Uma ermida situada na parte alta de Alcoutim, no Algarve, ficou ligada a um dos episódios mais marcantes da história da vila. Durante as grandes cheias do Guadiana, em dezembro de 1876, os habitantes procuraram refúgio no edifício religioso e ali permaneceram durante a noite, enquanto as águas atingiam a zona mais baixa da localidade.
Segundo consta no portal do Município de Alcoutim, o episódio aconteceu a 7 de dezembro de 1876, precisamente na véspera do dia de Nossa Senhora da Conceição. A ermida é dedicada à padroeira da vila e continua atualmente integrada num percurso que permite conhecer vários pontos históricos do centro alcoutenejo.
População passou a noite em vigília
Perante a subida das águas do Guadiana, vários habitantes deslocaram-se para a Ermida de Nossa Senhora da Conceição, onde encontraram abrigo numa posição mais elevada. Segundo a mesma fonte, a população passou ali a noite em vigília enquanto a inundação afetava as zonas junto ao rio.
A dimensão das cheias ainda pode ser recordada noutro ponto da vila. Na fachada da Igreja da Misericórdia existe uma marca que indica a altura alcançada pelas águas durante a grande inundação de 1876, permitindo perceber até onde chegou o Guadiana naquele episódio.
Ermida guarda elementos manuelinos e barrocos
O edifício religioso apresenta também características arquitetónicas que ajudam a distinguir a visita. No exterior encontra-se uma escadaria barroca voltada para a vila, enquanto a entrada conserva uma porta manuelina, dois elementos destacados pelo município no percurso pelo património de Alcoutim.
A localização elevada proporciona ainda uma perspetiva sobre o casario e a proximidade do rio que moldou durante séculos a vida local. O Guadiana funciona aqui como fronteira natural com Espanha e, da margem portuguesa, é possível observar a povoação espanhola de Sanlúcar de Guadiana.
Rio marcou a história da localidade
A relação de Alcoutim com o Guadiana ultrapassa o episódio das cheias. Conforme explica o portal do município, a navegabilidade do rio, a riqueza arqueológica e mineira da região e a posição fronteiriça contribuíram para vários momentos da história local, desde a presença de diferentes civilizações às lutas associadas à Reconquista e à defesa da fronteira.
Já junto à zona ribeirinha, outras referências remetem para atividades que durante décadas fizeram parte da vida junto à fronteira. No cais velho encontra-se uma estátua dedicada ao contrabandista, enquanto na zona do antigo posto da Guarda Fiscal existe uma representação do guarda fiscal.
O município destaca ainda uma lontra criada pelo artista Bordalo II e instalada no cais sul desde 2020. A obra integra a coleção Big Trash Animals e funciona como alegoria ao contrabando, associando o comportamento discreto do animal às movimentações daqueles que atravessavam clandestinamente a fronteira pelo Guadiana.
Das muralhas até à praia fluvial
Quem continuar a percorrer Alcoutim pode visitar a Casa dos Condes, edifício dos séculos XVII e XVIII atualmente utilizado como biblioteca municipal, a Igreja Matriz de São Salvador e o Castelo da Vila, de onde se obtêm vistas sobre o Guadiana e território espanhol.
Mais afastada do centro encontra-se a Praia Fluvial do Pego Fundo, instalada numa curva da Ribeira de Cadavais. Segundo a mesma fonte, muito antes da criação da atual zona balnear, aquele local já era utilizado por habitantes de Alcoutim e foi onde várias pessoas da terra aprenderam a nadar.
A história da cheia de 1876 acaba, porém, por ligar dois pontos particularmente próximos do centro: a ermida onde moradores procuraram segurança e a marca deixada na Igreja da Misericórdia pela subida das águas. Mais de um século depois, ambos continuam visíveis para quem percorre a vila.
É também por isso que uma visita à Ermida de Nossa Senhora da Conceição permite ir além da arquitetura religiosa. O edifício conserva a memória de uma noite em que a população teve de subir a vila para escapar ao Guadiana, num episódio que permanece associado a uma das maiores inundações registadas na história de Alcoutim.
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