ainda no século XIX
A existência de estruturas antigas na Ponta do Castelo já tinha despertado o interesse do arqueólogo Estácio da Veiga, que realizou escavações no local e descreveu os seus achados numa publicação de 1887. Na altura, identificou restos de uma construção e materiais que não conseguiu datar com segurança, embora alguns fragmentos de cerâmica islâmica tenham ficado associados ao sítio.
Mais de um século depois, foram realizadas novas intervenções arqueológicas, em 2001 e 2008, com a participação de estudantes da Universidade Nova de Lisboa. Os trabalhos permitiram conhecer melhor a organização do povoado e identificar materiais que situam a ocupação entre meados do século XII e os primeiros anos do século XIII. A análise das cerâmicas revelou semelhanças com objetos encontrados noutros locais islâmicos do Algarve, incluindo o Ribat da Arrifana e os castelos de Aljezur e Silves.
Hoje ainda é possível observar os vestígios junto à Carrapateira
A Ponta do Castelo encontra-se junto ao Portinho da Carrapateira, uma pequena enseada que continua a ser utilizada por embarcações de pesca artesanal. Segundo a Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur, os vestígios constituem um testemunho importante da exploração dos recursos marinhos pelas comunidades islâmicas que habitaram a região.
O sítio também integra os locais de interesse identificados pela Junta de Freguesia da Bordeira, permitindo aos visitantes conhecer uma parte menos divulgada da história da Costa Vicentina. As estruturas que subsistiram ajudam a perceber como vivia uma comunidade que dependia do mar para se alimentar e obter recursos, numa paisagem onde a atividade piscatória continua a fazer parte da identidade local.
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