Decididamente, o problema nacional não reside apenas na escassez de habitações. Há questão talvez mais inquietante e, quem sabe, mais urgente: a qualidade daquelas que efetivamente existem.
Ensina a boa engenharia que uma casa deve assentar sobre sólidos alicerces, consumir apreciáveis quantidades de ferro e cimento e possuir robustez suficiente para enfrentar os caprichos da natureza. Num país onde, ciclicamente, os especialistas recordam os riscos sísmicos do território, seria até razoável esperar que uma habitação conseguisse resistir sem excessivo dramatismo a um sismo de magnitude respeitável.
Porém, entre a teoria e a prática, como tantas vezes sucede entre nós, abre-se um abismo.
Há casas que parecem ter sido construídas segundo princípios inteiramente inovadores. Não assentam sobre alicerces, mas sobre esperança. Não se mantêm de pé pela resistência dos materiais, mas pela benevolência da Providência. O observador menos prevenido chega a interrogar-se se o cimento terá sido efetivamente utilizado na obra ou se figurava apenas no orçamento.
Algumas construções inspiram tão escassa confiança que dificilmente se acredita terem sido concebidas para resistir a um sismo de grau sete. Pelo contrário, parecem preparadas para sucumbir à passagem de um camião mais pesado, a uma rajada de vento particularmente indiscreta ou ao fechar menos delicado de uma janela.
E, no entanto, continuamos a admirar-nos com os preços que atingem.
Pago o imóvel, o proprietário não adquire apenas uma casa. Adquire igualmente uma permanente experiência de incerteza estrutural, espécie de emocionante aventura que lhe permite descobrir, dia após dia, qual das paredes conservará ainda a verticalidade.
Foi neste contexto que se compreendeu melhor a perturbação que recentemente percorreu os corredores do poder, ao saber-se que, numa manifestação motivada pela falta de habitação, alguém teria sugerido atirar um tijolo à residência do primeiro-ministro.
O cidadão vulgar viu na frase uma metáfora infeliz, talvez um exagero próprio dos protestos populares. As autoridades, porém, conhecedoras da realidade da construção contemporânea, terão sido levadas a encarar a questão sob uma perspetiva mais técnica.
Numa primeira análise, poderia tratar-se de um problema de segurança.
Refletindo melhor, talvez se tratasse de um problema de engenharia.
É que um sismo de grau sete continua a ser uma eventualidade remota. Um tijolo, infelizmente, está ao alcance de qualquer contribuinte.
E talvez tenha sido precisamente essa a verdadeira origem do sobressalto governamental. Não o receio de que alguém atingisse a casa do primeiro-ministro com um tijolo.
Mas a possibilidade de acertar.
Leia também: A curiosa cidadania dos cidadãos que não devem fazer política | Por Luís Ganhão















