Será o fim de uma era?
Estará a civilização, tal como a conhecemos, a dar os últimos estertores ? Estará o Estado Social à beira de um esgotamento que tantos insistem em ignorar?
A democracia, conquistada com sacrifício e consolidada ao longo de gerações, está a caminhar perigosamente para um ponto de ruptura?
Não são perguntas retóricas para alimentar pessimismos de circunstância. São interrogações legítimas, de quem observa o mundo e se recusa a confundir a normalidade aparente com a saúde das sociedades.
Enquanto cidadão deste planeta, com setenta anos de vida, confesso que olho para o desenrolar dos acontecimentos com uma apreensão crescente.
Não por ter perdido a esperança na Humanidade, mas porque começo a duvidar da capacidade de muitos dos seus dirigentes para compreenderem a gravidade do tempo em que vivemos.
As guerras que semeiam a morte e a fome, os conflitos alimentados pelo fanatismo religioso, os nacionalismos exacerbados, a intolerância, a brutalidade de uns e a complacência de tantos outros constituem sinais de uma regressão que julgávamos impossível depois das tragédias do século XX. A História ensinou-nos, a um preço terrível, o que acontece quando a razão se submete ao ódio, quando a dignidade humana se torna negociável e quando a indiferença passa a ser confundida com prudência.
Afinal, parece que aprendemos pouco.
Ou, pior ainda, que há quem tenha aprendido, mas prefira esquecer quando os seus interesses estão em causa.
Perante este cenário, impõe-se uma pergunta incómoda, a quem deve ser atribuída a culpa ?
A resposta talvez desagrade a muitos, sobretudo aos que gostam de distribuir culpas sem nunca examinarem a sua própria responsabilidade. TODOS. Sim, todos nós!
Naturalmente, não somos todos igualmente responsáveis.
Há quem decida, quem governe, quem legisle e quem instrumentos do poder.
disponha dos
Mas também há quem escolha, quem aplauda, quem se cale e quem, perante o evidente, prefira olhar para o lado.
A responsabilidade não é igual, mas ninguém pode reclamar inocência absoluta numa sociedade que ajudou, de uma forma ou de outra, a construir. Enquanto continuarmos a eleger políticos poucos ou nada honestos, impreparados ou incapazes de ultrapassar os interesses dos respetivos aparelhos partidários, dificilmente poderemos esperar resultados diferentes. Enquanto confundirmos fidelidade partidária com competência, propaganda com governação e lealdade ao líder com sentido de Estado, continuaremos a alimentar o problema de que depois nos queixamos.
A política, que eu pessoalmente adoro, que deveria ser uma das mais nobres formas de serviço à comunidade, transformou-se demasiadas vezes num exercício de sobrevivência pessoal, de gestão de interesses e de preservação de lugares.
Em certos casos, parece importar menos a qualidade das ideias do que a obediência de quem as repete, menos a competência de quem serve do que a utilidade de quem se submete.
E assim vamos assistindo à progressiva substituição do mérito pela conveniência, da reflexão pela frase feita e da responsabilidade pela arte de encontrar um culpado.
Há sempre uma justificação, um adversário a quem atribuir as falhas ou uma promessa renovada para adiar aquilo que deveria ter sido feito ontem.
Depois, admiram-se com o afastamento dos Cidadãos, com a descrença nas instituições e com o crescimento dos extremismos.
Como se tudo isto tivesse surgido por geração espontânea!
Não tenhamos ilusões, a democracia não se esgota apenas quando alguém fecha as portas de um parlamento ou proíbe eleições. Também se fragiliza quando as instituições perdem credibilidade, quando os eleitos deixam de prestar contas, quando a verdade é sacrificada no altar da conveniência e quando os Cidadãos começam a acreditar que votar é inútil.
A democracia não exige Cidadãos permanentemente satisfeitos.
Exige, isso sim, Cidadãos informados, exigentes e capazes de distinguir a divergência legítima da mentira, a autoridade do autoritarismo e a crítica construtiva da mera destruição.
Exige, sobretudo, representantes que compreendam que o mandato recebido nas urnas não é um cheque em branco, mas uma responsabilidade temporária perante a comunidade.
Haverá, então, esperança para um mundo melhor?
Sim.
Mas a esperança, por si só, não muda coisa alguma.
É preciso mudar mentalidades, reformar práticas, exigir competência e recuperar o sentido ético da vida pública.
É preciso que os partidos deixem de ser, em demasiadas circunstâncias, máquinas de promoção dos seus próprios quadros e voltem a ser espaços de pensamento, de debate e de recrutamento dos melhores.
É preciso que a lealdade não seja confundida com servilismo e que a discordância fundamentada deixe de ser tratada como uma ameaça.
E é preciso, também, que cada um de nós deixe de exigir aos outros aquilo que não está disposto a praticar.
Não podemos reclamar transparência e tolerar a opacidade quando nos convém, exigir seriedade e desculpar a falta dela quando vem do nosso lado, defender princípios universais e relativizá-los perante os interesses da nossa própria família política.
Como tantas vezes se recorda, numa frase popular atribuída a Eça de Queiroz, os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente, pela mesma razão.
Não sei se a autoria é rigorosa, mas a ideia permanece extraordinariamente atual.
Acrescentaria apenas que alguns estão há tanto tempo instalados que já confundem o lugar que ocupam com o direito de nunca o abandonar. Mas isto sou eu a cismar.
Afinal, destas coisas da política, da sociedade e do comportamento humano, pouco percebo, pelo menos, segundo a bitola daqueles que confundem o exercício de um cargo com o monopólio da razão.
E talvez seja precisamente aí que reside o problema, há quem, por ter um lugar, julgue possuir também o pensamento, quem, por ter poder, considere dispensável a humildade, e quem, por nunca ser contrariado, acabe, também, por confundir o silêncio dos outros com a confirmação da sua própria inteligência.
Às vezes, tenho a sensação de que estou a oferecer pérolas a porcos.
Não por me julgar dono da verdade, privilégio que deixo de bom grado aos iluminados de serviço, mas porque há ambientes em que pensar pela própria cabeça, questionar o estabelecido e dizer o que se pensa são exercícios de uma inconveniência quase intolerável.
Pois bem.
Continuarei a questionar, a discordar e a escrever enquanto tiver vontade e entender que vale a pena fazê-lo.
Não por ter a pretensão de mudar o mundo com meia dúzia de palavras, mas por me recusar a aceitar que o conformismo seja uma virtude e o silêncio uma obrigação.
A idade ensinou-me, pelo menos, uma coisa, não é a ausência de discordância que demonstra a inteligência de uma sociedade, mas a sua capacidade de conviver com ela sem a tentar silenciar.
Continuarei, por isso, politicamente (in) correto.
Até quando me apetecer.
Porque a liberdade de pensamento não carece de autorização dos aparelhos partidários, nem a consciência se submete a disciplina de voto.














