Um gesto tão habitual como cruzar as pernas enquanto está sentado pode alterar os valores da tensão arterial e fazer com que o aparelho apresente resultados superiores aos reais. Esta diferença pode parecer pequena, mas torna-se particularmente importante quando os valores estão próximos dos limites utilizados pelos profissionais de saúde para identificar a hipertensão.
Segundo a Direção-Geral da Saúde (DGS), a medição da pressão arterial deve ser realizada com as costas apoiadas, os pés assentes no chão e as pernas descruzadas. A recomendação consta da Norma n.º 001/2026, de 4 de março, dedicada ao diagnóstico e tratamento da hipertensão arterial, que estabelece os procedimentos a seguir para garantir resultados tão rigorosos quanto possível.
Cruzar as pernas pode aumentar os valores da tensão arterial
A posição do corpo tem influência nos resultados apresentados pelo aparelho de medição. Segundo uma declaração científica da Associação Americana do Coração, cruzar as pernas pode aumentar a pressão arterial sistólica, habitualmente conhecida como máxima, entre cinco e oito milímetros de mercúrio (mmHg), enquanto a diastólica, ou mínima, pode subir entre três e cinco mmHg.
Esta alteração pode ser suficiente para modificar a interpretação de uma medição, sobretudo quando os valores já se encontram próximos dos limites considerados elevados. Contudo, o aumento não significa necessariamente que a pessoa tenha hipertensão, uma vez que a posição incorreta pode provocar uma alteração temporária dos resultados.
Como deve estar sentado para medir corretamente a tensão?
A DGS recomenda que a pessoa permaneça sentada e em repouso durante, pelo menos, cinco minutos antes de iniciar a medição. O local deve ser confortável e tranquilo, enquanto as costas devem permanecer encostadas à cadeira e os pés completamente apoiados no chão, sem cruzar as pernas.
O braço também deve estar apoiado, sem roupa, com a braçadeira colocada à altura do coração. Segundo a mesma norma, é importante utilizar um aparelho validado e calibrado, bem como uma braçadeira adequada à dimensão do braço. Caso contrário, a leitura poderá ficar comprometida, mesmo que a pessoa esteja sentada na posição correta.
Café, tabaco e exercício também podem interferir
A posição das pernas não é o único fator capaz de alterar os resultados. De acordo com a DGS, devem ser evitados o exercício físico e o consumo de estimulantes, como café e tabaco, nos 30 minutos anteriores à medição. Estas situações podem influenciar temporariamente a pressão arterial e dificultar a interpretação dos valores obtidos.
Outro cuidado consiste em verificar se a bexiga está vazia antes de iniciar o procedimento. O regulador recomenda igualmente que a medição decorra num ambiente calmo e sem conversas. Estas precauções procuram reduzir as variações provocadas por fatores externos, permitindo obter uma avaliação mais representativa da pressão arterial.
Medição elevada significa que tem hipertensão?
Um resultado superior ao normal não é suficiente para estabelecer o diagnóstico de hipertensão. Segundo a Norma n.º 001/2026, devem ser realizadas pelo menos três medições durante a avaliação em consultório, com intervalos de um a dois minutos. Para determinar o resultado, é considerada a média das duas últimas leituras, podendo ser necessárias medições adicionais quando existem diferenças significativas.
Considera-se hipertensão uma pressão arterial igual ou superior a 140/90 mmHg no consultório, enquanto nas medições efetuadas em casa o limiar é de 135/85 mmHg. A confirmação pode exigir registos domiciliários, uma nova avaliação por um profissional de saúde ou a monitorização ambulatória durante 24 horas, conhecida como MAPA. Por isso, uma leitura elevada obtida com as pernas cruzadas não deve ser interpretada isoladamente como um diagnóstico.
Depois dos 40 anos, DGS recomenda avaliação anual
A norma publicada em março deste ano estabelece também recomendações sobre a frequência com que a pressão arterial deve ser avaliada. Para adultos com menos de 40 anos, a DGS aconselha uma medição pelo menos de três em três anos, enquanto as pessoas com 40 ou mais anos devem fazê-la anualmente, sem prejuízo de avaliações mais frequentes quando clinicamente indicadas.
A deteção da hipertensão é particularmente importante porque a doença pode desenvolver-se sem provocar sintomas evidentes. Quando não é controlada, aumenta o risco de problemas cardiovasculares, incluindo acidente vascular cerebral e doença cardíaca. Assim, garantir que a medição é realizada corretamente, com as pernas descruzadas e os pés apoiados no chão, constitui um cuidado simples que ajuda a evitar interpretações erradas e a orientar melhor as decisões clínicas.
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