À primeira vista, as pequenas construções de granito alinhadas sobre uma grande rocha podem fazer lembrar antigos túmulos. A verdadeira função, porém, era bastante diferente. Na aldeia de Soajo, no concelho de Arcos de Valdevez, existe uma eira comunitária formada por 24 espigueiros onde as famílias guardavam os cereais necessários à alimentação.
O conjunto encontra-se na periferia da zona habitada, num ponto elevado dominado por um grande afloramento granítico. Escreve o portal Visit Portugal que os espigueiros apresentam elementos dos séculos XVIII e XIX e foram utilizados sobretudo para conservar milho, uma cultura abundante nesta zona do norte do país.
O mais antigo nasceu em 1782
De salientar que o espigueiro mais antigo do conjunto data de 1782. A eira foi sendo ocupada por outras estruturas semelhantes até atingir as 24 construções que podem atualmente ser observadas lado a lado.
A escolha da pedra e da localização tinha uma função ligada à conservação dos alimentos. Ali eram armazenados os cereais recolhidos pela comunidade, numa época em que garantir reservas em boas condições era fundamental para assegurar a alimentação das famílias ao longo do ano.
Cruzes no topo não estão ali por acaso
Um detalhe chama particularmente a atenção em vários espigueiros: as cruzes colocadas na parte superior. Segundo o Visit Portugal, representam a proteção divina daquilo que se encontrava guardado no interior e, por extensão, da própria sobrevivência da comunidade.
A relação com o alimento era suficientemente importante para a fonte associar estas cruzes à ideia do “pão nosso de cada dia”. Os espigueiros eram, assim, mais do que simples elementos da paisagem rural, uma vez que protegiam uma parte essencial das colheitas de quem vivia em Soajo.
Eira comunitária continua ligada aos habitantes
O conjunto não deve ser entendido apenas como um vestígio abandonado de outros tempos. A eira comunitária ainda hoje é utilizada pela população, mantendo uma ligação entre o património e a vida da aldeia.
As 24 estruturas assentam sobre uma extensa base natural de granito. A concentração dos espigueiros num mesmo espaço revela também uma forma comunitária de organização, na qual diferentes famílias partilhavam a mesma área para armazenar aquilo que produziam.
Soajo guarda outro Monumento Nacional
Quem entra no núcleo da aldeia encontra ruas de pedra e pequenas casas construídas com blocos de granito. No centro destaca-se ainda o pelourinho de Soajo, classificado como Monumento Nacional desde 1910.
Um dos seus elementos mais curiosos é a representação de uma face humana, coroada por uma forma triangular que faz lembrar um chapéu de três bicos. A arquitetura tradicional acompanha o visitante até à zona onde se encontra a eira, um dos locais mais reconhecíveis da povoação.
Aldeia fica dentro do Peneda-Gerês
Soajo está inserida no Parque Nacional da Peneda-Gerês, numa área do concelho de Arcos de Valdevez marcada pela paisagem de montanha. Além do património construído, a região oferece percursos pedestres e outras atividades ao ar livre.
A gastronomia local mantém igualmente uma forte ligação ao território, com carne de raça barrosã, cabrito da serra, arroz de frango e vinho verde entre os produtos destacados pelo Visit Portugal. Contudo, é no alto da aldeia que permanece uma das imagens mais particulares de Soajo: 24 pequenas construções de granito que podem sugerir túmulos a quem as vê pela primeira vez, mas que foram erguidas para proteger o milho e outros cereais das famílias locais.
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